Finalmente, consegui dizer-te!

Pela lei da vida, devias partir, eu sei. Aprisionado nessa quase inconsciência, já não sabendo se estavas do lado de cá ou de lá da ponte que liga as duas vidas, o fiozinho cada vez mais ténue, que te ligava a esta, partiu-se num estalido mínimo, imperceptível, e tu, definitivamente, já não estavas aqui. Soube-o ontem, por um amigo comum, com quem reeditei uma tradição de almoçarmos às quartas-feiras, sanadas as mais importantes sequelas dum enfarte e que te trouxe com 25 quilos a menos, mas muito mais resistência, já consegues andar sem parares de trinta em trinta metros, que bom, fiquei contente.

Então lá foste desfiando os amigos que já não se sentarão mais à mesa. Entre eles, ele!

(Estou a ficar velho, já passo de uma personagem a outra, com esta facilidade a que a idade me vai guiando cada vez mais… Ou será propositado? Às tantas, vou ter de multiplicar os que restam para ainda me parecerem muitos.)

Voltando a falar contigo, o que partiu, devo dizer-te, para despedida, que tinha uma enorme inveja de ti. Tinha eu dezassete, quase dezoito, entrei no Expresso depois do meu primeiro dia de trabalho. A pessoa que me abriu as portas do emprego tinha sido a mesma que me apresentou ao dono do restaurante económico, casa de pasto para ser mais preciso, dizendo-lhe que eu era o novo cliente ao jantar (ao almoço, tinha a cantina).

carlos alberto

Então, quando me encaminhava para uma mesa desocupada, o dono do restaurante perguntou-me se me importava de me sentar na tua mesa, que éramos colegas. Feitas as apresentações, ainda não me tinha cruzado contigo, começámos a ser colegas também ao jantar. Como vês, numa única fotografia, com que ilustro esta carta, estão os locais onde mais falávamos: os Serviços e o Expresso!

Depois, lá seguias para tua casa, para as tuas colecções de selos, de moedas, de carteiras de fósforos, mais uma infinidade delas. E eu deambulava um pouco – ou muito – mais pelas ruas da cidade, Cedofeita fora até à Rua dos Bragas, onde o quarto alugado me esperava relutantemente de só lhe dar uso tarde da noite até cedo da manhã. É que não saía do Expresso, virava para Cedofeita, espreitava o Diu, o Latino, e subia a minha rua: normalmente, atravessava a praça de Carlos Alberto, passava pelos Leões, descia os Clérigos até à Avenida, subia Santo António (ou 31 de Janeiro…), virava a Santa Catarina, Marquês, Constituição, Antero de Quental, parava no Odin à hora em que as internas do curso de enfermagem do Santa Maria tomavam café, descia São Brás, Lapa, Praça da República, Rua dos Mártires da Liberdade, Rua dos Bragas. Ou, se ia directo, deixava-me tentar por uma bilharada no Latino quando descobri que nas Finanças de Cedofeita trabalhavam dois amigos e colegas de colégio em Braga. Dos frades, convém dizer.

Mas assumi que tinha inveja de ti. E tinha, dessa incrível capacidade para esticar as prestações que ias anotando: tanto para selos, este para moedas, aquele para a viagem de férias a França… E, religiosamente, não ultrapassavas aquilo que destinavas a cada item. Por isso lhe chamei incrível!

Depois, aprendi que com a inveja não ia a lado nenhum. Passei, então, a aprender contigo a elegância de maneiras que te tornava diferente aos olhos das mulheres que ias coleccionando. Mais tímido, não coleccionei tantas porque nunca tive essa marcada tendência – ou mania – para as colecções: mesmo nas de fascículos, de literatura, de arte, só comprava os cadernos que me interessavam, não acrescentando valor comercial aos montes que cresciam em casa e nas estantes, mas deixando-me seduzir pelas escolas que me diziam algo.

Por falar nessa elegância, sempre tive para mim que essa qualidade te vinha do apelido do meio, logo de tua mãe, que era francesa.

Antes que mude de linha, deixa-me agradecer-te – penso que nunca o fiz – teres-me apresentado, em 1970, a tua sobrinha. Sylvie foi um dos meus encantos durante quantos anos? Seis, sete, víamo-nos uma quinzena por ano, escrevíamo-nos duas três vezes por semana (era tão bom escrever cartas nesse tempo, dobrar as folhas, encerrá-las com todos os afectos e juras num envelope, escrever a morada e remetente, colar o selo, deitar a carta no marco do correio… que ritual!) e parecemos apaixonados mesmo quando fui para África, regressei e continuei a trabalhar no mesmo sítio, no primeiro andar de um dos mais belos palácios do Porto transformado em sede de serviços públicos municipais. E, quando demos por ela, tínhamos-nos esquecido de nós numa esquina qualquer da vida. Ou das hormonas.

Mas não foi para falar da tua sobrinha que me sentei aqui, preparado para te escrever. Foi para falar de ti. De tudo o que representaste na minha formação de rapaz simples da aldeia apanhado na vida voraz e incrivelmente sedutora da “única outra cidade do país”, como lhe chama o mais português dos escritores holandeses, Gerrit Komrij (Um almoço de negócios em Sintra). Para me lembrar duma amizade de mais de quarenta anos que convém recordar como marco de vida, de influência, de respeito. Tu tinhas feito oitenta e sete anos quando morte te deu a mão, eu tenho sessenta e dois, a diferença de idades não tem mesmo a ver com nada, embora seja certo que sempre te comportaste como um paizinho (ou seria um irmão mais velho), invariavelmente com aquele conselho de quem decreta: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço, eu não sou modelo para ninguém, abre os olhos, ai se eu pudesse ter mudado alguma coisa do meu passado não seria o que sou hoje. Mas sempre foste um modelo, sim. E, tivesses podido mudar, não terias deslocado uma vírgula, eu sei. Tu gostavas de ser assim, nessa liberdade de vida despreocupada, nessa elegância de maneiras que fazia de ti um dos grandes sedutores que conheci.

Mas a prosa já vai longa. Penso que, onde estiveres, deverás estar mais interessado nas vizinhas do lado ou da frente, sejam anjos ou demónios. Não serei o chato que vai interromper fastidiosamente os teus momentos de devaneios post-mortem. Mas tenho de te confessar duas coisas: a maior desilusão e o maior orgulho que tive relativamente a ti. Porque nunca to disse, não tive coragem, e porque acho que deves saber. Até porque desse lado não há perspectiva de ficares chateado comigo…

A desilusão prende-se com o facto de sempre te ter visto como alguém independente, livre, nada chegado a actos mesquinhos, incapaz de gestos menos claros, impossível era afrontares a tua estirpe. Certa manhã, contudo, ia eu a entrar nos sanitários dos serviços e ainda bem que não me viste, não tive coragem de entrar. Tu, já reformado, tinhas vindo buscar a senha da cantina (continuaste a almoçar na cantina depois de te jubilares) e aproveitaste para encheres o frasco que trazias de casa com sabão líquido dos lavatórios dos serviços. Coisa pequena, como vês, mas que desfez um mito, com todo o imenso barulho que causam os mitos a implodirem. E é dessa implosão que eclodem as maiores desilusões.

O grande orgulho, esse, é paradigmático dessa elegância de maneiras e atitudes que sempre me transmitiste. Chefiavas aquele sector, à esquerda de quem entrava no solar, e, certa tarde, entrou pela porta dentro a figura, o cromo: fato preto, camisa despudoradamente branca, gravata preta, chapéu, sapatos apropriadamente engraxados, guarda-chuva impecavelmente enrolado, pasta com monograma debaixo do braço. Dirigiu-se a ti – porque eras o único com pinta de chefe na repartição, fazias a diferença. E o diálogo foi mais ou menos este:

Boa tarde, precisava de resolver com urgência este assunto. Agradecia que me dissesse se consegue essa urgência ou se tenho de subir ao primeiro andar, que eu com o Director, o Engenheiro Machado Vaz, sou tu cá, tu lá.

Sorriste, o loiro francês do teu cabelo fustigou um raio de sol que amortecia o frio exterior de Janeiro, e retorquiste com a compostura mais impura e rutilante:

Vai desculpar a minha inabilidade para lhe resolver para ontem tão delicado assunto. Por esta via, terá de seguir os trâmites normais. V. Ex.ª fará o que achar mais conveniente. Se, de facto, é tu cá, tu lá, com o Senhor Director, Eng.º Machado Vaz, aconselho-o a subir ao primeiro andar. Eu com o Senhor Director, Engenheiro Machado Vaz, sou mais Vossa Excelência cá, Vossa Excelência lá.

Fica bem, meu amigo. Sei que não vais perder tempo em responder-me. Com essa prodigiosa bonomia, vais coleccionar tudo o que tiveres para me dizer e vais esperar por mim os anos que nos separam. Paciência não te vai faltar. Só que, desta vez, não irei a correr, ter contigo, como quando me telefonavas.

Fica em paz.

Comments

  1. lidia drummond says:

    O seu texto é tão belo que nem sei o que lhe dizer, é puro néo realismo, Pena não saber quem é, mas vou pesquisar na nett. Obrigada pela elegância da sua escrita. Até sempre.Vou enviar a amigos do coração.

  2. palavrossavrvs says:

    Armindo, o sabão do local onde o teu querido amigo trabalhou tantas décadas provavelmente era moralizador, um ritual para ele, especialmente após jubilado, não sei. Até isso é peculiar e carrega de ímpar quem descreves.

    Muito belo este texto. Mesmo.


  3. Um belo texto que por circunstâncias várias me tocou profundamente.

  4. Observador says:

    Com amigos assim, a morte, é só mais um episódio da vida.
    Um abraço aos dois.

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