Sopra doido


CR

Na farmácia do bairro, ouvi certa manhã um velhote contar que, até ir ao médico pela primeira vez, o seu coração batia: “tum-tam, tum-tam, tum-tam”. O médico ouvira aquele desconcerto, sentenciara umas palavras ininteligíveis e receitara-lhe a pastilha que lhe fizera o coração acertar o ritmo. Agora, no seu peito apenas se ouvia um circunspecto “tum-tum, tum-tum, tum-tum”. O médico ficara satisfeito, a pastilha era para manter, mas o velhote desconfiava de batida tão certa.

– Isto é soldado que nasceu para marchar torto – garantia ele ao farmacêutico, que sorri sempre,  sem escárnio, das sentenças dos leigos.

Vivia agora mais preocupado do que antes do acerto. Era um caso evidente de um coração que se fizera perfeito, como o daqueles versos do O’Neill, mas batia descompassado do seu dono.

Saí da farmácia a pensar nas batidas do meu e lembrei-me de um espantoso som, o de certo consultório de obstetra. Em cada sala, uma barriga escutada pela máquina, longos minutos de gravação dos batimentos desses poderosos corações ainda por nascer. Quando as portas se abriam, para que um técnico entrasse ou saísse, o eco amplificado dos corações enchia o corredor. Tum-tum-tum, soldados alinhados à espera da ordem de partida.

Pois, a gente do meu bairro é dada às metáforas com corações. A dona da mercearia, para não ir mais longe, apanhou uma vez a gatinha que vagueava com medo e fome debaixo dos carros, levantou-a no ar, um pedaço quente e palpitante de vida, e chamou a vizinha: “Ora sinta o coração dela, parece uma toura.” Guardei a frase. É no coração, aprendi, que até um gato pode assemelhar-se a um touro.

Por razões familiares, cresci a ouvir falar de corações, da aorta e da mitral, de aurículas e ventrículos, do milagre da contracção do músculo cardíaco. Fígado, rins, pulmões são estranhos para mim, mas o coração foi sempre um velho conhecido. Tem tanto de mecanismo sofisticado (“a máquina”, chamam-lhe) como de inconstante e passional. Presta-se a todas as metáforas. Coração cansado, coração doido, coração partido, coração de ouro, coração de chumbo.

A deusa Momo, personificação do sarcasmo e da ironia, musa de escritores e poetas, que a passagem do tempo viria estranhamente a transformar em Rei Momo (cuja versão mais conhecida por cá é a que o inefável Alberto João Jardim personifica a cada Carnaval), criticou Hefesto, o deus ferreiro criador da primeira mulher, Pandora, por não lhe ter aberto uma janela no peito para que se lhe pudesse espreitar o coração. Se os humanos tivessem uma janela perpetuamente aberta para os seus corações não haveria dissimulação. Estaria Momo a ser sarcástica?

Um soldado pode marchar torto, um gato parecer-se com um touro, um coração pode ser perfeito e bater descompassado – são coisas que se aprendem.

***

Nota: A propósito do título, sugiro que escutem esta versão.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. Orlando Sousa says:

    É por isso que quem vê caras não vê corações!

  2. Excelente, Carla Raimundo. O tum-tam ou o tum-tum ou até o puro soprar do coração ao ritmo de um pára-arranca, resulta do facto, penso eu, de o coração ter duas caras: a da máquina perfeita que inunda o corpo de sangue, e a outra cara, incorpórea, sede da alma, da inteligência, da sensibilidade, da coragem, da nobreza, do amor. Quando em sintonia, ouvimos (sentimos) o regular tum.tum dos ventriculos. Se em desacordo, sentimos o chocalhar líquido das aurículas, das válvulas desatinadas, ou do «bufar» viscoso da aorta. O meu cardiologista está de acordo. Por isso, receitou-me pastilhas, minhas companheiras de há dez anos.

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