PACC


As palavras não são minhas, são do Rafael, um Professor que ontem esteve em Greve:

Entro no Pavilhão B da minha escola. É um edifício antigo de betão armado, frio, velho e temperado pela humidade de um dia maritimamente gelado. Há dezenas de jovens pendurados nos varandins dos primeiro e segundo andares com os olhares perdidos no horizonte que não há, com o futuro estatelado nas paredes. São tantos que parece um campo de concentração nazi. As escadas estão cheias de movimento; gente que não sabe para onde vai e de onde vem. Há gente com lágrimas nos olhos. (Onde vais, ó meu país?). Ouve-se a voz estridente de alguns vigilantes que fazem a chamada. São meus colegas. Trabalho com eles quotidianamente, mas os flashes de Auschwitz não me largam o pensamento e sem eu querer todo o alemão que reaprendi recentemente em Berlim me assola o cérebro. Depois, as dozes salas encheram-se de silêncio. Mortal. Carne para canhão. 
São igualmente meus colegas estes jovens que irão garantir o futuro de Portugal. No ensino, talvez. Ou noutra profissão. Ou noutro país. Alguns trabalharam comigo. Foram formados e avaliados pelas mesmas instituições que eu. Foram licenciados por instituições em que lecionei. Frequentaram ações de formação contínua que orientei. Foram avaliados por Secções de Avaliação de Desempenho de que fiz e faço parte. E estão agora sujeitos a uma prova não prevista em contrato algum, que não faz sentido e não avalia nada do que concerne a profissão docente. Nada me garante que sejam melhores ou piores profissionais do que quem os vigia ou do que o próprio ministro da Educação. Vivemos num tempo em que cada um acredita no que pode…
O silêncio na escola envolve todas as árvores; não há pássaros e nem os milhafres se atrevem a um voo de rapina.
Aqui estamos quase todos em greve ou em modo de recusar vigiar colegas. Mas bastou pouco mais de uma dezena de professores, de entre um agrupamento com cerca de três centenas para que a vontade de uma minoria se impusesse…
Que Deus ajude os colegas que foram vigiar colegas, na realidade seus pares, num gesto obsoleto, numa prova arcaica; que Deus lhes dê um bom natal, muita felicidade e muita saúde para os seus filhos e as suas famílias.
Os jovens colegas estavam obrigados a fazer a prova. Mas nós, os docentes do quadro não estávamos coagidos a um trabalho de algozes do Ensino em Portugal.

Comments

  1. Que coisa mais ridícula. Nem sei bem como comentar. Um gajo fica estupefacto.

  2. Fernanda says:

    Com que “alma” é que se fica quando alguém se presta a vigiar uma prova destas, dirigida a colegas contratados, muitos dos quais já a lecionarem há anos?
    E como se fica depois de ouvir o ministro da educação e ciência a justificar o injustificável perante as câmaras de televisão?

  3. Inqualificável, a prova cabal que a docência está cheia de dejectos armados em pavões.

  4. Marco says:

    Esta alimária não acabou de comparar uma prova escrita com o Holocausto, pois não? Alguém me diga que isto é uma piada de mau gosto, que nós não temos bestas destas a dar aulas a crianças e adolescentes…

    • infelizmente temos.
      acho que precisamos também de exames psiquiatricos para permitir alguem dar aulas.
      quando leio os posts do JJC fico a pensar como é que uma pessoa com os evidentes desiquilibrios psicologicos que manifesta pode dar aulas.
      e o teste é fácil, por isso se alguem reprovar não devia mesmo da aulas.

      • Mas como é possível alguém dizer que a prova é fácil? Só pode ser alguém que não teve que a fazer, calculo.
        A única coisa que disse de acertado foi chamar aquela coisa de ‘teste’.
        E sim, acredite que o plano é mesmo esse, lançar o descrédito total sobre uma classe cuja importância na formação do cidadão é inegável. Lembre-se lá de quem o ensinou a ler e a escrever.
        Já agora, comparar o que se passou ontem ao Holocausto, pode de facto ser excessivo, mas não anda muito longe do que por aqui se vive. A essência do nazismo está no totalitarismo e, como sabe, o uso e a exacerbação do medo, por parte deste sistema politico, é prática comum. Porque é que acha que tantos professores acabaram por fazer a dita prova?
        O Estado, tal como em Portugal, não conhece limites à sua vontade e não mede esforços para regulamentar todos os aspectos da vida pública.
        Um dia também vai chegar a vossa vez. Não pensem que escapam.

        • por curiosidade fiz a prova em casa.
          demorei 40 minutos e errei 2 perguntas, a 3 e já não me lembro da outra, creio que foi a 20.
          em casa não há o nervosismo de estar a fazer a prova a valer, mas mesmo assim pareceu-me fácil.

    • Plutarco says:

      Sr. Marco, essa tentativa de desviar a conversa para a forma escrita e não o conteúdo só engana os seus alunos de tão asnos que com certeza são com um docente do seu calibre…
      Tente outro método para fazêr valêr a RETÓRICA do ministro, que o Sr. nem para lêr uma composição serve… 🙂

Trackbacks

  1. […] O holocausto teve alguns momentos desagradáveis, alguns dos quais até incómodos e causadores de transtorno para os seus participantes. Em Auschwitz aquilo até era frio antes de vir o aquecimento global que, felizmente, tornou tudo mais confortável nos duches colectivos. De qualquer das formas, mesmo durante alguns do jogos que os convivas praticavam para aquecer, havia amizade entre as pessoas, era um local onde se sabia com quem contar para partilhar um presunto ou um garrafão de verde tinto e as pessoas sorriam, sempre com o máximo respeito. Ontem, na prova dos professores, não houve nada disso: gente que se diz professor a vigiar uma prova? Uma vergonha. Inadmissível. Devia ser proibida tamanha violação dos direitos humanos. […]

  2. […] iriam ser sujeitos foi alvo de variadíssimas contestações assentes em argumentos aduzidos por professores e especialistas em Educação. Em Julho de 2014, a fim de impedir a contestação, e aproveitando o facto de não haver aulas e […]

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