Ecos de mudança

ovelha negra

Enquanto a sociedade portuguesa se mantém fiel ao cancioneiro “hooliganista” que educadamente nos relembra a adaptação futebolística desses tão nossos “brandos costumes” – “levais no cu e não dais luta” – em Espanha e na Grécia os movimentos anti-sistémicos avançam e posicionam-se na pole position para as próximas legislativas. Se já não era novidade que o fenómeno Podemos lidera as intenções de voto no país vizinho, na Grécia cozinha-se uma autêntica revolução no sistema político com o Syriza a ombrear com o bloco central grego na disputa das próximas legislativas, antecipadas para 25 de Janeiro.

Claro que os ecos de mudança são interpretados por muitos como sinais de perigo. Confesso que não consigo perceber de que forma é que estes partidos, que não encerram em si uma retórica xenófoba ou de promoção da violência como a Frente Nacional ou a Aurora Dourada, possam causar mais estragos do que a elite dos seus blocos centrais com todos os parasitas que se alimentam dos seus lombos e toda a instrumentalização de que são alvo por parte dos grandes grupos económicos que os controlam. Poderão ser experiências mal sucedidas? Claro que sim. Mas o que será que os distingue dos incompetentes e corruptos ditos moderados que até agora governaram os seus países e que os levaram à ruína? Não terão estas estruturas o direito e a legitimidade de propor e trilhar um novo caminho para os seus países? Não vejo porque não. Pior que quem destruiu os seus países é muito difícil. Independentemente do que nos contam as fábulas dos teóricos dos sistema que vêm agora o seu poder, influência e “tachocracia” em xeque.

Claro que os mercados financeiros irão sempre reagir com pessimismo a estas mudanças. Não é preciso ser um génio da academia para perceber que os mercados preferem blocos centrais servis e manipuláveis no poder a forças políticas pouco interessadas em servir as elites financeiras. Claro que os canais de televisão detidos por esses mesmos grupos, repletos de comentadores dos partidos por si apoiados, irão demonizar estas alternativas até ao limite das suas forças. Tal não é mais do que a expressão do desespero daqueles que vêm o seu domínio ameaçado. Mas se o sistema precisa de mudança, ideia que me parece comummente aceite pela generalidade dos portugueses e europeus em geral, estas opções não podem ser descartadas por não seguirem a cartilha habitual. E o mesmo sistema eleitoral democrático que os poderá levar ao poder poderá igualmente derrubá-los. Mas manter um sistema ineficiente e corrompido em nome de uma estabilidade que não existe é que não poderá ser opção. E se os partidos do centro querem recuperar a sua influência, nada mais simples do que passar a colocar o interesse das populações acima do banco ou da construtora civil que lhes dá emprego depois da governação. Talvez reconquistem o terreno que agora vão perdendo para as pontas do espectro político. Até lá, não nos resignemos. Em democracia, o futuro será sempre aquilo que a maioria quiser.

 

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Um pequeno comentário.
    Espanta-me que os redactores se refiram aos partidos que nos espoliam, roubam e defendem os corruptos, como os PARTIDOS do CENTRO. Ponho então uma pergunta: Se considerarmos o mar de corrupção, de fome e desemprego que vivemos é obra dos chamados “Partidos do Centro”, o que nos espera de uma Direita? Campos de Concentração? Os actuais Partidos do Centro, os que nos governam, constituem para mim a mais reaccionária direita pós 25 de Abril, claramente uns grupelhos de fascistas reciclados.


    • A utilização do termo “centro” visa apenas e só uma adaptação ao discurso comummente aceite. Já o termo fascistas reciclados é muito bom. Permite-me o plágio para situações futuras?

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Fica entendido e eu, muito mais tranquilo, pois tenho-o seguido e fiquei algo surpreendido com o termo. Por favor use e abuse do termo ainda que tenha a consciência que o adjectivo “reciclados” é algo muito simpático para essa cambada. Abraço e bom ano.

  2. ASantos says:

    Ao ler este post fiquei com a ideia que se baseia exclusivamente nos governos. Para mim um problema ainda mais complexo está nos Municipios/Juntas Freguesia porque ai vai da direita à esquerda. Estes são os Centros de Emprego dos Partidos Políticos.

    ASantos


    • Concordo e acrescento que uma revolução social com verdadeiro impacto deveria começar no nível concelhio e crescer até “tomar a capital de assalto”. Não podia estar mais de acordo. Contudo, a mensagem que tentei transmitir neste texto remete mais para uma realidade macro.


  3. Talvez falte mais um paragrafo que diria(sugestão minha). O que os comentadores acham perigoso é os novos movimentos acharem que quem vai pagar a divida decidida pelos gregos e espanhóis(+portugueses) são o resto dos europeus numa “solidariedade” que só é clamada para pagar, já que quando foi para gastar ninguém se preocupou em gastar só o que se produz, como o têm feito os agora críticos deste modelo de “resolver” os graves problemas criados pelos partidos do centrão. (como diria a outra = isso agora não interessa nada).

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