Legendas


A legendagem de filmes – primeiro – e das emissões televisivas – depois- foi uma das raríssimas heranças positivas dos tempos “da outra senhora”. Não que a ditadura tivesse preocupações com a integridade da criação artística, como acontece hoje connosco. Longe disso. A verdade é que a legendagem funcionava – independentemente da sua qualidade – como uma última barreira de censura.

A primeira era a proibição pura e simples, a segunda os cortes – por vezes brutais – e, finalmente, a legendagem. A dois níveis: um primeiro, a adulteração das falas, um segundo decorrente da simples dificuldade, ou impossibilidade, da sua leitura dada a baixíssima literacia da maioria da população. As coisas melhoraram muito depois da queda da ditadura e chegaram a elevados níveis na qualidade de tradução.

Assim, Portugal foi um dos países que se livraram da insuportável praga das dobragens, mantendo-as apenas onde elas se mostram adequadas – material infantil, documentários e pouco mais. Aqui, a criação dos artistas mostra-se na sua plenitude. Com o advento dos DVD e outros suportes digitais, passamos a poder ter o melhor de dois mundos.

Entretanto, subterraneamente, a combativa iliteracia fazia o seu trabalho de sapa por outras vias. (Que os cursos de Letras eram inúteis, que o importante era a empregabilidade imediata, que os saberes que interessam são os obviamente úteis, que a língua mais importante era o inglês em versão analfabeta – dita basic – que a cultura era um luxo de ociosos).

O resultado está à vista. Esmagada por uma avalancha de “conteúdos” das mais diversas origens, a televisão e o cinema vão caindo numa cada vez maior indigência no que diz respeito à legendagem de todos estes materiais. E, para poupar dinheiro, contrata-se quem calha, sem cuidar de qualificações. O resultado, por vezes, é de ir às lágrimas; de riso e de tristeza. Há pouco, espreitando um debate no programa GPS – de Fareed Zakaria, da CNN – vi a palavra “mendacity” – falta de honestidade, tendência para a mentira, hipocrisia – traduzida por mendicidade! O resultado que tal asneira teve na percepção do discurso da oradora foi radical. E nós ficámos sem saber se rir, se chorar. Mas já não ficamos admirados. Estamos habituados a ver disto, constantemente, nos noticiários.

(Está bem, está bem, eu sei que há alguns exemplos patuscos e inofensivos; lembro-me, entre outras, de uma cena: num filme cujo nome se me varreu, um casal romântico, sentado a uma mesa em cenário que não o era menos: o homem, erguia a taça de champanhe e, com ar dengoso, declarava à sua amada – “let’s make a toast!”. Tradução: “façamos uma tosta!”. É verdade, tem piada, mas não são estas que nos preocupam…)

Comments

  1. magalhaesnascimento says:

    As legendas da série “Vikings” traduzem “Thing” (assembleia de homens livres) por “coisa”. A qualidade das traduções é, neste momento, péssima. Os duplos sentidos de algumas expressões perdem-se em traduções literais. Paulatinamente tenho abandonado as legendas…( no caso do netflix o nível ainda é pior do que a média).

  2. Numa legendagem o fulano escrevia “século IXX” quando se referia ao século dezanove.

  3. Ironicamente, a pobreza de meios da televisão portuguesa acaba por ter consequências positivas: a legendagem, mais barata do que a dobragem, permite-nos desenvolver o domínio da língua (quase só inglesa, claro), além de propiciar acesso às vozes originais dos actores.

  4. Seria bom que quem de direito fizesse algo para obrigar a melhorar as traduções. Defendo que as dobragens afastam as crianças/jovens da leitura e do convívio com os sons da língua inglesa. Esse convívio, faz com que os portugueses falem muito bem o inglês. Já em Espanha é simplesmente horrível ouvir um espanhol a falar inglês. Acho que deveríamos abandonar as dobragens, que na maior parte das vezes não têm o mesmo enfase, a mesma graça que as vozes e expressões do actor original. Alem de que acaba por fartar ver diversos personagens a expressarem-se com a voz, “tiques” e riso do João Baião, por exemplo. (nada contra ele- apenas a servir de exemplo).

  5. manuel.m says:

    Raramente vejo televisão Portuguesa e raramente tenho paciencia para ir lendo as legendas ao mesmo tempo que ouço o diálogo. Mas mesmo assim coleccionei algumas “pérolas” da tradução. Vejam esta:
    No filme a policia Inglesa procura uma carro roubado envolvido num crime. Diz pela rádio um dos agentes da autoridade: Procurem um “Red Cavalier !” (Cavalier é um dos modelos da Vauxhall). Tradução : “Procurem um cavaleiro vermelho !”
    Muito perplexos devem ter ficado os espectadores Portugueses com a aparição desse tal “Cavaleiro” na história !

    • Há traduções que nem o tradutor do google consegue fazer pior :
      “College Facilities” – facilidades do colégio
      “Police officer”- oficial da policia
      “Power plant” – planta do poder
      “train engineer” – engenheiro do comboio
      “fuck you” – vai-te lixar

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s