Daniel Sanches, o SIRESP e a SLN


É um clássico do bloco central. Um tipo está numa determinada empresa, vai parar a uma posição-chave num determinado governo, adjudica um determinado serviço à empresa onde trabalhou e regressa à mesma empresa, como se nada fosse. Mais tarde descobre-se que se pagou demais por esse serviço, que os contribuintes foram prejudicados, tresanda a promiscuidade e tráfico de influências por todo o lado, anunciam-se corajosas investigações, mas o Ministério Pública decide arquivar. E o nível de tolerância da sociedade portuguesa para com estes casos, ao contrário de outros parceiros europeus com quem tantos nos gostam de comparar quando convém, é quase absoluto. A dança de cadeiras, o centrão de “intercâmbio” de interesses e a plataforma de negócios parlamentar são implacáveis, esteja quem estiver no poder.

Existem inúmeras personalidades políticas directa ou indirectamente ligadas ao caso SIRESP: Oliveira e Costa, Dias Loureiro, António Costa, Lacerda Machado, António Guterres, Santana Lopes, Durão Barroso, Rocha Andrade e uns quantos mais. E depois existe Daniel Sanches, que entre todos é aquele que, na minha opinião, tem o percurso mais interessante em toda esta história. No dia 17 de Julho de 2004, Santana Lopes tomava posse como primeiro-ministro de Portugal, cargo a que chegou não pela via eleitoral – algo que, estranhamente, não indignou as hostes de direita como o acordo que deu origem à maioria parlamentar que sustenta o actual governo – mas porque Durão Barroso decidiu deixar o país de tanga para servir em Bruxelas, onde se tornou um dos mais famosos e distintos mordomos da historial mundial. Nesse dia, o até então alto quadro do BPN, Daniel Sanches, passa a integrar o novo governo PSD/CDS-PP, ficando com a pasta da Administração Interna.

O caso SIRESP foi um longo processo que atravessou três governos, de Guterres a Santana. O Jorge referiu isso e referiu também o estranho caso de Daniel Sanches, antigo director do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que até 16 de Julho de 2004 foi quadro do BPN, o fatídico banco que era então a jóia da coroa do grupo SLN, a mesma SLN que integrava o consórcio que impingiu o SIRESP ao país, e do qual faziam ainda parte a PT (entretanto falecida), o GES (entretanto falecido), a Motorolla (representada pelo amigo de António Costa, Lacerda Machado) e a Esegur. Já com o governo de Santana Lopes em gestão, e numa jogada com muitas semelhanças com o caso Portucale, para além do omnipresente GES, o ministro Daniel Sanches assinou a parceria público-privada entre o estado e o consórcio privado, com um custo de 540 milhões de euros para os cofres públicos. Anos depois, na comissão de inquérito ao caso BPN, Oliveira e Costa afirmaria que “o que se gastou para fazer o SIRESP julgo que andará à volta de 80 e tal milhões de euros“. Um negócio bastante rentável e muito longe das previsões do grupo de trabalho criado pelo governo de António Guterres para avaliar a implementação de um sistema de comunicações de natureza similar ao SIRESP: entre 100 e 150 milhões de euros.

Terminada a sua última grande tarefa como ministro, Daniel Sanches acabaria por regressar ao universo SLN, uma das partes beneficiadas pelos milhões torrados no inútil SIRESP, e por lá andou mais algum tempo. E, diga-se de passagem, merecidamente. Sai da SLN para o MAI, desbloqueia um negócio complicado com uma assinatura, que rende uma pipa de massa por um serviço altamente sobrevalorizado – e, sabemos hoje, inútil quando mais precisamos dele – à mesma SLN, para onde regressa, pouco após a polémica assinatura. A mesma SLN que nos deu, anos depois, o inqualificável caso BPN. O mesmo BPN que custou 40 milhões a Isabel dos Santos & friends, hoje BIC, inicialmente liderado por Mira Amaral, posteriormente pelo homem que o nacionalizou, o ex-ministro socialista Teixeira dos Santos. Podíamos continuar nisto, mas seria inútil. Bancos, parcerias público-privadas, capitais angolanos, privatizações, barões partidários e danças de cadeiras são, neste país, o prato do dia. Porque somos fáceis e porque cada nação tem o bloco central que merece.

Foto: Nuno Ferreira Santos@Público

Comments

  1. Tudo bons rapazes… Enquanto este tipo de negociatas e dança de cadeiras for permitida, não passamos da cepa torta.

  2. Assim funciona a máfia do bloco central que paulatinamente vai sugando o país.

Trackbacks

  1. […] umas largas centenas de milhões de euros aos cofres públicos, numa negociata à moda do bloco central, e voltou a falhar quando mais precisamos dele. Ontem, porém, recebemos a confirmação de que a […]

  2. […] o Jorge aqui explicou, mas no qual a direita, principalmente o PSD, tem muitas responsabilidades, ou não tivesse sido o governo de gestão de Santana Lopes a adjudicar o negócio, com os contornos nebulosos que lhe são conhecidos. Mas que se lixe, que agora vai tudo de […]

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