Muda o merceeiro, continua a mercearia holandesa

O escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa deixou-nos a seguinte frase:

Algo deve mudar para que tudo continue como está.

Veio-me à memória quando li o seguinte título no ‘Público’:

Accionista da Jerónimo Martins propõe Pedro Soares dos Santos para presidente

À Sociedade Francisco Manuel dos Santos, controlada pela família Soares dos Santos, justamente por se tratar de uma sociedade, é permitido ser accionista único da sociedade anónima JM – legalmente é obrigatório o mínimo de cinco sócios (accionistas), em caso de participações individuais.

A mim, pelo menos, não me causa a menor surpresa que, à renúncia à presidência pelo pai, o também comentador político Alexandre Soares dos Santos, suceda o filho Pedro. Tenho a certeza, pois, de que a mudança familiar de merceeiro não ameaça os interesses da JM e do paraíso fiscal da Holanda que, continuará, a embolsar os impostos sobre os lucros da dita sociedade.

A mercearia Jerónimo Martins, com as lojas ‘Pingo Doce’ e o ‘cash-and-carry’ ‘Recheio’ à cabeça, é uma das 20 empresas cotadas no PSI-20 autoras dessa espúria fuga fiscal legalizada pela CE e BCE; isto, na Zona Euro que é como quem diz no seio de grupo de países com moeda única, mas com políticas fiscais heterogéneas e concorrentes.

Os prejuízos e as insolvências causados ao tecido produtivo nacional pela JM, Sonae-Continente, ‘Lidl’ e ‘Intermarché’ são de cálculo ou mesmo de estimativa impossível – tenho a experiência ter trabalhado com o sector, do lado de fornecedores.

Natural, portanto, as náuseas e a revolta sentidas quando se fala em Alexandre Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo e outros que tais. Muito do que está a ser exigido e extorquido aos cidadãos comuns do País é também causado pelas políticas antinacionais dos chamados grupos da ‘distribuição moderna’ – o impulso às importações e os efeitos negativos na nossa ‘Balança Comercial’ são consideráveis. Acrescente-se a “deslocalização fiscal” e a remuneração de capitais estrangeiros investidos, muitas das vezes com incentivos e estruturas pagas pelo próprio poder local.

Sou muito selectivo em relação a programas de TV, e depois de ter assistido a topetes de Alexandre Soares dos Santos, em certos momentos na companhia de Medina Correia, faço ‘zapping’ ou silencio-os com um ‘off’ bem premido.

Provavelmente, o César das Neves considera que a minha atitude, se disseminada, multiplica a pobreza em Portugal…

Comments

  1. AACM says:

    Es acionista da JM ? se es vota contra, se nao es cala-te e vai trabalhar para criar riqueza….so tens treta.


  2. É por isso que importa antes e acima de tudo baixar os impostos e não subi-los. Natural e consequentemente a despesa pública tem também de baixar a curto prazo para acompanhar a diminuição da receita fiscal.


    • E privatizar tudo o que mexe, não acha?
      Ah, e impostos zero para os grandes grupos económicos para não fugirem para a holanda. Impostos a doer só para aquelas empresas mais pequenitas que não podem ir à holanda lavar as contas ( e que não dão emprego a boys).
      Era este Portugal que você gostava, não?


      • Baixar os impostos para todos, desde os grandes grupos económicos até ao dono do café da esquina, passando pelos trabalhadores independentes e por conta de outrem e pelos investidores estrangeiros que decidissem apostar em Portugal. Obviamente isto implicaria uma revisão das funções sociais do Estado, que deveriam estar dirigidas não para todos, mas sim para quem delas verdadeiramente necessita para sobreviver.


        • “… mas sim para quem delas verdadeiramente necessita para sobreviver.”
          Aqui é que está o busílis da questão: qual será o valor considerado necessário para viver?! sem a ajuda do Estado?.
          É que eu sou doente oncológica e por acaso estou desempregada e no limiar da pobreza, daí que me tenha tratado no IPO às custas do Estado. Mas, e seu ganhasse 2.000 euros, será que ainda era considerada necessitada?! E se não, morria de cancro porque não podia pagar os tratamentos caríssimos?!

          • Carlos Fonseca says:

            Mia Flores, os meus sinceros votos de que consiga vencer essa dura luta. Conheço bem o que são hospitais e testemunhei o sofrimento de muita gente, fenómeno que sempre me sensibiliza. Aos desumanos tecnocratas que só pensam na redução de impostos para os mais poderosos, pergunto: há algum motivo racional e de rigor de integração económica para haver concorrência fiscal entre países que se agregaram sob uma única e mesma moeda? Quem pensa afirmativamente ou é burro ou quer fazer dos outros burros. E essa de, em Portugal, se fazerem cortes cegos na saúde, doenças oncológicas em especial, é dos actos mais bárbaros que se cometem. Entretanto, como se sabe, num ano aumentaram em cerca de 11% o número de milionários portugueses, ou seja, são 825 privilegiados que detêm uma fortuna acumulada de mais de 70 mil milhões de euros; pouco menos do que pedimos à ‘troika’.
            As melhoras.


          • Na minha opinião, nunca ninguém deixaria de receber tratamentos por não ter dinheiro, sobretudo tratamentos que podem fazer a diferença entre a vida e a morte. O que digo é que quem pudesse contribuir mais para o custo desses tratamentos deveria fazê-lo: quem ganhasse até x não pagava nada; quem ganhasse acima de y pagava 100% dos custos; quem ganhasse entre x e y pagava proporcionalmente de acordo com o seu rendimento. A contribuição do cidadão seria assim esporádica e feita apenas em caso de necessidade de recurso a esses serviços e não de forma permanente através do imposto. Isto permitiria a baixa dos impostos e consequentemente o estímulo que a economia necessita. Quando falo em Estado Social não me refiro apenas à saúde (que mesmo assim fornece aos cidadãos serviços que são caros, mas perfeitamente dispensáveis), mas a todos os serviços prestados pelo Estado, muitos dos quais são completamente desnecessários e nem por isso deixam de ser extremamente caros.

            Em resposta ao Carlos Fonseca, é verdade o que diz, mas por outro lado como é possível estabelecer uma política fiscal comum com rendimentos e percepções das funções do Estado tão díspares? Portugal deveria era ter aproveitado essa liberdade fiscal para baixar os impostos e atrair o investimento (sério e não-especulativo). Ao invés, apostamos numa política de endividamento para ser popular entre o eleitorado. Os resultados estão à vista.

        • nightwishpt says:

          Mas só para sobreviver e reproduzir, que para ter alguma coisa que nasça na família certa.

    • nightwishpt says:

      Claro que sim, para ver se a receita continua a descer.

  3. sinaizdefumo says:

    Eu sabia que conhecia o AACM dalgum lado. É aquele gajo dos Contemporâneos, “vai mas é trabalhar ó…”


  4. Carlos Fonseca agradeço o desejo de melhoras! Claro que os milionários se reproduzem e engordam as suas fortunas, afinal o dinheiro não se evapora, só muda de mãos. Só lamento que se ache normal a lei da selva e do salve-se quem puder. Para isso, para que é necessária a existência de sociedades modernas organizadas, onde é suposto haver solidariedade e partilha?! Espero que nenhum daqueles que defendem a assistência social do Estado só para os mais necessitados (que nunca saberemos “a priori” qual seria a fasquia do “mais necessitado”), nunca tenha que passar por aquilo que eu passo e outros tantos como eu, quando o médico do IPO lhe pergunta, se não tem tido problemas em levantar os medicamentos mensais na farmácia do hospital. Esses comprimidos que tomo desde 2010 e tomarei até 2015, tinham um preço de 135 euros cx. de 28 comp., medicamento de marca, que entretanto foi baixando progressivamente para genéricos, e ainda bem, e agora o seu preço é de 32,00 euros. Eles são gratuitos (até agora), mas desafio os defensores da saúde privada para os menos necessitados, a dizer se teriam capacidade para pagar todos os tratamentos necessários nestes casos!

    • Carlos Fonseca says:

      Mia Flores, não tem de me agradecer. Fi-lo com o sentido de humanismo com que fui educado.
      Os defensores obcecados da ‘Privatização da Saúde’, na maioria dos casos, não sabem do que falam. Fui durante anos gestor de um Hospital Privado e sei bem qual o objectivo primeiro que é perseguido: o lucro. Os doentes são um meio e se tiverem dinheiro ou cobertura de alguma convenção. Caso contrário…


  5. MIA -quando os ricaços têm problemas de saúde como o seu vão ao PÚBLICO sabia ?? pagos com o meu IRS – o privado não difere do público só por ser mais caro – nem sequer tem as infraestruturas do público – e mesmo assim o público já começa a ter qualidade a menos e sei de que falo E só não sei porque perdeu qualidade pois que era o melhor SNS do mundo melhor do que o SNS inglês – não viu o Prós e Contras de 2ªfeira desta semana ?? Até já se denunciaram publicamente e cára a cára – foi “feio”


  6. Jerónimo Martins – Continente – Pão de Açúcar – Lidl – acabaram desde 1965 com o comercio tradicional e os produtos portugueses deixaram de ter procura pois compravam as porcarias de espanha que achavam que eram melhores e tinham as quantidades que queriam – etc – algum comércio tradicional está de volta mas quem faliu e morreu e empobreceu é irrecuperável e eu vi isso no bairro onde moro há 50 anos e 50 anos é muito e mais do que suficiente para ver o empobrecimento e mesmo pessoas a caçar coisas no lixo como nunca tinha havido senão agora há 3 anos – claro que o comércio tradicional familiar e pequenas empresas não estavam cotados em bolsa e desapareceram – E não me pergunte o que fez a UE mais tarde e que agora parece ao fim de 40 anos que percebe que é preciso pensar mas familiares e pequenas e médias empresas (e agricultores familiares) – aliás até e pensam pois, já que PRECISAM da produção dos países que, como o nosso, foram levando a falências – mas também eles não destruíram aos seus pequenos produtores – a alemanha sempre foi o que foi e continua a ser – e a frança E nos nórdicos não vale a pena falar pois que são os maiores predadores dos grandes mamíferos do mar para os seus sushi e óleo de baleia e festa de iniciação dos rapazes ou pensa que são ricos à custa de quê e quem ?? Panse porque é que aqui os ricos são uma minoria cada vez mais ricos e os que sobram empobrecem (como eu para dar a eles) os países é exactamente o mesmo – os grandalhões comem os pequenotes senão ficam mais pobrezinhos – o “tubarão” para sobreviver tem de ter à mão (à boca) um grande cardume – igualzinho tal qual – os tubarões portugueses também querem entrar para a Bolsa e para a lista FORBES – E porque é que os países da europa se “unem” ?? julga que é para ajudar a desenvolver os mais pequenos ?? Não pense nisso – E porque é que já não estão tão bem como estavam ?? Porque os pequenotes como nós já não IMPORTAMOS – e eu fico contentes co isso e muito contente e todos devíamos comprar tudo o possível no comércio do bairro e NUNCA mais por nada ir na cantiga e promoções dos “Belmiros e Continentes e Lidl que se tornou vício de fim de semana e alguns atá nos oferecem capelas e cinemas e livrarias até de livros escolares nesses locais e acabaram com livrarias e papelarias de bairro – Pense nisso porque depende de nós mais do que pensamos – grão a grão eles “enchem” e gão a grão os podemos ESVAZIAR – porque fomos nós que os enriquecemos e não nos deram o melhor – assim se formatam “mentes” que vamos (eu não vou por acaso) nas cantiga dos banhas-da-cobra e só uso o comercio da minha rua – nem preciso de todo o Bairro


  7. E, já agora, sabe onde é faira a roupa da ZARA essa querida loja espanhola que existe até em Paris e se expandiu muito – pois fique a saber que a roupo aé feita de trabalho escravo na India e Bangladesh bem TUDO que tem etiqueta “CE” – que não á nada – mas sim europeu feito na escravatura da India que até fecham os portões das fábricas” e os trabalhadores quase sem comer trabalham mesmo 18 horas por dia fechados e sem conforto e muitos têm de dormir em camaratas mais miseráveis que as de inglaterra do inico da Era Industrial – e porque é que a UE protege Espanha ?? Porque tem muitos habitantes e a UE precisa deles do lado da UE – E porque a espanha fecha fronteiras aos TIR portugueses que lavam frescos e fruta para exportar e tudo se estraga ?? pois é para impedir que se exporte pois a fronteira é o quê ?? É uma arma que usam contra os TIR portugueses sabia – veja TV de madrugada e verá e os ingleses são “aliados” – ai que eu nem quero falar nesse país que perverteu o MUNDO que colonizou a INDIA e deixou miséria mais do que havia na colonização . vela o TODA A VERDADE da SIC – a maior miséria da India a que os colonizadores ingleses chamavam “a jóia da corôa” ?’ Qual país amigo – não há amigos há predadores de país maior aos mais pequenos como o tubarão come o cardume miúdo


  8. O próximo a herdar a mercearia será… o espírito santo.

  9. Leandro Coutinho says:

    Um mimo os comentários da Celeste e do Fonseca.. a Celeste é muito sugestionável pelo que entra porta dentro através da caixinha da TV.. o Fonseca vai sofismando problemas com o discurso delicodoce. Mas está bem. Somos seres pensantes e, por isso, eles podem exercitar essa veia tão plumitiva para reduzir a escrito as ideias que a cabecinha lhes suscita, mas do outro lado, temos obrigação de ler e pensar. Só engolir não!

    • Carlos Fonseca says:

      Nunca ninguém me tinha dito: “tem a veia tão plumitiva”. Normalmente, nos laboratórios de análises clínicas consideram que tenho a veia grossa que facilita a extracção do sangue. Todavia, isto não nos livra de depararmos com um plumitivo de corpo inteiro, perspicaz, capaz de observar e descrever o que mais ninguém alcança e relata.

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