Sir John (Jack) Goody, pai fundador da Antropologia – 6

O meu antigo patrão em Cambridge, sempre de mau humor, armado Cavaleiro em 1984

Sir John (Jack) Rankine Goody, entrevistado por Erick Hobsbawm, 18 de Maio de 1991, entrevista filmada por Alan Macfarlane.  Houve outro livro de depoimentos de Jack Goody para Pierre-Emmanuel Dauzat, 1996: L´Homme, L’Écriture et la Mort, Les Belles Lettres, Paris

É esta a História que analisa Goody no seu texto citado, retirado das suas pesquisas dos anos 50 do Século XX. Há dois pontos importantes na sua análise – os assassinatos entre parentes para aceder ao poder, são apenas uma anedota. Os dois pontos chaves mencionados antes, são: se há luta, é porque esta antiga monarquia tem uma hierarquia dentro da qual está dividido o trabalho: os estados que têm chefes, os Muçulmanos, que têm os seus privilégios, o povo comum ou comuneiros que realizam o trabalho e devem entregarem ao grupo central da monarquia e aos seus delegados; os escravos que trabalham sem ordenado, e os estrangeiros, que são aceites desde que entreguem  coisas útil para os soberanos; e a hierarquia dos que mandam, entre os que se encontram os prelados ou chefes sagrados, como explica Goody nas páginas 142-146 do livro que me orienta, citado mais em baixo. Em meados do século XIX o Reino Unido converteu em protectorado a Costa do Ouro, e em 1874 o território foi transformado em colónia. Os Ashanti e os povos do norte foram dominados em 1901 e parte do Togo alemão passou ao controle britânico em 1922. Depois da segunda guerra mundial, o nacionalismo ganês extremou-se e, em 1947, por exigência dos nativos, foi criado um conselho legislativo de maioria negra. Em 1957 Gana finalmente conquistou a independência e elegeu o primeiro-ministro. Três anos depois foi proclamada a república e elegeu-se presidente no mesmo ano. A partir de então sucederam-se períodos de governo civil e juntas militares.

A constituição de 1992 determinou um sistema de governo multipartidarista com Parlamento unicameral e presidente eleito por voto universal para um mandato de quatro anos. O presidente, que é ainda o chefe de estado e o comandante das forças armadas, escolhe um Conselho de Ministros, sujeito à aprovação do Parlamento. Os membros do legislativo também são eleitos por sufrágio universal para um mandato de quatro anos. É esta a História que analisa Goody no seu texto citado, retirado das suas pesquisas dos anos 50 do Século XX. Há dois pontos importantes na sua análise – os assassinatos entre parentes para aceder ao poder, são apenas uma anedota. Succession to High Office é um dos mais importantes livros do meu antigo patrão, e pode ser lido em inglês.

O que Jack Goody pretende neste livro, é analisar as mudanças do acasalamento e da reprodução dos grupos domésticos, no Mediterrâneo e outros sítios da Europa, antes de pois de reforma religiosa e antes ainda, esse acontecimento histórico de reunir povos orientais e ocidentais na Espanha, Portugal e a cristianização dos povos germânicos. O que pretende, como confessa no seu livro, traduzido pela Editora Celta com o título de Família e Casamento na Europa. Oeiras, Celta (colecção. O passado no presente), 1995 (trad. Ana Barradas). Na sua opinião, o Mediterrâneo parece ser apenas um, mas, de facto, há vários, ao se encontrarem na Espanha e Portugal, culturas ocidentais com culturas orientais, como os povos Africanos do norte e Palestinianos, que tinham invadido o continente. Houve um debate a partir do Século III da nossa era sobre a validade dos matrimónios entre muçulmanos e cristãos, se eram válidos ou não. Esse tipo de reprodução não parece ser a esperada, especialmente por causa do dote que a noiva deve adiantar; mas há os que se opõem e pensam que os matrimónios mistos são uma heresia, para uma ou outra confissão. A conjuntura para a reprodução, assim, não é nada favorável. Como Goody nos ensina em este livro cheio de dados e dicas para a nossa pessoal pesquisa, a dificuldade pelas que atravessa Europa na época das reformas. Livro que nem li, por ter escutado ao autor durante anos a fio. Foi com ele que tive a sorte de me especializar em Antropologia da Educação e em Teologia Cristã e Muçulmana, que uso imenso nos meus escritos. Sem Jack Goody, nunca teria começado por ler a Agostinho de Hipona, (Tagaste, 13 de novembro de 354Hipona, 28 de agosto de 430) entre outros.

A obra de Hipona, tem três textos importantes para orientar a interacção social e a vida conjuntural da família: Confissões (Confesiones), escritas entre os anos 397-398; A Cidade de Deus, (iniciado c. de 413, terminado 426, uma de suas obras capitais, nela nos oferece uma síntese de seu pensamento filosófico, teológico e político.), e o Livre Arbítrio, 409, textos em linha, editados também em Portugal, todos eles comigo. No Livre – arbítrio tenta provar de forma filosófica de que Deus não é o criador do mal. Pois, para ele, tornava-se inconcebível o fato de que um ser tão bom, pudesse ter criado o mal. Ainda dentro do debatas ao que Jack Goody nos conduz, entra este problema da reprodução. No Capítulo 7 do livro que me orienta, citado em nota de rodapé, páginas 157-183 ao falar sobre essa a minha especialização, a Reforma e a Contra Reforma, estas palavras sintetizadas pela Editora Celta: Os padrões europeus de matrimónio são o tema de um artigo de Hajnal (1965) em que estabelece uma diferença entre a Europa Ocidental e a totalidade dos países “não europeus”, “tradicionais” ou “em vias de desenvolvimento” (incluída a Europa Oriental). As principais características do modelo europeu são o matrimónio tardio, tanto nos homens como nas mulheres, e um alto grau de celibato, características que, no aspecto demográfico, estão associadas a taxas brutas relativamente baixas de natalidade (abaixo de 40 por mil) e também, embora com menos segurança, de mortalidade. Paginas 209 e seguintes. Para ajudar ao leitor, o livro de John Hajnal que cita é o intitulado European marriages in perspective, capítulo do livro de D.V.Glass e D.E.C. Eversley (editores) Population in History, Londres. O texto é o Capítulo 8 do livro citado, e é parte da tese de doutoramento do autor.

Porquê Goody usa em várias páginas do seu excelente livro a hipótese Hajnal? A resposta está na vida do autor referido e na sua obra, da que salienta um texto publicado em 1965, parte da sua tese de doutoramento. John Hajnal (26 Novembro 192430 Novembro 2008), nascido como John Hajnal-Kónyi, foi Professor de Estatísticas na London School of Economics, 1975-86. A sua educação foi na University College School, Londres e Balliol College, Oxford. A importância de Hajnal reside no facto de ter fixado e provado, em um afamado capítulo de livro, um marco divisório para a história do matrimónio na Europa. Hajnal identifica, num ensaio de 1965, as normas históricas do matrimónio na Europa Ocidental, provando que as pessoas casavam tarde na vida e muitos eram solteiros. Os limites geográficos de este tipo de matrimónio sem precedentes, é denominado como a Hajnal line. Enquanto Hajnal defende que o aparecimento de tais padrões se verificou em finais do século XVI e que se pode associá-lo ao desenvolvimento do capitalismo e do protestantismo, outros assinalam a presença desses mesmos traços numa época anterior, embora como algo característico do Noroeste, mais do que de todo o Ocidente europeu.

O que Goody procurava eram regras semelhantes de matrimónio ao longo da história e de diferentes sítios geográficos do mundo. Encontrou em Hajnal uma marca divisória e taxativa de um tipo de matrimónio provadamente reiterado ao longo do tempo. Os Grupos Domésticos eram poucos e de idade avançada. A resposta a estas formas diferentes de casar, é comentada por Goody no Capítulo 8 do livro que me orienta, intitulado The hidden economy of kinship, ou, em português: A economia escondida do parentesco. Analisa a correlação entre as formas matrimoniais e parentais da formação das famílias, o que custa casar e o que ainda é mais caro divorciar. A primogenitura é uma das formas de acumular riqueza, como a celebração de matrimónios proibidos entre parentes consanguíneos chegados, como filhos de irmãos, o que eu defendo em outro texto meu. Defendo com persistência, por ser tão evidente que se o Vaticano era pago em sumas de dinheiro importantes, o matrimónio podia ser realizado, como analiso no meu texto de 23 páginas: Stratégies de reproduction. Le droit canon et le mariage ans un village portugais (1862-1983), em Droit et Société. Revue International de Droit et de Sociologie Juridique, Nº 5, 1987, CNRS, Paris. Também no meu livro (1991 1ª edição) 2001 : A religião como teoria da reprodução social, Fim de Século, Lisboa.

Finalmente, apenas dizer que esta conjuntura de reprodução do grupo doméstico, é um debate permanente entre as várias confissões e o Estado, especialmente no Ocidente. Goody consegue provar que a criação de grupos domésticos é desigual e que as conjunturas mudam com a história e convénios. Parece ficar surpreendido com as regras fixadas pela confissão anglicana, no tempo em que Henrique Tudor ou Henrique VIII da Inglaterra, abandona a confissão católica romana e passa, como Chefe de Estado, a Presidir a Igreja, denominada agora Anglicana, que é governada por um seu delegado, um cardeal adepto a sua teoria religiosa. Como de resto fizeram todas as outras confissões ocidentais. Confissões orientais, como a Budista, Confúcio, Muçulmana, especialmente Chiita e Sunita, Estado e Religião são apenas uma unidade, especialmente no Irão e no Tibet e no povo Arménio, entre outros. Na sua conclusão, consegue provar que as violações às regras prescritivas da confissão professada num Estado, acaba por ser uma condenação também por parte do Estado, especialmente a partir das reformas religiosas ocidentais, países todos com uma Igreja presidida pela pessoa que governa a Nação. Ainda Espanha, o Monarca deve ser consultado para nomear Cardinais, mas o Monarca, além desse privilégio centenário, não tem nenhuma intervenção na confissão romana. No entanto, o que Goody não diz, porque pesquisa o passado do Grupo Doméstico, é a crescente separação da Igreja e do Estado em matérias de fé. Nos dias de hoje, há mais domínio laico sobre a confissão romana. Como esta notícia de Reuter, que transcrevo completa: A escola primária Macias Picavea não parece um foco de revolução. Mas o despretensioso edifício de tijolos na sonolenta cidade industrial de Valladolid se tornou um campo de batalha na guerra cada vez mais intensa que opõe Igreja e Estado na Espanha.

Em uma decisão sem precedentes no país, um juiz decidiu em Novembro que a escola pública deve remover os crucifixos das paredes de suas salas de aula, porque elas violam a natureza “laica” do Estado espanhol.

Embora a Igreja não estivesse entre as partes envolvidas no processo, criticou a decisão como ataque “injusto” contra um símbolo histórico e cultural – e um sinal do secularismo cada vez mais militante do Estado na Espanha.

Se a decisão do juiz representa o mais recente revés para o domínio um dia férreo que a Igreja exercia sobre a vida espanhola, a resposta da hierarquia católica dá ao país a posição de elo central na definição do futuro relacionamento entre Igreja e Estado na Europa.

Para o Papa Bento XVI, que apostou seu pontificado iniciado três anos atrás na empreitada de manter a Europa como região cristã, a Espanha, com sua população 90% católica e rica História religiosa representava uma última esperança em um continente no qual a religião tem cada vez menos importância.

Mas essa esperança está rapidamente a desaparecer. Desde 2004, o governo socialista do primeiro-ministro Jose Luis Rodriguez Zapatero legalizou o casamento homossexual e o divórcio acelerado, e está tentando afrouxar as leis que restringem aborto e eutanásia.

Mas, em resposta, a Igreja Católica e os seus membros mais praticantes vêm pressionando por maior participação na vida pública. O resultado é uma guerra aberta entre Igreja e governo.

A Espanha representa a um só tempo o passado da Igreja Católica na Europa e um possível futuro: um país cada vez mais laico em que actua uma oposição católica vigorosa, definida pelo Papa como “uma minoria criativa”, superada em número mas ardorosa em sua fé.

O que está em jogo é uma visão do país: a Espanha aderirá ao resto da Europa laica ou se manterá como último baluarte do catolicismo? “Eu diria que certamente existe preocupação e seria ingénuo negá-la”, disse o porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, sobre a Espanha. Estamos em um momento crítico do confronto entre a Igreja e a secularização da Europa e do mundo ocidental.

Em 28 de desmembro, na festa da Sagrada Família, um total estimado em 158 mil pessoas compareceu a uma missa – comício em Madrid, em defesa da família. A marcha parece ter sido discreta.

Notícia da jornalista de São Paulo Rachel Donadio, a 19 de Janeiro de 2009, retirado do jornal The New York Times e publicado no jornal em linha Terra, em: http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3431296-EI312,00.html É, porém, um deslavamento entre a religião e a lei pública do Estado na reprodução social dos Grupos Domésticos. Ai onde antigamente a Confissão que for, determinava a reprodução, hoje em dia fica sem poder nenhum enquanto os Estados laicos interferem nos poderes da construção conjuntural dos grupos domésticos. O laicismo define a reprodução social, ainda nos países ocidentais onde a pessoa soberana representa a religião, mas não manda dentro de Confissão, guardando apenas um Direito a veto das decisões laicas sobre matérias de fé.

No caso de Pul Eliya, tendo sido Edmund Ronald Leach, um dos derradeiros estudantes da corte de Malinowski, fez a sua pesquisa à laia do seu professor, estudou sexualidade a maneira de Freud, em Ceylon, na aldeia de Pul Eliya e de forma semelhante ao livro de 1927 de Malinowski: Sex and repression in Primitive sociaties. A sua surpresa, como puritano, foi ter encontrado permissividade na vida sexual do grupo estudado, escrito em 1966 e que pode ser lido em:  http://books.google.pt/books?id=WBfBkGvRmowC&pg=PA52&lpg=PA52&dq=Edmund+Leach:+Pul+Eliya,+a+village+in+Ceylon&source=bl&ots=Byy44TOncE&sig=XmxIxXSvVmKEThPTJdA2sd8YngQ&hl=pt-PT&ei=TspYSt3eIs-gjAeD6cUb&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1

Edmund Leach foi graduado em medicina, antes de, percorrendo o mundo, estuda-se os Kachin de Bornéu e o grupo Pul Eliya em Ceylão, hoje em dia denominada Shri Lanka. Estudo que fora sobre a organização dos grupos domésticos e a sua forma de trabalhar e herdar a terra. A conjuntura, a sua descoberta, é a de ser quem trabalha a terra a pessoa que escolhe cônjuge dentro do escasso número de habitantes da aldeia. Leach não apenas pesquisa: teoriza sobre a estrutura social e as formas de trabalhar e herdar a terra. Edmund Leach (1910-1989), Antropólogo Britânico que teve uma grande influência no desenvolvimento da social anthropology. Foi um dos líderes na via de propagar o método novo –structuralism dentro da academia britânica, em conjunto com Mary Douglas, Rodney Needham, e Victor Turner.

Leach nasceu em Sidmouth, Devon, e educado no colégio privado em Marlborough School e na Faculdade Clare College, da Universidade de Cambridge. Fez os seus estudos de pós graduação na London School of Economics (LSE), orientado por Bronislaw Malinowski, e quando este se transferira para as Universidades de Cornell, Harvard e Yale University dos EUA, essa orientação passou para Raymond Firth. Continuou a sua carreira académica ensinando na London School Economics e na da Cambridge. Continuou a sua carreira de docente universitário como Provost ou Reitor da Faculdade do Rei o King’s College, entre (1966-1979), presidente do Royal Anthropological Institute (1971-1975), membro académico da British Academy desde 1972, e foi armado Cavalheiro da Monarquia em 1975. Fonte: a minha memória e privacidade com ele, especialmente na sua casa. Como Jack Goody, anos depois. E assim, paro a escrita, de momento e em este sítio.

Retirado do meu livro de 2009: O grupo doméstico ao a construção conjuntural da sua reprodução social, editado pelo ISCTE e pode ser acedido em:  http://repositorio.iscte.pt/ e na secção internacional http://www.rcaap.pt

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