Penas transfiguradas [Textos sobre música portuguesa IV]

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© Cláudia Varejão

Lula Pena (n. 1974) não anda cá para fazer discos a metro, nem concertos, nem canções, e nem sequer covers – e os seus são sempre já outra coisa, suficientemente ancorados nas versões originais para podermos reconhecê-las, mas constituindo objectos originais: outras coisas criadas por alguém que refaz fazendo novo, recriando com a memória e o coração.

O seu primeiro disco, Phados (1998), é uma viagem que interroga o Fado, abrindo-lhe horizontes nem sempre reconhecidos pelos mais puristas da canção nacional, e embora a sua forma de cantar faça justiça ao seu nome, que transporta como um destino marcado uma dor nacionalmente reconhecível. Nele, a cantora revisita alguns grandes temas populares de Língua portuguesa (Portugal, Brasil, África), cantados com a liberdade dos reinventores da melhor tradição, com a infinita tristeza do bardo exilado (Lula, viajante poliglota, cantou-os pelas ruas do Mundo), e com a voz profunda e inquietante da sereia de voz grave a quem Rodrigo Leão pediu emprestada a voz para o paradigmático tema-tango Pasión. Uma voz que alguém definiu já como o sendo o resultado de uma combinação de mel e lava, penhascos e mar – o que pode haver de mais português?

Nascida Maria de Lurdes Pena, cresceu a ouvir Simon e Garfunkel, Bob Dylan, os Beatles, e jazz. Descobriu o Fado a ouvir Amália e Maria Teresa de Noronha, e com ele um novo mundo, coisa identitária e visceral que lhe mostrou um caminho inevitável, que contudo tem sido capaz de trilhar com espantosa originalidade, descomplexadamente partindo do Fado para se transformar noutras músicas. Musicalmente curiosa, Lula Pena convoca para o seu fado sonoridades de fusão, que agradam sobremaneira aos melómanos da música culta e experimental. Explorações que interessaram a Fundação Gulbenkian que, em 2001, cumprindo um meritório e audaz programa de abertura do seu Serviço de Música às chamadas Músicas do Mundo, a convidou para integrar uma compilação em que pontuam também nomes como Nuno Rebelo ou Carlos Zíngaro.

O seu segundo disco, Troubadour (2010), de novo assente na voz e na guitarra – delicada maneira de ser do seu ser musical, afeiçoado a uma intimidade que requer essa simplicidade de meios – é um painel de sete actos que uma vez mais desfia memórias e referências, revisitando uma herança musical pessoal que se revela crescentemente enriquecida. Sons das ruas de Lisboa, sussurros e sopros respirados fazem desse registo fonográfico um objecto que é, uma vez mais e como sempre em Lula Pena, algo único e irrepetível. Talvez por isso a palavra que mais se tem escrito para descrever a sua música seja liberdade – liberdade de ser e de fazer livremente que constitui um claro caminho em contraciclo, num mundo de sons uniformes e fórmulas-standard, de géneros musicais catalogáveis e canções-tipo. Assim é por vezes, sorte a nossa, quando tudo parece perdido por ser unívoco. Pois a transgressão transfronteriça a que Lula Pena se dedica não é aquela a que hoje estão votadas as excepções culturais. Se a sua música resulta da transformação de pré-existências, ela nada deve ao global modo de produzir irrelevâncias destinadas ao enorme vazio de consumos rápidos de novidades constantes. Porque tudo na procura de Lula Pena transporta a intenção da Arte, pela transfiguração de uma essência que é por definição eterna.

Há semanas ouvi-a acompanhada pela cravista Joana Bagulho – projecto ainda embrionário em que pessoalmente aposto. Adoro a ideia de um fado acompanhado à guitarra e ao cravo (!), e não um cravo qualquer, mas o de uma instrumentista excepcional como é o caso de Joana Bagulho, autora de uma singular aproximação à música da Carlos Paredes chamada Acção (um projecto de vários anos que no ano passado editou em disco).

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