Postcards from Canada #2


More than enough

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Amanheço cedo demais. Ainda não são 8 horas e já estou de olhos abertos. Bem sei que em Portugal é uma da tarde. O meu relógio biológico adaptou-se, parece-me, bem às cinco horas a menos. Depende sempre tudo da perspetiva, evidentemente, e talvez eu tenha amanhecido tarde, afinal.
Mas para o Canadá e para os meus hábitos – não considerando a diferença horária – amanheço cedo. Tomo um pequeno almoço que não sei qualificar muito bem. Não é que seja mau, mas é apenas estranho. Para os meus hábitos, uma vez mais. Saio do hotel em direção ao St. Lawrence Market, descendo a Jarvis Street para encontrar a Front Street East. Era bom que eu soubesse sempre os pontos cardeais, mas não sei. Creio que aqui isso me trará alguns dissabores. Hoje não. Está uma manhã gloriosa. Um céu absurdamente azul, um calor que promete aumentar bastante (e assim acontecerá). Entro no mercado e está fresco. É muito organizado. Tem de tudo, como geralmente têm os mercados. Flores (girassóis a 10 dólares!), carne, peixe, fruta, pão… Ando por ali até serem horas do autocarro turístico. Apanho-o e vou por Toronto fora, quase sempre de pescoço esticado e cabeça para trás. É imperativo andar de cabeça para trás em Toronto, tal o tamanho dos edifícios. Pareço uma provinciana – sou uma provinciana – a pasmar-me incessantemente com aquilo tudo.

O autocarro vai desde a baixa até à casa Loma. Faço a volta quase completa, em uma hora e meia… o meu objetivo é fazer o passeio de barco no lago Ontario, tão grande que parece o mar. Quando se chega ao porto, o calor é avassalador. Apanho o barco. E ainda bem que o fiz. As vistas de Toronto são impressionantes. O horizonte marcado pela CN Tower é de cortar a respiração. O barco faz uma viagem curta pelas ilhas. Em conjunto com a vista é o silêncio que mais impressiona. Um silêncio líquido. Uma tranquilidade absoluta. O barco é pequeno e descoberto. A brisa que corre e o cheiro fresco da água fazem o passeio ainda mais inesquecível. É verdade que tinha visto muitas fotografias de Toronto desde o lago, mas nenhuma faz justiça à paisagem magnífica e tranquila.
Quando chegamos ao porto novamente já passa das 14h. Penso que devia comer e sento-me numa esplanada (onde não se pode fumar). Como. Peço um expresso e não há. Não me surpreende. O café do pequeno almoço era horrível e estou a precisar de cafeína e de nicotina. Mas hei-de passar o resto da tarde sem café. Não sem cigarros, fumados quase sempre de pé e em andamento.
Decido ir a pé desde o porto até à CN Tower. Não é longe. Se não fosse o calor e as obras que parece haver em toda a parte na cidade, o passeio dar-se-ia bem. Assim, vou a suspirar e a transpirar até à torre, passando pelo Rogers Center, animadíssimo, com pessoas a apregoar bilhetes para um jogo – talvez importante – que acontecerá mais logo. Chego à entrada da torre. Uma fila gigantesca para comprar os bilhetes. Outra fila ainda maior para os elevadores que me hão-de – duas horas depois! – levar a mais de 350 metros de altura. As pernas doem-me muito, da espera, e talvez por isso não tenho vertigens no elevador de vidro, que sobe alucinantemente e chega ao topo em menos de 2 minutos. Lá em cima a vista é alucinante, também ela. No entanto, talvez da longuíssima espera, não fico convencida que a vista valha os quase 40 dólares que paguei e as duas horas que esperei. Fico por ali a ver Toronto cá de cima. A CN Tower tem 533,33 metros de altura e abriu em 1976, alterando radicalmente o horizonte e o modo de ver(mos) Toronto.
Reconheço a maravilha e desço à terra, não sem antes espreitar o chão de vidro e o terraço ao ar livre, onde se sentem ventos fortes e refrescantes. Já cá em baixo, novamente cheia de calor, compro uma garrafa de água e sento-me a fumar um cigarro. Com isto tudo são 6 da tarde em Toronto. 11 da noite em Portugal. Apanho o autocarro turístico outra vez, em frente ao Rogers Center para onde afluem centenas de adeptos vestidos de azul. Saio no St. Lawrence Market, já fechado, e refaço o caminho até ao hotel. Descalço-me. Agradeço aos céus pelo ar condicionado do quarto. Ligo o Skype e falo com quem está longe, antes do (meu) jantar. O mundo parece pequeno, como dizem. Está agora à distância de um dedo numa tecla num computador ou num telemóvel. O mundo parece pequeno, o meu pequeno mundo lá longe, do outro lado do mar. O mundo parece pequeno mas tem tantos mundos dentro, e arranha-céus e torres muito altas. Isso é mais que suficiente. Ou deveria ser. Para termos a noção da nossa pequenez e a dimensão de que só contamos para quem gosta de nós. Isso é também mais que suficiente para uma vida inteira. Haver quem goste de nós, mesmo se, por instantes, do outro lado do mar.

Comments

  1. Já que está na baixa se tiver tempo visite o AGO (Art Gallery of Ontario) a parte nova é de Frank Gehry que é natural dessa zona da cidade, refresque-se junto Toronto City Hall e aproveite para ver arquitetura do finlandês Revell na atual câmara, a velhinha está ao lado no edifício de tijolo cor de vinho, ao lado do centro comercial Eaton tem a maior livraria da cidade cujo o nome está bem a destacado na fachada. É um excelente passeio a zona entre o parlamento de Ontario e a universidade de toronto, uma zona muito british no seu estilo arquitetónico e ordenamento urbano.

    • Sim, estava a pensar ir à AGO amanhã, que não tenho sessões no congresso. Estou agora muito perto (a dois passos literalmente do Eaton e ontem já passei na universidade de Toronto e redondezas, com o seu estilo muito britânico. Obrigada pelas dicas!

  2. fleitao says:

    Imagine que moro mesmo atrás do St Lawrence Market, onde todos os dias vou tomar a bica. Adivinhasse eu que ontem estaria ali uma turista portuguesa, uma compatriot, e com que gosto eu faria as honras da casa. Casa que, por sinal, tem uma churrasqueira portuguesa, E no porto, depois do barco, havia de levá-la a comer num mutio agradável e bem servido restaurante, o Pearl, que tem toda juma parede em vidro, mesmo por cima da água.. Desejo-lhe uma excelente estadia e uma boa viagem.

    • Olá fleitao eu estou alojada também muito perto do mercado e sabia da existência da churrascaria portuguesa🙂 Obrigada pelos votos. Antes de regressar a Portugal ainda vou passear um pouco por este lado do mundo.

  3. Joe Baptista says:

    Gostei. Quanto aos pontos cardeais use o GPS no telefone, deixará de ser provinciana.

    • Não era à falta de sentido de orientação que me referia quando me auto-denominei provinciana… e de qualquer modo para o GPS do meu telefone funcionar preciso de estar ligada à internet… e aqui isso é um pouco difícil, na rua.🙂

  4. fleitao says:

    Se precisar de alguma coisa, ligue para 416-9419903

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