O meu desejo para 2016 – a erradicação da precariedade

Uma das pessoas que me é mais próxima, concluiu os estudos superiores em 2016. Fez-se a festa rija. Esticou-se um bocadinho no orçamento mensal e até se abriu uma garrafa de espumante da região do Dão. Afinal de contas, foram 3 meses de sofrimento: para mim, stressado no trabalho numa empresa subsidiária de uma grande multinacional e para ela, às voltas com uma cadeira que tinha em atraso há dois anos: Introdução à Contabilidade. Nos meus intervalos de tempo, lá fui, com paciência de Jó mostrando o que era um crédito, um débito, um par de rubricas, acrescenta dali e tira daqui, uma demonstração de resultados, um EBIT, um EBITDA. Passou. Concluiu. 14! Well done.

Sem delongas, demorou meia hora a fazer-se à estrada do mercado de trabalho. Sem cair no surrealismo bacoco de procurar exclusivamente emprego na área lá se fez à estrada. Mais de 30 curriculum enviados por dia. Uma experiência mal sucedida. O desespero total, quando, a uma sexta-feira me chega a casa a dizer que no dia seguinte, ia trabalhar numa daquelas pragas associativas que andam por aí a pedir para a AMI e para a Unicef.

De Ami e Unicef não havia sinal. 6 horas numa bomba de gasolina a vender brindes e a pedir às pessoas para uma Associação de Solidariede de objecto muito obscuro. Chorou e nunca mais lá apareceu porque pela primeira vez na vida se sentiu envergonhada de ser paga para pedir para algo em que logo no primeiro segundo não acreditava.

Dois dias depois foi a uma entrevista que não era mais do que outra empresa que metia gente na rua a pedir donativos para a AMI. Nem quis passar à 2ª ronda, quando lhe diziam do outro lado da Linha que “ela tinha sido a única escolhida de 100 candidatos” – neste mundo, existe gente de um sadismo desmedido.

Até que uma entrevista para uma loja de brinquedos num centro comercial a convenceu. Cheia de motivação lá foi ela. “A nossa vida vai melhorar, querido” – dizia. “O tipo pareceu-me impecável, dá-me pouco mas pelo menos é a 6 meses” – concluía. A 6 meses. É triste pensar em como grande parte dos jovens portugueses projectam a sua vida a 6 meses, sem direito, para já, a subsídio de desemprego ao fim de 6 meses caso não tenham o ano anterior completo de descontos.

No primeiro dia, tudo baril.
No segundo dia, a gerente da loja já afirmava que tinha que fazer as limpezas da loja sozinha para agarrar a vaga.
No terceiro dia, tinha que carregar com kg de brinquedos do rés-do-chão (cais) do centro comercial até ao 2º andar.
No quarto dia, o contrato não chegava para assinar. Nunca chegou.

Até ao dia (28 de Dezembro) em que, a entidade patronal, sem mais delongas, enviou a carta de despedimento para casa. Os 6 meses propostos, tinham, subitamente, 1 dia depois do Natal, passado a 3, valendo-se a entidade patronal, que nenhum contrato tinha, em 2 meses, apresentado a uma trabalhadora que não tinha conhecimento da sua função, das suas condições laborais e da sua remuneração, da lei: para contratos em que ao trabalhador será proposto o estatuto de efectivo, manda o Código de Trabalho que os primeiros 90 dias são de experiência. Assim nos referiu a ACT, entidade, cujo jurista local, desvalorizou por completo a inexistência de um contrato assinado entre as partes.

Contudo, a carta de despedimento era clara “Em conformidade com o artigo 344º, nº1 do Código de Trabalho, comunicamos a V. Exª que o contrato a termo certo, entre nós celebrado em 19\10\2015 não será renovado no final do respectivo termo, cessando assim em 18\01\2015”

Como? Como é que uma entidade patronal pode dizer que uma pessoa não renovará um contrato que nunca chegou a assinar e cujos termos nunca chegou a conhecer?

Esta é a história mais recente da vida da minha namorada, história que publico com o seu assentimento para explicar que esta também é a história de uma bela fatia de jovens portugueses. Esta também é a história da pulhice que alguns empresários portugueses utilizam para disfarçar as ofertas de sub-emprego que diariamente publicam nos jornais e na internet. Esta é a história de um país em que vale tudo. Esta é a história de um país moralmente doente na qual aqueles que querem trabalhar tem que literalmente sujeitar-se a todo o tipo de condições, exigências, horários de trabalho e manobras de bastidores. Esta é a história de um dos únicos países que ainda tem trabalho não-remunerado sob a forma de estágios profissionais. Esta é a história de um país que ainda tem como formas de pagamento os recibos verdes, os actos isolados, os trabalhos à peça, os trabalhos temporários com contratos de 7,15,21 dias e renováveis de mês a mês ou de 3 em 3 meses. Esta é a história de um país que não assiste todos aqueles que por força da sua ambição de quererem trabalhar, não tem assistência social depois de trabalharem por 3 meses. Este é, efectivamente, o meu grande desejo para 2016: travem a doença que se espalhou nas entidades patronais deste país. Terminem com o trabalho precário.

Comments

  1. joaovieira1 says:

    Há, certamente, no nosso país, empresários e empresas bem geridas, credíveis e cumpridoras das suas obrigações para com terceiros.. Contudo, o que relata no seu comentário é abjecto, a merecer mais do que simples indignação. Trata-se, na verdade, de “empresas ou instituições” que se aproveitam de jovens inexperientes, ansiosos de acederem a um 1º emprego decente coisa que escasseia ou simplesmente não existe neste Portugal capitalista e ultra-liberal onde grande parte dos empresários e gestores cultivam ainda uma mentalidade fechada, própria do antigo regime ou dito de outra forma, “reciclados”, mas a quem a crise económica, financeira e social, extremamente acentuada pelas medidas ultra-austeras do anterior governo são pretexto para tratar os jovens e não só como se não fossem pessoas.

  2. Nightwish says:

    Nem para 2030, camarada.


  3. Não há empresários. Continuamos a ter patrões.

    Ao caso que o João Branco apontou, e que lhe é próximo, quase todos nós temos mais para acrescentar-na família ou na roda de amigos.

    Jovens cheios de potencialidades em trabalho absolutamente precário e que não acrescenta nada à riqueza do país.

    Uma jovem do IST com curso em engenharia aeroespacial, por exemplo, a trabalhar em loja de souvenirs, enquanto espera respostas a pedidos de trabalho “adequados.”

    Mas há mais……noutras áreas interessantes para o desenvolvimento do país.

    Jovens trabalhadores, empenhados, cheios de garra.

    A caminho da emigração.

    (Há alguns que se “safam”. As cunhas ainda continuam…..)


  4. Apesar de não vai haver empregos para todos, nunca mais, precisamos de analisar a pulhice dos que agarrados aos serviços públicos de emprego, nada fazem para defender aqueles que como cidadãos de 2ª não têm direito ao tacho dos afilhados da CGTP , BE PS. Como se sabe todos podem publicar as patranhas que querem que a IEFP não acha curial fiscalizar e actuar. Quem já contacta com esse ninho de burocratas sabe como a ineficiencia é lei neste Portugal novo.
    Continuem a votar neles

  5. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Independentemente dos bons e maus empresários e dos bons e maus políticos que existem, quando se adjectivam estas classes, adjectiva-se a maioria.
    Há sempre a excepção à regra e no meio dos incompetentes, dos pulhas, dos oportunistas, dos imediatistas, dos prepotentes e dos “chico-espertos”, há com toda a certeza gente boa e bem formada.
    Mas deixemo-nos de ilusões e chamemos os bois pelos nomes: os nossos empresários, na sua maioria, têm infelizmente as características que acima adjectivo e outras que o decoro não me deixa pronunciar.
    A par da escumalha empresarial da qual que o caro João Branco nos mostra um exemplo, há outra classe exactamente com as mesmas características ( e onde, seguramente, ainda há alguns exemplares de gente boa, embora muito poucos) que afina pelo mesmo diapasão: refiro-me aos políticos que são os conceptores das normas que geram este trabalho indigno e escravo.
    E a par desta miséria, há uma justiça que é incapaz de actuar na defesa de direitos que estão consignados na Constituição, embora compreenda que quando um presidente e um primeiro ministro exercem os seus cargos respectivamente há 10 e 4 anos sistematicamente contra a Constituição e acusando-a de tudo, entramos no mais completo regabofe a que candidamente chamam democracia.
    Mas preocupa-me ainda mais uma juventude quase completamente afastada das lides políticas, argumentando que tudo está mal e a melhor posição é ignorar o que se passa.
    Tudo isto e mais alguns factores a que junto uma informação deturpada e servida por maus profissionais, pois a carreira constitui-se hoje, tal como no tempo do fascismo, numa óptica de lambe botas e de compadrio, contribuem para um divórcio colectivo da vida política ou por uma desinformação que acaba por gerar o desencanto.
    O estado a que chegamos, caracterizado por inúmeros casos como aquele que João Branco nos relata, tem como origem empresários rasca, políticos rasca, justiça inexistente e jornalismo rasca.
    E é neste meio rasca que aqueles portugueses que acreditam que vale a pena pensar e lutar, se têm que desenrascar…