Postcards from the U.S. #3 (New York)


The truth and nothing but…

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… about New York é que tudo parece familiar. Demasiados filmes do Woody Allen (entre outros), é o que é. Ontem à noite estava demasiado cansada para escrever o postal. Andei bastante, embora não tenha saído praticamente da 5ª Avenida, entre a 27 st e a 52 st., com uma incursão a Bryant Park e à Times Square. Vi, portanto bastantes das atrações mais populares de Nova Iorque. Resolvi despachar o folclore no primeiro dia: o Empire State Building, o Top of the Rock, a Times Square e, menos folclore, a NY Public Library e a Igreja de St. Patrick.
 
Saio do hotel, quase na esquina da 27 st com a 5ª Avenida – uma localização perfeita, limpo, confortável, arejado – para me dirigir primeiro ao Empire State Building que vejo mal dobro esquina. O edifício é imponente. As filas também. Mas compensa tudo quando se chega ao topo. A vista é sublime. Hei-de regressar depois das 11 da noite e é como nos filmes: quase esperamos ver um pedido de casamento ou um reencontro romântico entre dois amantes desencontrados. A lua quase quase cheia ajuda a criar o cenário. É sublime. Tenho pena que as fotografias noturnas – ainda tenho de aprender a mexer melhor na máquina – não façam jus ao que os olhos vêem.

 
Do Empire State, subo a 5ª Avenida até outro edifício mítico: a New York Public Library. Faço a visita guiada pela Carol, uma apaixonada pela biblioteca e acho tudo maravilhoso. As salas que vemos, pelo menos. Infelizmente a sala principal, aquela dos filmes, a Rose Main Reading Room, está temporariamente encerrada para restauro dos tetos. Fico bastante desapontada, mas a Carol com a sua incrível paixão e energia depressa me faz esquecer o assunto. Quando saio da biblioteca, duas horas mais tarde, viro para Bryant Park, nas traseiras da NYPL. Sento-me um bocadinho a ver as pessoas. Depois dirijo-me vagarosamente para a Times Square.
 
To tell you the truth and nothing but… odiei Times Square e não penso lá voltar. Não é o meu género de folclore. Demasiada gente, demasiadas atrações. Demasiada confusão. Aquilo fere-me os olhos, aliás, os sentidos todos. Acho que não voltarei lá, a menos que seja do topo do autocarro turístico – que tenho de ir apanhar daqui a pouco. A verdade é mesmo que a Times Square – apesar de haver tantos filmes onde aparece – não é o meu tipo de atração preferida. Desconfio que quando (e se) perder algum tempo, ali mesmo ao lado, na Broadway, vou sentir o mesmo. Too much.
 
Atravesso a confusão de Times Square e dirijo-me para o Rockfeller Center. Não é longe mas doem-me bastante os pés. Entro no edifício na porta em frente ao Radio City e lá vou eu. Há menos gente que no Empire State. A vista é igualmente genial. Ou melhor, é mais genial ainda, dado que vemos o próprio Empire State Building. Lindo, de facto. Estou por ali um bom bocado a apreciar aquela imensidão de prédios enormes. A apreciar Manhatan e a sentir familiaridade. Quando saio, saio para a 5ª Avenida e para a escultura que tão bem caracteriza o edifício – Atlas – gigantesca e imponente. Está mais calor agora do que de manhã. Deve ser da concentração da poluição. Sim, a verdade acerca de Nova Iorque é que também cheira muito mal. À noite o lixo acumula-se em grandes montanhas e não é, digamos, agradável. Mas agora, apesar do calor estou em frente a um dos edifícios mais bonitos da Grande Maçã: a igreja de St. Patrick, branca e rendilhada, como uma nota de fragilidade no meio de todo o betão, de todo o aço. Ali está ela, esta nota de fragilidade e também de humanidade, delicada e bonita, como são muitas igrejas, sejamos crentes ou não. Eu gosto de igrejas, já o disse muitas vezes.
 
Resolvo a seguir que estou demasiado cansada para refazer o caminho até ao hotel e apanho um autocarro que me deixa na esquina da 29 st com a 5ª Avenida. A verdade acerca de Nova Iorque é também que extremamente fácil não nos perdermos. As ruas numeradas, cortadas pelas grandes avenidas, também numeradas, fazem com que qualquer despistado (como eu) pareça um habitante local. Nada que enganar. Gosto disto. À noite, como já disse, voltei ao Empire State Building. Comi, como tenho comido desde que estou nos Estados Unidos, uma coisa sem história. Jantar fora pode ser caríssimo, deve dizer-se. Portanto, come-se num dos muitos cafés e similares que por aqui existem. Comi melancia, não era muito boa, disso lembro-me.
 
Quando regresso do Empire State Building, as ruas estão muito menos povoadas. Já passa da meia noite. Cinco da manhã em Portugal. O lixo acumula-se – como já vos disse – em grandes montanhas à beira dos passeios. Viro na rua do hotel e está um sem abrigo, do outro lado, a dormir, sob a guarita de um chapéu de chuva a que faltam varetas. Mesmo ao lado, numas escadas, um casal jovem beija-se apaixonadamente. Eu fumo o ultimo cigarro do dia. E meto-me para dentro, ao som da voz suave de Dinah Washington que pergunta: ‘I am too late, to make amends?’*
 
* Uma versão de ‘I let a song go out of my heart’, pela mesma Dinah Washington, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=g5IggtswH_g

Comments

  1. Muito obrigado !!!

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