Fernanda


Fernanda Leitão

Escrevo isto para si, Fernanda, embora as traidoras das palavras não sejam mais que uma roupagem pobre e tosca para aquilo que nos ultrapassa, como é a morte. Vou pois usá-las parcamente. E escrevo com revolta, no fundo da tristeza, porque nunca hei-de aceitar o absurdo. Contei-lhe que Camus é o filósofo que pôs em palavras o que eu não consigo.

Conheci as suas Cartas do Canadá no Aventar, há nem dois anos. Uma escrita deliciosa e um pensamento simultaneamente fundo e livre, experiente e leve.

Foi em Maio de 2016 que a Fernanda me enviou, através do Jorge, uns links de publicações contra os acordos de “comércio livre”, sobre os quais eu andava sempre a martelar no blog. Eu agradeci-lhe e começámos a escrever-nos, à parte do grupo. Nem a um ano chegou, o tempo em que estivemos ligadas por essa comunicação limitada, mas marcada, de imediato, por uma afinidade forte e profunda.

Foi, por um lado, a sua generosidade incondicional, quando, após saber dos acordos, deu todo o apoio possível, enviando informação, disponibilizando os seus contactos com jornalistas ou gente conhecida, divulgando a petição e textos, surpreendendo-me até com uma contribuição para a Plataforma. E por outro, sempre, sempre, uma palmadinha nas costas, um vá em frente Ana, um ânimo e um carinho que me vão faltar muito, Fernanda. Bem como a sua esperança, a sua força apesar da dureza da sua vida, o seu espírito aberto e atento, o seu modo despretensioso, o seu conhecimento dos lugares e dos acontecimentos, o seu olhar acima de si própria mas sempre ao nível do próximo, o seu sorriso – que nunca vi, mas muitas vezes senti – e a sua graça.

Fernanda, não sabe o quanto a senti solidária e superior.

Partilhámos também coisas pessoais do momento, com alguma cerimónia, e num dos últimos emails recomendei-lhe o filme “Amanhã”. Disse-me que não o conseguia obter aí, mas que talvez o filme aparecesse no Festival Internacional de Cinema, no próximo ano, e que estaria atenta. Pensei ainda em enviar-lhe o DVD, mas deixei passar. Quanto me arrependo, Fernanda.

Fernanda, escreveu-me uma vez “Gostaria de ver Portugal no caminho certo, a salvo, antes de partir. Para o bem e para o mal, é a paixão da minha vida.”

Não sei Fernanda, se Portugal está no caminho certo, acho que está melhor do que já esteve, e sei que a Fernanda também pensava isso. Mas o que sei, é que é uma vergonha que este Portugal, ao qual a Fernanda tanto se dedicou e que tanto amou, não tenha tornado possível que a Fernanda nele tivesse vivido os seus últimos anos. Não sei de quem é a culpa, mas há culpados. E, neste momento, é só a lembrança da sua generosidade, Fernanda, que me dá força para olhar em frente e continuar a lutar pela justiça, mesmo desacreditando que ela é possível.

Sei que seria essa a sua vontade.

Comments

  1. José Galhoz says:

    Habituei-me a seguir os ‘posts’ de ‘Cartas do Canadá’ assinadas por ‘fleitão’. Não fazia ideia de quem era mas gostei de saber agora algo sobre a pessoa, embora não deixe de sentir a sua falta.

  2. Ana, que belíssima homenagem. Obrigada.

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