Parabéns

Mesmo que ele não oiça, eu lhe digo, eu lhe escrevo do meu lugar insignificante e desconhecido das grandes estrelas: «Parabéns».

Parabéns, professor Eduardo Lourenço, pelos seus 89 anos. Muitos a pensar, numa permanente interrogação! Muitos pensamentos sobre isto do que é viver, sobre isto que é Portugal e os portugueses. É um orgulho para nós que seja português e, sobretudo, um filósofo português.

Escolher entre tanto pensar é difícil. Eis alguns pensamentos:

Que o português médio conhece mal a sua terra – inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio – é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la. (…)

Como a palavra comum, e mais do que ela, a escrita é um risco total. De uma maneira geral ninguém a lerá como o seu autor a concebeu. Ela será ocasião inevitável de desentendimento, desatenção, porventura irritação ou desprezo, mas igualmente de comunhão possível, de entusiasmo, sobretudo de veículo para o transporte do próprio sonho.

Eduardo Lourenço nasceu numa pequena aldeia do concelho de Almeida, numa época em que lá viviam 700 pessoas. Hoje, são cerca de 170. O nome da aldeia é bonito: São Pedro de Rio Seco. Uma pequena aldeia onde nasceu tão ilustre filho, não foi terra estéril de maneira nenhuma. É terra pequena de gente grande, como é o próprio Portugal.

Descobri um texto no Jornal do Fundão que quero partilhar:

Foi há 88 anos que uma casa cimeira do povo viu nascer o ilustre ensaísta. Nos dez anos que se seguiram, Eduardo começou a adivinhar as letras por influência do pai, ele próprio descobridor destes mares de palavras por entre os dias de punhos cerrados contra o destino, que mais não era do que amealhar a subsistência diária. Eduardo Lourenço hoje recorda o baú do seu pai, onde jazia um velho jornal com a notícia da morte do poeta Guerra Junqueiro. Como não guardar na alma estes dias que resgatou à fundura da alma, imprestáveis para repousarem num qualquer baú, qual papel velho, imprestável, marcador de um tempo que se deseja de grata omissão.

Agrada-me esta ideia de ele guardar na mémoria esse baú de seu pai onde se encontrava um velho jornal, eu que gosto tanto de recortes de jornal que ficam amarelos com o tempo, onde por sua vez se deu importância à morte de um poeta, de um poeta português.

Agradam-me a história, as histórias, a História do nosso país que se faz de coisas aparentemente velhas e insignificantes.

Não as esqueçamos. O que seria de nós sem passado?

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