Postcards from the Balkans #07

Srebrenica ou a tristeza no fim de uma estrada demasiado bela

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Levanto-me às sete da manhã em Sarajevo, depois de ter dormido quatro horas. Viajei cinco horas hoje. As primeiras duas horas e meia entre Sarajevo e Srebrenica. As últimas duas horas e meia entre Srebrenica e Sarajevo. A mesma estrada, que serpenteia entre as montanhas. Uma estrada bela, muito verde, escoltada pelas florestas, pelos montes de palha, pelas aldeias onde as casas tradicionais começam a desaparecer, dando lugar a edifícios que, ainda que muito feios, não conseguem arruinar (ainda) a tranquilidade e a harmonia desta paisagem. Aqui e ali pessoas trabalham nos campos. Há cabras. Ovelhas. Algumas vacas. De vez em quando, nas curvas da estrada, um velho carrega uma pá, um sacho, ou outra coisa qualquer, às costas e caminha. De repente, de manhã, há um vale cheio de nuvens, como algodão, que interrompe o verde e as curvas da estrada. O mundo está cheio de beleza.

Viajamos três. Eu, o guia*, que conduz o carro, quase sempre em silêncio e um rapaz holandês. E a velocidade e as curvas não deixam que façamos mais que contemplar longamente a paisagem. A Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Srpska para onde nos dirigimos agora formam um ‘país’ tão bonito que é difícil acreditar que é o mesmo onde correu o sangue de milhares de pessoas ainda não há duas décadas. O ‘país’ que é (ainda) uma espécie de panela de pressão. As tensões internas são várias e a tensão com a Sérvia, ali mesmo ao lado, são evidentes em todas as narrativas. A Sérvia, a mãe de todo o mal. A mãe dos rios de sangue que aqui correram há pouco menos de vinte anos. Eis um resumo dessas narrativas.

Quando entramos na República Srpska, a paisagem muda um pouco. A floresta é menos densa. Há menos prados nos vales e mais diversidade nas culturas agrícolas. As curvas da estrada, porém, mantêm-se e o silêncio parece aumentar, dentro e fora do carro. Percorremos 180 km duas vezes. Mas ainda vamos na primeira delas. Chegamos a Potocari, um pouco antes de Srebrenica, por volta das dez e meia da manhã. O memorial do genocídio, ocorrido em julho de 1995 fica nesta localidade. Potocari. Onde, ali mesmo em frente, esteve o batalhão holandês das Nações Unidas (UN), após a decisão de tornar esta área uma ‘zona de segurança’. Os ‘capacetes azuis’ eram quase todos muito jovens, inexperientes, enviados sem armas e sem meios de defesa para muitas zonas da BiH para defender a paz. Mas como defender a paz onde ela não existe? Em Srebrenica as forças da UN ocuparam uma antiga fábrica de baterias para automóveis. Está hoje como foi deixada em 1995, albergando um pequeníssimo museu sobre os acontecimentos, especialmente os de 11 de Julho de 1995. Como disse, em frente às antigas instalações do batalhão holandês da UN está um lugar triste.

É difícil falar de Srebrenica. Srebrenica é um lugar triste. Pesadamente triste, onde estão as campas de mais de 6000 homens (e de 50 mulheres) e onde desde 1996 todos os anos, a 11 de Julho, se enterram mais corpos entretanto descobertos em valas comuns. Estão por descobrir ainda mais de 2000 corpos. Srebrenica é um lugar muito triste, nesta manhã, como nas outras. Mas nesta manhã, muito quente, Srebrenica é, para mim, um dos lugares mais tristes e silenciosos onde já estive. É difícil falar de Srebrenica. Do silêncio de Srebrenica. O mesmo silêncio cheio, denso, que só encontrei em Auschwitz e Birkenau, há muitos anos, mas de que me lembro com frequência porque é um silêncio que não há em mais lado nenhum. Um silêncio aterrado. Um silêncio impossível. Um silêncio que também há aqui, em Srebrenica. Um silêncio que é importante não esquecer.

Um muro enorme tem escritos os 8372 nomes dos mortos de Srebrenica. À sua volta uma vastidão de lápides. Todas iguais (exceto as dos enterros de 11 de julho de 2014, ainda sem lápide), assombrosamente brancas. Brancas de cegar sob este sol abrasador de 11 de agosto. Todas iguais. Todas estas pessoas cujos corpos (ou o que deles foi encontrado e/ ou identificado) foram mortas a 11 de julho de 1995 ou nos dias seguintes pelo Exército Bósnio-Sérvio, em nome da criação da Grande Sérvia e da limpeza étnica que essa ideia impossível parecia exigir. Ou em nome da demência que os nacionalismos sempre trazem consigo.

Para Srebrenica, desde junho de 1995, estavam a ser empurrados todos os muçulmanos das áreas vizinhas, entretanto ‘conquistadas’ (estou a falar do século 20. Europa. Há 19 anos). Em julho desse ano estavam em Srebrenica 50000 refugiados, vivendo miseravelmente. Quando, apesar da decisão das Nações Unidas e apesar da presença do batalhão holandês, nos primeiros dias de julho, o general Ratko Miladic, chegou a Srebrenica, muitos homens e rapazes tinham já fugido para as montanhas de onde, no entanto, poucos sairiam com vida. Ao mesmo tempo, 25000 refugiados desceram de Srebrenica para Potocari, pedindo asilo no quartel do batalhão da UN. O mesmo batalhão que nada fez para impedir a entrada do exército Bósnio-Sérvio na cidade. O mesmo batalhão que nem sequer dispunha de meios para o fazer, porque ‘guardava a paz’, apenas deixou entrar cerca de 5000 pessoas, sobretudo mulheres e crianças com menos de 10, 12 anos. O exército separou então, entre os restantes, os homens entre os 12 e os 77 anos. Estes foram assassinados. Algumas das mulheres e raparigas foram violadas.

Os corpos – 8372… oito mil, trezentos e setenta e dois – foram enterrados em valas comuns. Os mesmos corpos foram, nos meses seguintes e especialmente naqueles que imediatamente antecederam e precederam o Acordo de Dayton (novembro de 1995**) exumados pelos soldados do exército assassino e novamente enterrados noutas valas comuns, de modo a apagar as evidências dos crimes cometidos. Os militares e dirigentes políticos começaram a ser julgados, no Tribunal de Haia, em 12 de fevereiro de 2002. Em filmagens das sessões do tribunal, que vi há 2 dias, na Galerija 11/07/95, um juíz pergunta a um destes militares: ‘quantas pessoas estima ter morto?’. O militar responde: ‘não sei quantas pessoas matei. Não desejo saber quantas pessoas matei’. E eu compreendo-o. Eu, que nunca matei ninguém, percebo que não se possa continuar a viver, sabendo isso.

As penas, segundo os familiares das vítimas e os habitantes da BiH em geral, foram leves. Muitos destes criminosos de guerra conseguiram mesmo fugir e nunca foram ou serão julgados. Entretanto, quase 20 anos passados, as mães, as filhas, as mulheres, as irmãs dos homens assassinados em Srebrenica continuam a enterrar os seus mortos. As tensões, mesmo se latentes, entre a BiH e a Sérvia continuam a existir, já o disse. A história não é contada da mesma maneira num e noutro país, nem poderá sê-lo, sem que passem muitos anos. Ou talvez nunca. As Nações Unidas lamentaram o papel do batalhão holandês, mas nunca reconheceram a sua responsabilidade formalmente. O sofrimento continua na BiH. Todas as pessoas perderam alguém, amigo, vizinho, familiar, nesta guerra.

Além do sofrimento indízivel e invisível, há aquele que se vê, na cidade de Srebrenica, reconstruída à pressa, feia, desordenada, suja, triste. Que se vê nesta cidade como se vê em certos bairros de Sarajevo e, certamente noutras localidades da BiH. Uma cidade que existe, como se não pudesse existir com beleza, depois de tamanho mal. Acho que se pode, apesar da tristeza, compreender. Como se estas pessoas que vivem agora em Srebrenica não fossem capazes de continuar sem as que foram mortas em 1995. Mas, assim mesmo, continuam.

E é de algumas das pessoas mortas que ouvimos falar no pequeno museu agora instalado na antiga base dos ‘capacetes azuis’. Através dos objetos encontrados nos corpos. Um pequeno Corão, os óculos, um maço de tabaco, um isqueiro, um relógio, uma carteira, uma chave…

Alija Salihovic morreu com a chave de sua casa no bolso. Como se fosse voltar. E é esta chave que mais me comove. Um homem fecha a porta de sua casa e com a chave no bolso vai ao encontro da morte. Como se fosse voltar.

E no regresso a Sarajevo, eu, que não tenho comigo a chave de minha casa, eu, que viajo de carro, com um Bósnio e um Holandês, entre as montanhas e as florestas da República Srpska e da BiH, numa estrada longamente sinuosa, como a vida, sem a chave de minha casa, sinto-me perdida.

Em Sarajevo, descanso um pouco, primeiro, encontro-me e vou ver, depois, o Memorial às crianças mortas durante o cerco. Fica no meio de um jardim, é uma fonte, onde brincam as crianças vivas de Sarajevo. O barulho da àgua faz-me esquecer o silêncio denso e impossível do grande cemitério de Srebrenica. Fico ali um bocado. Alguém colocou flores vermelhas na fonte. Além da àgua, os risos das crianças vivas de Sarajevo.

Decido que amanhã não verei cemitérios, nem memoriais aos mortos. Amanhã verei os lugares dos vivos. Começo ali mesmo, um pouco à frente, no regresso ao bulício da cidade velha, ao intenso odor do cevapi, à agradável mistura cultural desta cidade, bebo uma cerveja, ou duas. Amanhã verei os lugares dos vivos. Daqui a uns dias recuperarei a chave da minha casa.

(agora mesmo, ao abrir a janela do quarto, vi uma estrela cadente)

* Esta viagem era impossível de fazer num dia em transportes públicos. Fi-la com a mesma agência de ontem, a Insider (http://www.sarajevoinsider.com/)
** É impossível fazer aqui a história desta guerra, complexa. No Postcard #5 há alguns links que poderão ser úteis a quem quiser saber um pouco mais.

Comments


  1. O Cemitério Americano de Colleville-sur-Mer e o Campo de Concentração de Natzweiler-Struthof em França, Guernica em Espanha, Dachau na Alemanha … juntamente com Srebrenica, tudo durante o século XX, continuam a lembrar-nos que os milhares de anos de evolução humana apenas produziram avanços no campo técnico. A estupidez e a barbárie humanas continuam no grau quase zero da evolução.

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