“Contate hoje mesmo!”

contateOntem, numa hora, para mim, matinal, saí de casa, a fim de tomar o primeiro café do dia. A minha única preocupação era saber que teria de disputar o jornal “da casa” com os quatro ou cinco reformados que passam por cada página com uma calma enervante, incluindo a necrologia e os anúncios das meninas que prometem dar vida a mortos. Ao passar pela caixa de correio, verifiquei que já lá estava o habitual prospecto de uma imobiliária. Na frente e no verso, podia ler-se “Contate [sic] hoje mesmo!”, como poderão confirmar na imagem que simpaticamente compartilho. A urgência do primeiro café tornou-se ainda mais urgente. É nestes momentos que admiro a fleuma do Francisco Miguel Valada, que consegue manter a elegância mesmo quando recolhe amostras de fatos e de contatos.

Como é que o verbo contatar  e o nome contato entraram pelos prospectos do nosso país? Façamos, à imitação de outros muito mais sabedores, um resumo da história do chamado acordo ortográfico (AO90). O AO90 foi criado porque, na opinião (ou nas declarações) dos seus autores, era preciso, necessário, fundamental, imprescindível criar uma ortografia única no universo dos países lusófonos. Resultado: muitos desses países ainda não adoptaram o AO90 e entre os países que o adoptaram continua a não haver uma ortografia única ou deixou mesmo de haver ortografia. [Read more…]

A reeucaliptização da banca

reucaliptização

Existem enormes paralelismos entre um eucaliptal e a banca. Desde logo, ambos secam tudo à sua volta, a água no primeiro caso, o dinheiro dos portugueses no segundo. Registam o pico de ocorrências no calor da época veraneante de Agosto, como se constata com o incêndio do BES, a 3 de Agosto de 2014, e com as labaredas à vista na CGD, a 25 de Agosto de 2016. E é quando tudo arde, na floresta e na banca, que se ouve o chamamento pelo salvamento público e se descobrem miríades de peritos com diagnósticos e soluções que, quando apenas sobram cinzas, logo caem em esquecimento. É ainda neste período de desgraça que se constata que aqueles com a responsabilidade para prevenirem a catástrofe não o fizeram, apesar dos sucessivos sinais de perigo. 
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Uma Terra, um Mar.

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“Que a Terra fosse toda uma. Que o Mar unisse, já não separasse”. (Fernando Pessoa)

O Dymaxion Map.

Viana, vaidosa e formosa

santaluzia2Chegamos a Viana já noite cerrada, com o plano de visitar a cidade durante o dia seguinte e à noite seguir para Braga, onde já temos hotel reservado. Manhã cedo, saímos para a rua e começamos a cirandar. E, cirandando, sem dar por isso vamos ficando enredados em cada esquina que percorremos. Mais e mais aprisionados, a rendição total ao encanto ocorre no início da tarde. Anulamos a reserva em Braga, procuramos um local de pernoita nos arredores (na cidade está tudo esgotado) e dedicamos os 3 dias livres de que dispomos a Viana do Castelo e arredores.

Tal como uma mulher, uma cidade “tem que ter qualquer coisa além de beleza”. Mas ao contrário do que diz o poeta, não deverá ser “qualquer coisa de triste”, mas sim uma coerência e um magnetismo próprios. [Read more…]

Postcards from the U.S. #9 (New York)

‘One, A, triangle, blue, Mom’, the young girl said or «We’ll have Manhattan…»*

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Diz-se que o melhor se guarda para o fim. Ou aconselha-se. Segui esse vago conselho e guardei o Central Park e o Guggenheim para o último dia em Nova Iorque. Ou seja, hoje. Embora amanhã ainda esteja aqui um bocadinho, não vou ter tempo para ver mais nada, a não ser o Empire State Building ali na esquina da 27 st East com a 5ª Avenida. Aliás, vi-o há pouco, iluminado, da esquina, pela última vez. Vinha a subir a 5ª Avenida, do Madison Square Park, mais exatamente do Eataly, que é capaz de ter sido o meu sítio favorito para jantar e para comprar comida. Se pudesse tinha provado tudo, mas aquilo é imenso e a comida e os produtos alimentares nunca mais acabam. Mas dizia eu que o melhor se costuma guardar para o final e que eu guardei para o final o Guggenheim e o Central Park. Passei o dia nestes dois sítios e se mais dia houvesse, mas tempo haveria passado, sobretudo no Central Park que é gigantesco e bonito e fresco e tinha o sol a brincar nas folhas das árvores, neste dia que foi de verão absoluto, incluindo um céu azul sem nuvens.
 
Saí do hotel não muito cedo, para apanhar o autocarro (M1, mas podia ter sido o M2 ou o M3) para o Upper East Side, onde fica, na 90ª st East com a 5ª Avenida, o museu. Apanhei o autocarro na Madison Avenue com a 30 st East. O autocarro demorou muito tempo a chegar à paragem e eu fui-me entretendo a ver as pessoas. Umas que trabalhavam, outras que, como eu, apenas passeavam. Pessoas de todas as cores e feitios e medidas, como se diz na canção do Sérgio Godinho ‘A Vida é feita de pequenos nadas’. Quando finamente o autocarro chegou, sentei-me porque a viagem era longa, atendendo ao trânsito que sempre há em Nova Iorque. Atrás de mim uma menina de uns 3 ou 4 anos brincava com a sua mãe. Esta perguntava-lhe ‘what’s your favorite number?’, ‘one’, respondia a criança. ‘What’s your favorite letter?’, ‘A’. ‘What’s your favorite form?’ ‘triangle’. ‘What’s your favorite color?’ ‘blue’. ‘What’s your favorite person?’… a criança gargalha mais e responde ‘you, Mom!’. Eu sorrio também, embora esteja de costas voltadas para elas.
 

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