No rescaldo de uma greve


[Santana Castilho*]

Era previsível o esvaziamento do impacto da greve dos professores, uma greve que poucos queriam. Os sindicatos não obtiveram nada do que desejavam, a saber: regime especial de aposentação, retoma da progressão na carreira a partir de Janeiro de 2018, clarificação dos horários de trabalho, novas vias de vinculação e alteração do modelo de gestão das escolas. Mas ficaram a perceber o que nunca terão. E talvez tenham percebido que petições, desfiles, cordões humanos, concentrações, postais e autocolantes na lapela não resolvem problemas.

Com a tarimba que levam de sindicalismo militante, Mário Nogueira e João Dias da Silva não sabiam que a recuperação de algumas migalhas, do muito que os professores perderam numa década de congelamento, é decisão do ministro Centeno, que não do ajudante Tiago? Ou perceberam agora, finalmente, que tomar um imberbe, que nunca escreveu uma linha sobre Educação, para ministro, por mais inteligente que fosse, significou, desde o início, que António Costa queria para o sector irrelevância e domesticação política?

A ética mínima ficou na lama com esta greve. Atropelando o direito à greve dos professores, Passos e Crato enxertaram na lei os serviços mínimos em tempo de exames. O PS e as forças políticas que agora sustentam o Governo revoltaram-se na altura. Mas, sem incómodo de maior, viram agora ser usada essa lei para fazer o que antes censuraram. Julgamentos e cirurgias sofrem adiamentos quando há greves na Justiça ou na Saúde. Mas um exame do 11º ano mais a brincadeira de uma prova de aferição são necessidades sociais impreteríveis. Em Janeiro de 2016, Tiago Brandão Rodrigues disse ao Diário de Notícias que o modelo de exames era “errado e nocivo”. Que alguém tenha a caridade de lhe explicar que não pode dar lições sobre a maldade dos exames e depois decretar serviços mínimos para os garantir.

Ainda a propósito da greve, uma palavra sobre a falta de união no seio dos professores. As políticas seguidas por Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato provocaram-lhes desânimo e saturação. Mas não explicam o clima de divisão em que vivem.

A disputa entre professores, quer consideremos a substância, quer consideremos a forma, não serve a classe, porque a desagrega e lhe diminui a credibilidade aos olhos da sociedade. São professores do secundário que depreciam os colegas do pré-escolar e do 1º ciclo, são professores do público que se opõem aos do privado e vice-versa, são lutas menores entre grupos disciplinares, rivalidades entre os que pertencem aos quadros e os que almejam lá entrar e directores que esquecem facilmente que também são professores.

A Educação, enquanto área de actividade profissional, está sob as mais complexas e díspares influências. Do ponto de vista científico são múltiplas as ciências que a servem. Do ponto de vista social e político são muitas as pressões que a moldam e a tornam objecto de conflitos. Mas só a ausência de senso e ponderação da classe faz com que se torne publicamente tão evidente, por vezes de modo deprimente, o que separa os professores.

Posto isto, não somemos à disputa que analisei a disputa, sem sentido, entre professores e outros cidadãos, que a greve também trouxe à colação. Porque os professores precisam da ajuda de todos para educarem os filhos de todos.

É frequente ouvirmos afirmar que o futuro depende dos nossos jovens. Mas quem o diz esquece, com igual frequência, que são os professores que os preparam e que a sociedade lhes deve, por isso, um reconhecimento que tem diminuído nos últimos tempos. E tenhamos presente que, desde que a arrogância contabilística substituiu a política competente, milhares de professores, cúmplices solidários da construção dos projectos de vida de centenas de milhares de alunos, estão, eles próprios, impedidos de construir os seus projectos de vida familiar.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments

  1. Ferpin says:

    Engraçado. No arlindovski nunca vi profs do secundário depreciarem os do 1° ciclo. O que vejo é o contrário. Os do 1° ciclo, que ganham exactamente o mesmo que os do 12° (parece qye somos o único pais da europa onde isso acontece), pretendem reforma mais cedo uns largos anos. A acontecer, isso vale dinheiro, muito, e passaríamos a ser o único pais do mundo onde um professor do secundário ganha menos que um do 1° ciclo.
    Só é pena não terem avisado disso antes de aceder à faculdade. É que as notas de acesso às ESE eram muito muito mais baixas que as de acesso às universidades que havia à época. Os melhores alunos optaram por uma carreira que entretanto ficou para trás em relação a outra para a qual muitos professores entraram com o 9° ano (magistério primário). E a piada é que os professores do 1° ciclo, quando se choram, não reconhecem os educadores de infância como seus iguais, a esses não consideram verdadeiros professores.
    No fundo, isto não é uma questão de justiça, mas sim de quem não chora não mama.

  2. Ferpin says:

    Quanto às greves, da forma como isto foi gerido, era óbvio que os sindicatos não queriam guerra.
    Se quisessem marcam greve todos os dias a partir de 3 ou 4 de junho e ainda não tinga havido avaliações dos anos de exame. Era uma barafunda que assustava o governo. Assim… nicles.

  3. JgMenos says:

    Nem uma palavrinha para ver o que se passa à volta desse universo corporativo…e tudo se resume a mais broas!

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