Os incendiários actuaram e o sino repicou

CTTParte substancial do meu tempo é vivida em aldeia do Alto Alentejo, região ocupada por terras inóspitas, searas, chaparrrais e localidades habitadas predominantemente por gente idosa; localidades às quais, na maioria dos casos, já tinham sido retirados ‘centros de saúde’ e outros equipamentos sociais.

Em parte considerável das vilas que se dispersam até à raia com Espanha, é conhecido, desde que se propagou a loucura da privatização, o propósito de encerrar estações dos CTT, no distrito de Portalegre; como, de resto, em outras zonas do interior.

A fim de cumprir objectivos económico-financeiros, na lógica do neoliberalismo, o governo aliena segmentos lucrativos do património nacional – ANA, EDP, CTT, por exemplo – e lesa, sem pudor nem respeito, o interesse público.

Os verdadeiros lesados, no caso, são os idosos a quem as estações dos CTT pagam – ou pagavam, nas povoações de encerramentos concretizados – as reformas e distribuem cartas e encomendas de filhos e netos imigrantes que o governo do País tem ajudado a adensar nos espaços da Europa, África, Américas ou mesmo Austrália.

Lojas, que em muitos locais não existem, passarão a pagar reformas e distribuir correio, argumentam os governantes e seus títeres. Propositadamente omitem que, em muitos casos, septuagenários e octogenários, à míngua de lojas e transportes, terão de deslocar-se com um familiar jovem em viagem de dezenas de quilómetros; muitas das ocasiões, em condições penosas de saúde.

As políticas deste governo fixaram como alvo preferencial os idosos, reformados ou pensionistas, os dependentes de trabalho precário; em resumo, os mais carenciados. No fundo, os mais frágeis do tecido social envelhecido e de jovens sem futuro que caracteriza a demografia do País. Sugiro ao Pires e ao Lacerda a leitura dos versos de António Aleixo, retirados do poema ‘Os Vendilhões do Templo’:

Fazer bem não é só dar 
Pão aos que dele carecem 
E à caridade o imploram, 
É também aliviar 
As mágoas dos que padecem, 
Dos que sofrem, dos que choram.

Oxalá, em futuro próximo, “os sinos toquem a rebate”, silenciando “o incendiário sino da ‘Bolsa” e diminuindo os eventos de “Por quem os sinos dobram” com a assiduidade dramática que os Pires e os Lacerdas promovem, sem dó nem piedade.

Comments

  1. portela says:

    A natureza humana deles e a condição humana nossa.

  2. Carlos Fonseca says:

    Isso mesmo.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.