A vitória da humildade e da abnegação


rui vinhas

As palavras menos simpáticas de Marco Chagas, comentador de ciclismo da RTP, para Gustavo Veloso, no final da Volta a Portugal em bicicleta, fazem-me recuar até 1981. Porque Marco Chagas sabe do que fala!

Tal como o galego, o homem de Pontével era unanimemente considerado o mais forte do pelotão, fruto de experiência no estrangeiro, Volta a França incluída. E também ele era o grande favorito a vencer, nesse ano, a Volta a Portugal, também ele era o chefe de fila da equipa de ponta do FC Porto, que já, por essa altura, dominava o pelotão.

Uma circunstância de corrida, daquelas que acontecem raramente, Manuel Zeferino viu-se com mais de 10 minutos de avanço, na frente (a seguir ao prólogo que Belmiro Silva, também do FCP, venceu), vestiu a camisola amarela em Vila Real de Santo António e não haveria de a despir mais até final.

Tendo tido a felicidade de acompanhar algumas das etapas dessa volta, com acesso privilegiado, por obra e graça do jornal “O Porto” e de Aníbal Fernando, o director da secção, ainda hoje recordo a postura de Marco Chagas relativamente ao “puto” Zeferino, incentivando-o sempre, lutando por ele, até à exaustão, mesmo que isso passasse por invectivar alguns mais afoitos da equipa que não geriram tão bem a circunstância de terem de trabalhar em função do mais bem classificado, um miúdo de 21 anos cuja constituição física e força assentavam bem às funções de “aguadeiro”. E se havia egos naquela equipa recheada de grandes ciclistas…

Nessa etapa gloriosa para Manuel Zeferino, a equipa fechou a porta do pelotão, cobriu a fuga e, até final, foi um festival azul-e-branco.

Sim, Marco Chagas não deu ordem de ataque nos últimos quilómetros, a fim de criar uma diferença menos substantiva, que lhe permitisse lutar pela vitória no contra-relógio, em que também era bom. Não: segurou as tropas, as próprias e as do inimigo, garantindo que, se tivesse pernas, o “Manel” teria todo o avanço do mundo. Gustavo Veloso fê-lo, tentando diminuir o avanço do colega, não obstante, depois disso, se ter comportado bem!

No final, o 8.º lugar de Marco Chagas reflecte exemplarmente como um líder é capaz de se sacrificar em prol da equipa. Por isso, mereceu bem ser vencedor das Voltas que se seguiram, não todas pelo FC Porto que, entretanto, iniciara o longo jejum de ciclismo que findou esta época. Mas haveriam de ser duas de azul-e-branco vestido!

Ora, se Marco Chagas foi capaz de sacrificar o ego em prol da equipa, ninguém melhor do que ele para zurzir o rosto fechado e o sorriso amarelo, quiçá a sobranceria, de Gustavo Veloso no final da Volta.

Claro que somos humanos, lutamos por nós, e seria compreensível uma certa frustração de Gustavo Veloso, mas, se alguém quis de facto vencer a Volta, mereceu a vitória e deu tudo (basta ver como acabava as etapas) para o conseguir, foi Rui Vinhas, superlativamente porque pôde dedicá-la ao filho que nasce no próximo mês, ou como diria a esposa, “foi um ano em cheio”.

Fica bem a Rui Vinhas a vitória. Fica bem ao público do ciclismo a forma como recebeu um vencedor do FC Porto em Lisboa. E, finalmente, fica bem a um português o regresso às vitórias na Volta.

Venceu o “humilde trabalhador” de equipa, que nunca se vangloriou, antes ousou para ter sorte. E que bem me fez ler isto no Correio da Manhã: “Rui Vinhas foi sempre um corredor de equipa, tímido e abnegado, um ‘gregário’ humilde, tão humilde como era o seu historial até conquistar hoje a 78.ª Volta a Portugal em bicicleta.   Natural de Sobrado, no concelho de Valongo, o corredor da W52-FC Porto é, segundo os seus companheiros de pedaladas, um atleta extremamente aplicado e rigoroso nos treinos, que cumpre faça chuva ou faça sol.   Reservado, mas amigo do seu amigo, o português, aos 29 anos, contava apenas a conquista do Grande Premio do Dão de 2015, no qual venceu pela primeira vez uma etapa, em Mangualde, e, mesmo então, dedicou-a à equipa”.

Foto: http://www.cmjornal.xl.pt

Comments

  1. Menção honrosa para o meu conterrâneo Daniel Silva que se bateu muito bem e que ficou logo atrás dos dois atletas do nosso Porto🙂

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