Bomtempo e má grafia

Há sete meses, escrevi umas inócuas linhas sobre o Tribunal Constitucional. Desde então, sempre que o Palácio Ratton vem à baila, lembro-me de Bomtempo. Ontem, a hora do almoço, no Café Portugal, com um silencioso televisor sintonizado na SIC e a discorrer sobre esta notícia, não foi excepção.

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Ao chegar a casa, decidi verificar a rectidão gráfica de uma das imagens transmitidas por esse televisor. Encontrei este vídeo e debrucei-me sobre o texto com a referência a “decisões de não inconstitucionalidade”, feita por Joaquim Sousa Ribeiro:

[O]s contribuintes para os sistemas de segurança social não possuem qualquer expectativa legítima na pura e simples manutenção do status quo vigente em matéria de pensões.

Nótula intercalar: Na citação da SIC, sem espanto meu, não surge o precioso ‘(…)’, no lugar do omitido “para os sistemas de segurança social”. Fim da nótula: siga.

Efectivamente, apesar de o texto de Sousa Ribeiro conter palavras de admissibilidade extremamente duvidosa numa redacção em português europeu, como coenvolve, atual, detetável, expetativa, etc., surgem algumas palavras funcionais e inteligíveis, na norma em apreço, como pólo, expectativas e expectativa. Exactamente: cinco ocorrências de ‘expectativas’ e uma de ‘expectativa’, com apenas um deslize (‘expetativa’) ou uma consciente adopção da dupla grafia no mesmo enunciado, seguindo o péssimo exemplo (que já referi, num post scriptumno Aventar) dado por um dos autores do Acordo Ortográfico de 1990.

No excerto transcrito pela SIC, Sousa Ribeiro grafou ‘expectativa’, mas alguém decidiu truncar a palavra, privando-a de um elemento grafémico fundamental — sim, apesar de o disposto na base IV do Acordo Ortográfico de 1990 autorizar ‘expectativa’. Das duas, uma: ou na SIC desconhecem que o AO90 permite a grafia ‘expectativa’, ou crêem que a prolação do jornalista – [ʃpɛtɐˈtivɐ] em vez de [ʃpɛktɐˈtivɐ] – tem precedência sobre a grafia do Autor.

Não sei se haverá reacção do Palácio Ratton a esta grave (gravíssima!) ingerência em texto redigido por aquele que é – a par do presidente do Supremo Tribunal de Justiça – a quarta figura do Estado português.

Mas sei que é fim-de-semana e que o fim-de-semana tem hífenes e que óptimo tem pê. Continuação de um óptimo fim-de-semana e Bomtempo para todos:

Comments

  1. Filipe says:

    Não se diz [ʃpɛktɐˈtivɐ] mas sim [ɐjʃpɛktɐˈtivɐ] porque começa com ex+consoante. Quando começa por es+consoante é que se lê /ʃp/ (ou /ɨʃp/), como em «espelho» {segundo o português mais «puro», o de Coimbra, [(ɨ)ʃˈpeʎu]}.

    • Francisco Miguel Valada says:

      Caro Filipe,

      Não é meu objectivo apresentar nem uma ilustração exemplar da prolação de ‘expectativa’ na língua padrão nem a fixação de qualquer modelo acerca da codificação ortofónica da norma portuguesa europeia.

      Terá reparado que escrevi “a prolação do jornalista – [ʃpɛtɐˈtivɐ] em vez de [ʃpɛktɐˈtivɐ]”. Se tiver um ouvido treinado, reparará que assim é: poderá confirmar através da hiperligação “este vídeo”, no segundo parágrafo.
      Cumprimentos,

      Francisco Miguel Valada


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