Franchsing – o renascer do velho cabeça de ovo!

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Isto ia acontecer um dia. Depois das desvairadas recriações de famosas personagens literárias em filmes e séries de televisão, por vezes com recursos cénicos delirantes ou anacronismos patuscos – eventualmente com resultados interessantes, diga-se -, chegou-se ao puro gangsterismo editorial.

Um descendente/herdeiro de Agatha Christie, decidiu – e pode! – fazer negócio com uma escritora inglesa, à qual vendeu o direito de “continuar” a obra da mestra do policial, nomeadamente ressuscitando a figura de Poirot que vai, assim, continuar a exercitar “his little grey cells”. Isto é, Poirot é um franchising! Como asas de frango, cachorros quentes, hambúrgueres. Aposto que o pobre Hastings vai ser substituído por uma capitosa loira cheia de truques e o brioso chief inspector Japp por algum mutante especialista em artes marciais.

Mas o herdeiro e a autora estão felizes, que eu vi. Já lançaram o livro. E em vários países simultaneamente. Ousam declarar que vão continuar a obra de Agatha Christie e já prometem uma sequela. Se isto faz escola, vai ser o bom e o bonito. Estou a ver algum descendente de Proust autorizar um Em Gozo do Tempo Encontrado. De Eça poderá sair Padre Amaro II: o Gay ou A Reliquia II – o Regresso a Jerusalém. De Camilo, Amor de Perdição – Mariana Sabia Nadar!. E nem quero pensar nos heterónimos que Pessoa pode vir a ganhar. Para não falar na publicação de um Azul e Verde, que continuará, em variação cromática, Stendhal, ou na mina que seria continuar a obra de um velho moralista como Sade. E por aí fora. Tremei, escritores vivos! Um qualquer bisneto desusado pode continuar-vos. A possibilidades são infinitas. Basta arranjar um descendente/herdeiro com o adequado perfil de chulo.

Comments

  1. Nightwish says:

    Nada de novo, já os filho de Frank Herbert e Christopher Tolkien foram pelo mesmo caminho.
    Mas os direitos de autor é mesmo isto, alimentar os descendentes sem deixar que outros usem o material para criar trabalhos inspirados nas obras.

    • jojoba says:

      Bem, o Chris Tolkien escreveu a Historia da Terra Média com base nos papéis esparsos do pai, funciona mais como um editor-escritor. È um pouco diferente deste caso

  2. coelhopereira says:

    Uma lástima. O plágio é uma coisa muito feia, mas não é nada que espante vindo de habitantes da pérfida Albion, esses piratas por herança genética. Explico-me: já essa figura incontornável das letras portuguesas que dá pelo nome de Miguel Sousa Tavares tinha, aqui há uns tempos, aparecido, sorridente, nas nossas queridas pantalhas ao lado de um seu filho, filho esse que havia dado “continuação” a um conto de sua excelsa avô Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais uma portuguesíssima pioneira ideia (o “franchising” pseudoliterário) roubada pela malandragem britânica…

  3. Pedro Teixeira says:

    No problemo. Já a P.D. James fez uma continuação do Orgulho e Preconceito, policial, o Death Comes to Pemberley, e ficou bem catita.
    A intenção é dar continuação aos poirots, com o ambiente histórico das novelas da Agatha Christie, aproveitando a atual moda do gosto pela cultura inglesa nesses anos, Downton Abbey e tal e coiso. Poderão ser “chulos”, mas não são burros. Por isso, não vale a pena imaginar mutantes, louras e hamburgueres ou naves espaciais.

  4. Joam Roiz says:

    O capitalismo levado ao seu extremo: o dinheiro feito Deus e a falta de princípios e valores. Agora nem os escritores falecidos escapam. Antigamente, os descendentes abriam as “arcas” e deixavam os inéditos e os manuscritos à disposição dos especialistas (normalmente escritores ou ensaistas consagrados) para a edição crítica ou para o estudo do autor e da sua obra. Chegava-lhes a herança dos direitos de autor da obra publicada e, acima de tudo, o orgulho de serem filhos de tais pais.

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