As notícias e as coisas


As notícias das sarjetas televisivas centraram-se, sobretudo, na busca dos lugares onde não havia bombeiros. “Está aqui o corpo de uma mulher”, zurra uma, “então os bombeiros não lhe ligam nada, não vem cá nenhum?”, relincha outro, “a culpa foi dos bombeiros?”, grunhe outro, “não acha que o primeiro ministro é que devia estar aqui? e o presidente?”, ladra o seguinte. Vamos ligar aos estúdios. Lá, além dos cachorros de regaço habituais, que destilam as segregações opinativas do costume, falam – raras – pessoas que ganharam a legitimidade de quem há muito propõe soluções pertinentes. Volta ao terreno.

Parece que há centenas de bombeiros no terreno, pelo que é cada vez mais difícil aos repórteres encontrar sítios onde não estejam bombeiros, para poderem proclamar que não estão lá bombeiros, sim, onde estão os bombeiros? “A senhora não se sente abandonada?”, guincha o do microfone.

Começam a passar imagens de arquivo, repetindo cenas já dadas e baralhando completamente a percepção da linha temporal dos acontecimentos. Continua a não haver bombeiros. Ouvem-se “personalidades”. Mas não havia bombeiros em lado nenhum, pelo que se pode concluir que os repórteres é que são o heróis destes acontecimentos. Pois se não há imagens de bombeiros em acção, só há sítios onde não há bombeiros…

E o que resta? As informações oficiais por quem as deve dar – vá lá..; alguns – poucos – homens de ciência que sabem do que estão a falar; comentadores que não sabem do que falam mas sabem quem lhes paga; padecentes de narcisismo labrego que se pavoneiam como se fossem os protagonistas; vítimas uma tragédia que são tratadas como personagens de reality-shows.

Entretanto, o INEM faz o seu trabalho. Na Medicina Legal, nos Centros de Saúde, nos Hospitais, médicos e técnicos de saúde dedicam-se – competente e sofridamente, tenho a certeza – à sua penosa missão. Nas suas mãos, a morte irremediável e a vida que se pode salvar. Mas isso que interessa aos garbosos “jornalistas”? Tanto como os bombeiros – que, não sei se já vos disse, não se encontravam em lado nenhum -, isto é, quase nada.

Ou talvez eu esteja a ser injusto. Talvez estejam só a fazer o que os patrões lhes mandam. É que o emprego está tão difícil e é tão fácil despedir…

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Infelizmente, este é o retrato do “mau” jornalismo que grassa sobretudo nos nossos canais de televisão, ávidos da notícia-espectáculo e do sensacionalismo. Prevalece sempre o princípio de que o que interessa é procurar “o homem que mordeu o cão”.

    Salientam o facto de haver uma aldeia que perdeu metade da população. O facto de essa aldeia ter apenas 30 habitantes é irrelevante. Mas essa será, talvez, uma das raízes do problema.

    • carlamccordeiro says:

      Traduzindo o seu comentário, Fernando: “Ó pá! Ess@ safad@s d@s jornalistas atreveram-se a noticiar, nestes tempos da gloriosa geringonça, que morreram, queimados, por não terem obtido auxílio das autoridades competentes, uns tantos habitantes de uma terreola com apenas 30 pessoas e que nem sequer era Lesboa…”

  2. Miséria, mais miséria…
    Onde estão os Homens e Mulheres de bom senso?

  3. anti pafioso. says:

    Infelismente os precários aprendem com os diretores de informação . E como diz o emprego é dificil e despedir é facíl .Possivelmente arranjar trabalho é mais facil ,

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