Ucrânia: a arma da Língua

Des figurines de soldats séparatistes prorusses en vente dans un atelier de Moscou, le 29 août. (Photo Sergei Karpukhin. Reuters)
Soldadinhos separatistas pró-russos à venda numa loja de Moscovo
(Photo Sergei Karpukhin/Reuters)

Quando estalou aquilo a que a que nos telejornais chamaram com simplismo a “revolução ucraniana”, conversei com uma jovem nascida na Crimeia soviética, numa pequena cidade a cerca de 150 quilómetros de Simferopol cuja construção, de raiz, se iniciou em 1976 para acolher as famílias dos operários e do pessoal especializado de uma central nuclear que veio depois a ser abandonada, na sequência da catástrofe de Tchernobyl. A rapariga falou-me da crescente “ucranianização” da sua terra, que considera russa: «Nós somos russos, a Crimeia é russa. Nós já sabíamos que isto ia acontecer, que mais tarde ou mais cedo ia haver problemas, porque apesar de aos dezasseis anos ter recebido um passaporte ucraniano, eu sei que não sou ucraniana. O meu pai é russo, e eu também. A Crimeia ucraniana não existe, é uma realidade artificial. Vão estudar a História.»

E no entanto, apesar do posicionamento pró-russo (entenda-se pró-reintegração da Crimeia na Rússia, realizada enquanto o diabo esfregava um olho em Março passado), a rapariga não é anti-europeísta, e aliás vive na Europa.«Nós não somos anti-Europa, mas trata-se da nossa História, dos nossos próprios problemas, que temos de ser nós a resolver. A política e os negócios são uma coisa, mas a História é do povo, respeitem-na. Vamos ter de arranjar uma maneira, uma federação pode ser a melhor solução para a actual Ucrânia. Somos como irmãos zangados uns com os outros, mas vamos ter de nos entender.»

O entendimento está destinado a ser falado em Língua russa, apesar das tentativas de apagar essa raiz cultural que começaram a assolar alguns lares ucranianos, onde a guerra se faz por vezes entre casais de origens ucranianas diversas e que os recentes acontecimentos antagonizaram – havendo pais que deixaram subitamente de falar em russo com os filhos. Apesar de o ucraniano ser a Lingua oficial da Ucrânia, a maioria dos ucranianos fala russo, Língua que predomina a Leste e a Sul, num país que é na prática bilingue desde a sua independência em 1991. E esta guerra doméstica, feita com a arma da Língua, é muito interessante do ponto de vista da caminhada histórica e política de um povo dividido quanto à sua construção identitária.

Comments


  1. Se a jovem soubesse história, saberia que a Crimeia não deve ser nem ucraniana nem russa. O que não retira o mérito ao post, que trata de outra realidade. Embora, à luz da história, o affaire Crimeia pudesse ser discutido em grego, um povo dos que mais vestígios deixou nesse território. Grego clássico, que giro!

    • Sarah Adamopoulos says:

      Isso já será fundamentalismo Armindo, que as raízes gregas da Crimeia já lá vão há que séculos… Falamos aqui dos vivos, e das realidades históricas que conheceram em tão poucas gerações


  2. A jovem com quem a Sarah falou é que nos mandou estudar história. Eu apenas segui o conselho! Por outro lado, é certo que a nomenklatura soviética tinha na Crimeia mais dashas do que os ucranianos. Mas alguns desses também já não estão vivos…

    • coelhopereira says:

      Essa dos Gregos e do seu Clássico Grego é um achado e tanto, caro Armindo de Vasconcelos… Olhe que seguindo a sua arqueológica lógica ainda acaba o senhor, e nós consigo, virado para Meca e aos gritos de “Allahu Akbar”, num monte qualquer ali para os lados de Mértola.

  3. joao lopes says:

    o mundo dito civilizado(EUA e UE) tentam diabolizar putin e os russos.Ora tendo em conta que foi o sr.bush que entrou pelo iraque dentro(como um boçal),pegando fogo ao medio oriente(consequencia:EI),que são fundamentalistas como a sra.merkl que impoem a austeridade à força na europa(aumentando cada vez mais a pobreza na europa) ,é preciso têr lata para acusar a russia de seja o que fôr ,nesta mundo comandado pelos radicais financeiros.

  4. h5n1968 says:

    As fronteiras e as populações do Império soviético foram construídas por intermédio de uma gigantesca obra criminosa de engenharia humana.

    Qualquer avaliação de um dado período que não tenha em conta essa realidade é pura falácia e tentativa de fraude histórica. Basta recordar o Holodomor.

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    • joao lopes says:

      pois as fronteiras dos EUA ,passe a ironia .deviam sêr so as fronteiras dos EUA.mas os EUA gostam de bombardear o iraque(o criminoso bush adora armas),gostam de formar os talibã nas artes da guerra(agora aí esta o EI), e adoram vender armas a quem quer que seja(as armas é o maior negocio do mundo)…por outro lado barack obama merecia um país melhor para governar,um país sem o tea party(em portugal o tea party é representado pelo “observador”)

    • coelhopereira says:

      E as fronteiras de todos os actuais Estados europeus foram obra de quê? Foram obra de alguma engenharia divina? Fraude histórica? Fraude histórica é tomar por libertação aquilo que foi expansão colonial. E se quiser clamar por justiça faça-o: peça aos EUA que devolvam a terra roubada aos Americanos originais, que devolvam o Texas aos seus legítimos donos e que ao Hawai, a Porto Rico e a Guam façam o mesmo; peça ao Reino Unido que devolva o Hulster à Irlanda e Gibraltar a Espanha e a esta última peça que devolva Ceuta e Melilla a Marrocos, pedindo a Marrocos que devolva o Sahara Ocidental aos Sarauís.
      Quanto a “engenharia humana”, houve grandes empreendimentos dessa “engenharia” que fariam empalidecer o seu inteligente exemplo de Holomador. Cito só dois: o extermínio de 11 milhões de Congoleses pelos Belgas e a limpeza étnica de mais de 30.000 Hereros e Namas pelos Alemães, na Namíbia.
      A URSS já morreu há muito; o que não morreu foi o Nazismo que hoje está bem representado na pandilha criminosa que governa a Ucrânia a partir de Kiev, os orgulhosos herdeiros de Stepan Bandera e da Divisão Waffen SS “Galicia”. Continue a combater moinhos de vento vermelhos que um destes dias ainda tem o azar de ser cilindrado por botas cardadas decoradas com suásticas…

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