Postcards from the U.S. #4 (New York)


‘It was like a mountain falling on us’… or… where were you on 9/11?

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Visitei hoje o Memorial e o Museu do 11 de setembro. Passam, daqui a menos de um mês, 15 anos sobre os acontecimentos terríveis que o originaram. Independentemente do que podermos pensar sobre a política americana, sobre o modo como os Estados Unidos fazem política, penso que concordamos todos que os acontecimentos foram isso mesmo: terríveis. Lembro-me perfeitamente onde estava no momento em que as ‘torres gêmeas’ foram atacadas, com quem estava e o que estava a fazer. Lembro-me de ver as torres serem atacadas, de as ver cair. Provavelmente lembramos-nos todos. Não foi apenas o skyline de Nova Iorque que mudou, mas a paisagem de cada um de nós, suponho (sim, sei bem o que se pode dizer sobre outras paisagens e outros horizontes e estou de acordo com isso, mas não é disso que quero falar agora, neste momento em que escrevo este postal, à uma da manhã, no meu quarto de hotel, no coração de Manhatan).
 
O memorial é extraordinariamente comovente, com as duas ‘piscinas’ no lugar das torres, com as suas cascatas cujas águas se escoam para um buraco quadrado bem no centro de cada uma, como se escoaram as vidas dos milhares de pessoas que morreram naquele dia. Lembro-me das pessoas a voarem sem serem pássaros. E do desespero que tal deve ter representado para cada uma delas. Como Sylvia Pio Resta e o seu filho por nascer. Ou como Charles Vandevander. Ou Elsy Carolina Osorio. Podia continuar infinitamente. Como continuam os nomes inscritos no memorial. Infinitamente. Em alguns desses nomes há rosas brancas e é comovente. Tão comovente como a carta que George escreveu apressadamente à sua mulher e aos seus filhos, momentos antes de morrer na torre sul. ‘I always loved you, Barbara, and you, kids, be good and do always good things’.

 
É impossível não ficar com um nó na garganta e com lágrimas nos olhos. Por muito que, repito, critiquemos a maneira de fazer política dos Estados Unidos, estas pessoas e os seus filhos nascidos e por nascer fazem falta às pessoas que os amavam. Provavelmente ainda amam. As rosas brancas que o digam. Os mortos, os nossos mortos, nunca acabam de morrer (acho que foi o Ruy Belo que escreveu qualquer coisa como isto, não me apetece ir confirmar agora). De maneira que no museu do memorial do 9/11 tive o meu momento piegas, o único até agora, desta viagem. ‘It was like a mountain falling on us’. De muitas maneiras.
 
Umas horas antes tinha saído do hotel, comprado selos no posto de correios aqui em frente e a seguir apanhado o autocarro turístico na esquina da 32 st com a 5ª Avenida. Saí em Battery Park, muito perto do Financial District. O Charging Bull estava no auge da sua hora de ponta, com pessoas a pegaram-lhe pelos cornos e, basicamente a agarrarem o touro em partes que, enfim… a decência me impede de mencionar. No meu espírito de turista, go with the flow, agarrei-me a um chifre e pedi que me tirassem uma fotografia. Ficou menos mal. Depois de andar por ali um bocado, voltei a apanhar o autocarro turístico para o South ferry port. A ponte de Brooklyn, que hei-de percorrer, antes de me ir embora, espero, ali estava, majestosa.
 
Apanho o barco. Deve ter sido a melhor coisa que fiz, até agora. O passeio é sublime. As vistas sobre o skyline de Manhatan e de New Jersey e da Estátua da Liberdade são magníficas. Absolutamente cinematográficas. O céu sobre a cidade estava perfeito, ora azul, ora cinzento, com as nuvens bem desenhadas como se por um pintor de céus. O ponto onde os rios East e Hudson se encontram oferece a oportunidade de fotografias surreais. Oxalá eu fosse melhor fotógrafa. Oxalá tivesse uma máquina melhor. Oxalá pudesse ter esta vista para sempre e não precisasse nunca de a fotografar, para me lembrar mais tarde.
 
A ‘Lady Liberty’ é mais pequena do que eu imaginava. O barco não parava na Liberty Island (nem na Ellis Island), por isso não a vi de perto, à senhora Liberdade. Outro dia lá irei, tenho outra viagem de barco para gastar e há os ferrys gratuitos, mais a mais. É mais pequena, a Liberdade, mas nem por isso menos bonita. Tem a beleza que eu imaginava. Lembra-me filmes belíssimos, como (quase) tudo o que vi até agora em Nova Iorque. O passeio de barco dura (para mim) mais de hora e meia. Saio por volta das 3 e meia no cais mais próximo do memorial do 11 de setembro e lembro-me que ainda não almocei. Almoço, por isso, num Diner chamado Parma, com pretensões de italiano. A comida é sofrível, sobretudo para o preço que custa, mas a cerveja sabe bem, de tão fresca.
 
Quando acabo de almoçar já passa bastante das quatro da tarde. Caminho até Greenwich st, onde fica o memorial do 11 de setembro. Fico ali muito tempo a contemplar a água, as rosas brancas, os nomes inscritos na pedra. Para que não se esqueçam. Depois entro no museu. Um silêncio grande. Já conhecemos este silêncio de outros locais onde é o luto que tinge tudo, mesmo se aqueles que morreram não nos são nada, apenas gente como nós. Já escrevi ali em cima que me emocionei no museu. Sou lamechas, é verdade. Creio que ainda bem.
 
Ainda volto, quando saio do museu, ao memorial para ver a única árvore que sobreviveu. Ali está ela, um grito verde, rodeada por uma pequena cerca que a distingue das demais. No resto parece-me ser como as demais. Tronco, folhas, raízes. Caminho depois bastante, ou o que me parece bastante, até Park Row, pela Broadway, para voltar a apanhar o autocarro turístico. Passa das seis da tarde. O autocarro deixa-me relativamente perto do hotel. Venho descansar um bocado até me apetecer jantar. Como outra vez no Eataly, onde comi antes de ontem. Come-se bem no Eataly e a oferta é grande. Há de tudo, se se gostar da comida e dos produtos italianos, para todos. Estou a ficar fã do Eataly. Quem me dera que alguém tivesse a gentileza de abrir um, mesmo ao pé da minha casa (de que tenho já algumas saudades).
 
Caminho devagar até ao hotel, depois de jantar. A lua cheia no céu de Manhatan é deslumbrante. No entanto, novamente, há pilhas de lixo nas ruas. Sem abrigo dormem nos bancos do Madison Square Park. É o que a luz da lua revela, para além da maravilha inicial. Mais à frente, quase no cruzamento com a 27 st. casais passeiam de mão dada. O cenário volta a ser perfeito. Um par abraça-se demoradamente em frente ao hotel. A rapariga entra e o rapaz vai, suponho, à sua vida. Eu, que não tenho ninguém a quem abraçar esta noite, fumo o último cigarro e entro também. No átrio, canta a Ella Fitzgerald, ‘Blue moon, you saw me standing alone…’*. Não podia ser mais apropriado. O mundo faz, afinal, sentido algumas vezes.
 
* uma versão, também pela Ella Fitzgerald, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=T3FFOju3VM0
 
(este postal vai dedicado ao Bruno que fez anos hoje e gosta de jazz e é meu amigo. Parabéns, miúdo, desde Nova Iorque)

Comments

  1. anónimo says:

    Fez agora anos. Os memoriais trazem à memória os maiores crimes contra a humanidade, Agosto de 1945, Hiroxima e Nagasaki, Little Boy e Fat Man, 300 mil vidas consumidas em dois clarões de energia. A tecnologia mais complexa e mais sofisticada, concebida pelo engenho humano, ao serviço da desumanidade.

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