A propósito dos incêndios e do “conhecimento do território”

Que nous cherchions le sens du mot latin arbor ou le mot par lequel le latin désigne le concept « arbre », il est clair que seuls les rapprochements consacrés par la langue nous apparaissent conformes à la réalité, et nous écartons n’importe quel autre qu’on pourrait imaginer.
–Saussure (1916)

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Há poucas horas, soube que o “conhecimento do território” (conceito extremamente vago) foi aduzido algures enquanto trunfo para discussões televisivas de canais portugueses entre leigos. Convém conhecer as árvores do território, sim, mas igualmente ler os relatórios (os políticos não lêem relatórios, como a nossa experiência com o AO90 explica).

Além disso,  como sabemos, uma árvore é um amigo.

Siga:

Arderam, em 2017, cerca de 1,4% dos espaços que tinham sido considerados como urbanos, no IFN6, em 2010. As percentagens referentes a cada uma das utilizações secundárias indicam que são o pinheiro‑bravo e o eucalipto as espécies que, em ocupação secundária das áreas urbanas, mais fazem aumentar a probabilidade de o espaço urbano arder (12,5 e 9,4% respeCtivamente). Valores intermédios (entre os 2 e os 3%) correspondem a situações de mato, de carvalhos, de castanheiros, ou de outras folhosas, ou a culturas permanentes (olival, vinha, pomar), com percentagens de 2,1%, de 2,8% e de 3% respeCtivamente. Percentagens mais baixas encontram‑se em situações em que as ocupações secundárias são pinheiro‑manso, outras resinosas ou sobreiros (0,9%), culturas temporárias ou pastagens de sequeiro (1%) ou, ainda mais baixa (0%) nas pastagens de regadio.
— AVALIAÇÃO DOS INCÊNDIOS OCORRIDOS ENTRE 14 E 16 DE OUTUBRO DE 2017 EM PORTUGAL CONTINENTAL RELATÓRIO FINAL (pdf) (link)

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Yanny ou Laurel: o debate

Hickey: I’m a bit tired and sleepy but otherwise I feel great.
— Eugene O’Neill, “The Iceman Cometh

About that time, Charles Bally, one of Saussure’s most eminent students and a co-editor of the Course (together with Albert Sechehaye), was the first to probe explicitly into the sign character of intonation. For him, intonation is the natural expression of modality: “c’est elle qui permet de percevoir si ‘Vous me suivrez’ est une constatation, une interrogation ou un ordre” (Bally 1950: 42). The situation provides signs which always bear the imprint of reality: they are all actual (‘actuels’).
— Vladimir Phillipov

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Fonte: The Herald (https://bit.ly/2wTiw72)

Yanny ou Laurel? Como se diz em Linguística, depende. Neste caso, segundo Patricia Keating, David Alais e este vídeo, talvez da idade. Valerie Hazan explica ainda melhor. É a percepção (área muito problemática).

Nótula: Entre viagens, palestras e uma data de trabalho quando regressar a Bruxelas, ando e andarei sem tempo para ler o Diário da República, as notícias da comunicação social portuguesa e as preciosas nótulas dos leitores, em especial, as do extraordinário e excelente leitor do costume. Com mais calma, voltarei às necessárias actualizações sobre o ponto da situação ortográfica. Até breve.

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Prà, prà, prà e desorientação ortográfica

 

Segundo o Sol, “João Villalobos ironiza com a infelicidade da associação ao passado”. Ora, já sabemos que “Prá frente Portugal” foi de facto uma infelicidade.

A exemplo de ‘à’ e ‘às’ ou de ‘ò’ e ‘òs’, recebem o acento grave certas formas que representam contracções de palavras inflexivas terminadas em ‘a’ com as formas articuladas ou pronominais ‘o’, ‘a’, ‘os’, ‘as’(Bases Analíticas, XXIV). Estão neste número (…) ‘prò’,‘prà‘, ‘pròs’ e ‘pràs’, contracções cujo primeiro elemento é ‘pra’, redução da preposição ‘para’

(1947: 185)

Quanto ao resto, o PSD e o CDS, nas linhas de orientação, mencionam o facto de o Governo “nunca ter abdicado de uma perspetiva prospetiva“. Ora, é urgente que abdiquem da “perspetiva prospetiva“.

Em primeiro lugar, porque “perspetiva prospetiva“, em português europeu, corresponde a *[pɨɾʃpɨˌtivɐ pɾuʃpɨˈtivɐ] , em vez de corresponder a [pɨɾʃpɛˌtivɐ pɾuʃpɛˈtivɐ].

Em segundo lugar, porque “perspetiva prospetiva“, além de ininteligível em português europeu, põe em causa a tese da “ortografia comum“, sendo igualmente incompreensível para quem estiver habituado a ler, por exemplo, o CLG em português do Brasil (2006: 247):

perspectiva prospectiva

Em terceiro lugar, porque um dos resultados tangíveis da “perspetiva prospetiva” é a patente desorientação ortográfica nas linhas de orientação:  objectivos (p. 11) e objetivos (p. 13), “participação activa” (p. 12) e “presença ativa” (p. 12) — sim, exactamente, na mesma página —, excepção (p. 10) e excecional (p. 3) e, claro, Junho (p. 13).

Recomendo o abandono da “perspetiva prospetiva“, espero que  haja a tal “discussão mais focada sobre as matérias mais controversas” e desejo-vos um óptimo fim-de-semana.