Saudades do Calimero

“Temos neste momento um clima de maior incerteza”, reconheceu, e, ao ser questionada sobre se atribui a mesma ao ‘chumbo’ do Tribunal Constitucional ao regime de mobilidade na função pública, disse que a mesma efetivamente contribuiu para o aumento da incerteza.

Sim, claro.

O clima de incerteza é mesmo contributo do Tribunal Consitucional.

Isso e o desemprego, a diminuição de pensões, o aumento de impostos, a perda de direitos, a perda de confiança dos agentes económicos, o convite aos nossos jovens para emigrar, etc.

Ah! Saudades do Calimero, mas o original.

Sente-se Aqui no meu Colo, Mamã

velhinhaSENTE-SE AQUI NO MEU COLO, MAMÃ

“sente-se aqui no meu colo, mamã, hoje faço anos”

Suavemente assim o fez. Quase não a senti. A minha mamã está tão levezinha, tão sem ser, tão quase nada. Encosto a minha mão, espalmada, na sua cara, sobre a face e a orelha esquerda

“que bom! – disse”

Que bom, pensei enquanto a cabeça da minha mamã se inclinava para o lado da minha mão e ma prendia de encontro ao seu ombro. Já há muito tempo que me não fazia isso

“que bom” – disse eu”

E beijei-a na testa, e encostei a minha testa à dela, e fiz movimentos de carinho com os dedos da minha mão direita. A minha mamã fez mais força com a cabeça, prendendo ainda mais a minha mão de encontro a ela, e sorriu.

Há muito tempo que a não via sorrir, ou falar, ou sequer reagir a um qualquer estímulo que eu lhe desse. A doença tinha-a comido e da minha mamã pouco restava. Qualquer dia nada sobraria mesmo, só a lembrança e a saudade.

“sente-se aqui no meu colo, mamã”

E a minha mamã sentou-se, quase sem que eu a sentisse de tão levezinha que estava. E ali ficamos os dois, um bom bocado, a apreciar o calor que transmitíamos um ao outro.

E eu sorrindo

“até amanhã, mamã”

e ela também com um leve sorriso nos lábios

“até amanhã, meu filho”

(Como Se Fora Um Conto)

 

Finalmente, consegui dizer-te!

Pela lei da vida, devias partir, eu sei. Aprisionado nessa quase inconsciência, já não sabendo se estavas do lado de cá ou de lá da ponte que liga as duas vidas, o fiozinho cada vez mais ténue, que te ligava a esta, partiu-se num estalido mínimo, imperceptível, e tu, definitivamente, já não estavas aqui. Soube-o ontem, por um amigo comum, com quem reeditei uma tradição de almoçarmos às quartas-feiras, sanadas as mais importantes sequelas dum enfarte e que te trouxe com 25 quilos a menos, mas muito mais resistência, já consegues andar sem parares de trinta em trinta metros, que bom, fiquei contente.

Então lá foste desfiando os amigos que já não se sentarão mais à mesa. Entre eles, ele!

(Estou a ficar velho, já passo de uma personagem a outra, com esta facilidade a que a idade me vai guiando cada vez mais… Ou será propositado? Às tantas, vou ter de multiplicar os que restam para ainda me parecerem muitos.)

Voltando a falar contigo, o que partiu, devo dizer-te, para despedida, que tinha uma enorme inveja de ti. Tinha eu dezassete, quase dezoito, entrei no Expresso depois do meu primeiro dia de trabalho. A pessoa que me abriu as portas do emprego tinha sido a mesma que me apresentou ao dono do restaurante económico, casa de pasto para ser mais preciso, dizendo-lhe que eu era o novo cliente ao jantar (ao almoço, tinha a cantina). [Read more…]

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