Fernanda Leitão (1936-2017)


Fernanda LeitãoOs templários não morrem. Afastam-se.

Na passada quarta-feira,  no Hospital Toronto Western, a Fernanda afastou-se em paz, depois de 80 anos ricos de vida. Escrevia-nos as suas cartas e bilhetes do Canadá, com a sabedoria de quem passou por tanto e no seu jeito de quem está de bem com a vida. Foi jornalista e lutou contra a ditadura, antes e depois da revolução, primeiro na France Press, depois no jornal O Templário, do qual foi proprietária até ir para o Canadá. Pessoas como a Fernanda deixam verdadeiros vazios quando se vão. Descanse, Fernanda, teve uma vida admirável.

Deixamos-vos as crónicas da Fernanda no Aventar, que estão aqui, e o auto-retrato que nos ofereceu, pintado com as cores nas quais ela era mestra, as da Língua Portuguesa.

Nasci em Malanje, no Nordeste de Angola, numa família de classe média chefiada por um funcionário público. No início da década de 50 o meu pai reformou-se. Fomos viver em Tomar, onde havia o Colégio de Nun’Alvares, com perto de mil alunos, quase todos internos, muitos das colónias, um batalhão do Alentejo e Ribatejo. O director era o Dr. Raul Lopes, que ficou na lenda coimbrã como o Raul das Troupes. Governava um bocado à chapada, era ditador, mas ao mesmo tempo havia um ar de rebalderia naquela malta toda. Eu teria preferido outro colégio, mas na verdade ali fiz amigos para a vida. Os rapazes do meu tempo cantavam fado e pegavam toiros. Ficavam ofendidos se alguém lhes oferecia leite ou iogurte. Todos de barba rija, como manda o figurino.

No 7º ano adoeci e, para repetir depois, passei uns meses em Coimbra, em casa duma família alentejana que tinha uma filha em Medicina. Mas eu não queria ficar ali. Conhecia bem Lisboa, gostava de Lisboa, e foi ali que fiz a admissão a Medicina, onde estive perto de três anos. Em 1962 entrei na greve nacional de estudantes e morreu a minha mãe. Logo de seguida morreu o meu pai. Adeus, curso. Eu já estava a trabalhar, dava lições a meninos mais atrasados num colégio e mantinha uma Agência Literária, propriedade de exilados espanhóis residentes em New York, que me tinha sido passada pela poetisa angolana Alada Lara ao terminar a sua licenciatura em Medicina. Ganhava menos mal, mas não chegava para me bastar a mim mesma. Uma amiga estrangeira arranjou-me lugar na France Presse, onde estive uns anos, dividida entre Lisboa e Paris, com umas vadiagens europeias pelo meio. Um dia, alguém da FP denunciou-me e a PIDE foi buscar-me a casa ao amanhecer. Estive lá dia e meio, na Rua António Maria Cardoso, interrogada por um bandido chamado Rodrigues. Fiquei para não viver quando, no 25 de Abril, a pedido de uma revista de Angola, fui a Caxias fazer uma reportagem e entrei na cela onde ele estava. Essa denúncia desgostou-me muito. Fui trabalhar para uma editora e comecei a pensar em largar o jornalismo, embora tivesse pena de deitar fora o que aprendi na FP, num tempo em que em Portugal não havia cursos de jornalismo.

Estava nisto quando uma médica de Angola, do meu tempo de curso, me telefonou nestes termos: O Botas está na Cruz Vermelha, caiu duma cadeira e partiu os cornos. O prognóstico é muito sério. Dali a pouco tempo, uns rapazes dum sindicato vieram ter comigo para eu abrir um gabinete de Relações Públicas lá na chafarica deles. Aceitei. Foi giro, porque além de acompanhar algumas reuniões na contratação colectiva e outras, tinha de fazer um boletim mensal, inventar coisas para os tempos livres dos trabalhadores, etc. Em 1974, depois do golpe de estado, fui saneada pelo José Luís Judas em pessoa, então do PCP. Meti processo contra eles no Tribunal de Trabalho e andei um ano a ver a revolução, ia a tudo. Nas primeiras eleições, depois de ter votado pela primeira vez, tive o desgosto de ver uns tipos na RTP, à noite, a dizerem que o povo tinha votado mal, era ignorante e estúpido. Pensei num relâmpago: não aceitam o resultado das eleições, vão tomar o poder pela força, vamos ter outra ditadura. Ao amanhecer meti-me no comboio e fui para Tomar, aterrei num café, telefonei para um advogado do meu tempo que tinha um semanário que foi sempre contra o regime anterior, ele veio ter comigo, lisamente disse-lhe ao que vinha, comprei o jornal com as economias que tinha. À hora do almoço fui apresentar-me à tipografia, que era numa aldeia à cause des mouches. No dia 1 de Maio de 1975, assumi a direcção do Templário, que fazia 5 mil exemplares por semana. E comecei a partir a loiça. Em Julho, estava a fazer 60 mil exemplares, e havia fotocópias a granel pelo país. Tinha uma equipa de rapazes novos e colaboradores de todas as idades e feitios. A consigna era: aqui não há fascistas nem gente do PCP. Cheguei ao fim da briga com 150 processos por abuso de liberdade de imprensa. Dizia-se por laracha nos cafés de Lisboa que em Portugal havia quatro homens de saias: a Natália Correia, a Vera Lagoa, a Fernanda Leitão e o Bispo do Porto (referiam-se ao D. António Ferreira Gomes, o primeiro a dar o grito contra outra ditadura). Depois começou o boicote bancário, o boicote publicitário, as bocas contra mim, insinuando que eu era pró-salazarista, etc. Muitas dessas bocas vieram da direita. Como a lei me obrigava a pagar uma soma substancial por cada processo, para ter o privilégio de esperar em liberdade, a que devia acrescentar advogado e deslocação de testemunhas, decidi expatriar-me. Cheguei ao Canadá em 1983.

Agora, estou reformada e vou à fisioterapia sem ter nada partido. A inevitável artrite dos 80 anos, a fazer em Agosto. Não me queixo, não quero mal a ninguém, nem mesmo ao sindicato-patrão que, tendo eu ganho na primeira instância o direito à reintegração e indemnização, apelou para a Relação, para o Supremo, para a então Comissão Constitucional, e perdeu sempre, durante 26 anos, mas nunca cumpriu a sentença. Que Deus lhes perdoe. Tenho um ilimitado amor a Portugal e à liberdade. E sofro com o que aí se passa. Não tenho rendimentos que me permitam viver em Portugal, mas hei-de voltar numa caixinha e ficarei em Tomar.

Sou, naturalmente, bem disposta, gosto de rir, gosto de malta nova, de patuscadas. Os meus amigos mais chegados, aqui, são novos. E tenho amigos de várias nacionalidades. Os amigos são a minha única fortuna. E agora, como é que eu conheci o AVENTAR. Há 2 ou 3 anos, recebi aqui um e-mail aflito, de uma senhora de Tomar: o filho duma amiga dela tinha sido encontrado morto numa pensão de Toronto, o rapaz estava ilegal, a família sem meios para o funeral. O consulado, lavou as mãos. A secretaria de estado das Comunidades, lavou as mãos. O Relvas, que era então presidente da Assembleia Municipal, lavou as mãos. Resolvi o caso à minha maneira: chamei a maralha e fizemos um peditório, ao mesmo tempo que conseguia do consulado pressa no processo de embarque do corpo. O rapaz era diabético, tinha sido despedido do café onde trabalhava, não tinha dinheiro para medicamentos, entrou em coma, sozinho, sucumbiu. O funeral foi em Tomar, com toda a dignidade. A tal senhora ficou em contacto comigo e um dia disse-me que gostava muito dum blog chamado AVENTAR. Fui ver dele e também gostei. Um dia, por alguma coisa que lá vi escrito e que já nem me lembro o que era, fiz uma resposta e respondeu-me o João José, sugerindo que mandasse mais. Foi assim. Fiquei muito chocada com a morte dele. Só posso estar grata pela sua gentileza, pela vossa gentileza.”

Fernanda Leitão, Fevereiro de 2016

Comments

  1. Profundamente comovido…

  2. jose vilar says:

    Extraordinario sentido épico aqui postado, digno dos maiores louvores, para quem fez da vida uma dádiva de amor para com o próximo e tão pouco recebeu em troca.
    Obrigado a autora da descrição de tao bela prosa digna de ser reconhecida por ainda se considera humanista nesta Patria que devia ser justa para quem tanto deu.

  3. Estou triste, vou sentir falta dos seus posts.

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