Turistificados

No tempo em que os animais já tinham renunciado à fala mas ainda ninguém tinha inventado a palavra “turistificação”, só havia camones e esses nunca se atreviam a passar aqui na rua. Alguns dos seus ex-pertences, sim, acabavam por ali, vendidos por baixo do balcão de certas lojas, alguma câmara afanada enquanto o camone subia a peúga caída para dentro da sandália, uma bolsa deixada pela senhora de Birmingham que, de tão enternecida com o hábito popular de deixar os guarda-chuvas molhados à porta dos cafés, pensava que também podia deixar a mala enquanto ia ao quarto de banho.

O Zé Isqueiro, que ganhou a alcunha por ser pequenino e de pavio curto, diz que não, que ceguinha seja a falecida mãe mais a irmãzinha que foi para o céu com o sarampo, se alguma vez ele afanou alguma coisa a alguém, que se alembra bem desse tempo, e de quem andava na gatunagem, mas ele não, ele teve sempre medo de ir de cana, e os tempos eram bravos, pois eram, mas ele foi aprendiz de marceneiro, depois foi servir às mesas, fazia serviços de casamento e banquetes, e safou-se, que remédio, mas sempre longe da bófia, que essa quando te deita a mão nunca mais te deslarga.

A rua ainda lá está, toda torta e inclinada, e o Zé Isqueiro também, mas agora passa o dia sentado no chafariz, com a canadiana encostada ao lado, à espera do carteiro que lhe traz o vale da reforma ou de alguém a quem cravar, ó menina, não tem um cigarrinho?, eu tinha, foi assim.

O que a rua foi vendendo está estratificado por épocas, como os sedimentos da geologia. Que me lembre, e agora sou eu quem diz, não é o Isqueiro, foram primeiro os cabedais, as peles, os arranjos de sapatos, os serviços de gaspeado. Depois vieram os transístores, os rádio-cassete, os vídeos Betamax, VHS, os rebobinadores das cassetes (para não cansar as cabeças do aparelho, dizia-se) os leitores de CDs. A última vez que cá vim já foi para desbloquear o telemóvel. Agora são as baterias para telefones espertos, os carregadores, os mp3.

Electrónica para pobres, muita loja de bengalês, muita bandeirinha de Portugal na janela dos imigrantes, uma foto do Papa no sapateiro português, entre o emblema do clube e um vaso de begónias murchas. Lá para cima, quando a rua muda de nome, mas é a mesma, há bares manhosos, de luz vermelha, e uma tasca como deus manda, com bucho com molho verde e pratinhos de moelas, sei que isto nem vinha a propósito, mas são quase as duas e eu ainda não almocei.

Passa por nós, entretanto, no chafariz, uma camone moderna, das que não têm medo das ruas tortas e inclinadas, com a câmara gigante ao pescoço, agora andam todos com os canhões ao dependuro, observa o Isqueiro, lá vai ela fazendo fotos às fachadas, e nem nos vê, nem a nós nem ao calhau fora do sítio, isto não são ruas para ir a olhar para cima, e salva-se do tombo em extremo, com um grande salto destrambelhado.

O Isqueiro puxa o cigarro com jeitinho, não se desperdiça o que foi cravado, semicerra os olhos ao fumo, e põe-se pensativo, lá muito dentro da memória, mas sacode-se logo e atira o fumo para longe, que a memória tem buracos onde um gajo cai e de lá já não sai inteiro, piores, cem vezes piores que os das ruelas tortas. Ajeita o boné coçado dos NYY, que ele acha que são a polícia dos States, e declara, lapidar:

– Os camones perderam o medo. Olha se eles antes passavam aqui, o caraças é que passavam, nem lhes cabia um feijão no cu.

As ementas em inglês ainda não começaram a descer a rua, mas já tomaram a praça lá de cima, é só questão de tempo. E a rua não está pior, a malta gosta de camones, sacode-lhes as migalhas da toalha em cima e eles acham tudo típico, tudo tem graça, nem imaginam que os tempos do “água vai!” não estão assim tão longe e o que chovia das janelas nem era água cristalina.

Deixo o cigarro do lanche ao Isqueiro e lá vou eu, que se fez tarde. Quando chego ao cimo da rua, olho para trás e vejo certa camone a passar o telefone ao Isqueiro para ele lhe fazer a foto no chafariz que vai para o perfil agora mesmo. Já ganhou para o cigarro da noite, menos mal.

A foto não é grande coisa mas é minha.

Comments

  1. Adélia says:

    Mais uma crónica deliciosa! Obrigada Carla!

  2. José Peralta says:

    Carla Romualdo

    Subscrevo a opinião de Adélia !

    Excelente a sua crónica !

  3. Rui Moringa says:

    Excelente prosa. sou do Norte-Porto e identifico-me com as palavras e o seu sentido. Muito belo.
    A foto é grande coisa sim.
    É um rua que tem inicio na praça da Batalha em direcção à Rua do Loureiro, não é? Esqueci-me do nome…

  4. J. Ribeiro says:

    Não sei qual é a rua, mas sorri ao lembrar-me dos meus tempos de meninice, o meu bairro é Campo de Ourique, onde nasci, mas palmilhei desde muito cedo as ruas da nossa cidade, e encontrei muitas ruas destas…OBRIGADO


  5. Obrigada a todos e aproveito para duas notas em particular.
    Ao Rui Moringa, dizer-lhe que acertou em cheio, a foto é da Rua de Cimo de Vila, ainda que o texto não se situe especificamente aí.
    A J. Ribeiro, que muito me alegrou que a um lisboeta de Campo de Ourique soem igualmente familiares cenas que para mim são tão portuenses.

    • José Peralta says:

      Agradeço-lhe a identificação da rua. Também sou lisboeta, e a mim parecia-me uma rua do Bairro Alto !


  6. Como diria um camone meu amigo que nunca se conseguiu exprimir em português: “That’s a boa, Carla”. Assim alvitrava ele admiração.

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