From Russia, with love #2 (Moscow)


‘May God be always with you’…

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… foi o que me disse a senhora, abraçando-me suavemente para minha surpresa, à entrada da praça vermelha, junto ao ‘quilómetro zero’, o ponto a partir do qual se medem todas as distâncias desde Moscovo. Estava a admirar o que faziam as pessoas no ‘quilómetro zero’. Basicamente colocavam-se no centro e atiravam uma moeda para trás das costas. Perguntei ao rapazinho que estava ao meu lado o que era aquilo, que significava. Ele disse que não falava bem inglês, mas percebi perfeitamente quando me explicou que era o ‘quiómetro zero’. A conversa continuou de uma forma estapafúrdia. Ele falava sobretudo em russo, tal como a mãe, e eu em inglês. Seja como for entendemos-nos e eu percebi que as pessoas faziam aquilo para dar sorte.

Resolvi colocar-me no meio do ‘quilómetro zero’ e atirar uma moeda de 5 rublos (qualquer coisa como 0,075 cêntimos) por cima do ombro. O rapazinho e a mãe riram-se e eu pensei que a minha sorte valia pouco. Quando lhes disse ‘spasiba’ pelas explicações, a senhora teve o gesto repentino de me abraçar e disse-me em inglês ‘may god always be with you’. Não sei se deus estava comigo quando entrei na Praça Vermelha, a seguir. Mas a Praça estava linda com o GUM iluminado e a estrela da Spasskaya Bashnya tremeluzia vermelha. Não sei também se deus me acompanhava quando me maravilhei com aquilo tudo, outra vez. Não sei se deus… ou que deus… me acompanhava. Creio que nenhum, mas gostaria de fazer a vontade à senhora do abraço e sentir-me sempre acompanhada de bondade infinita.
A mesma bondade que o rosto de Karl Marx revela na estátua na Praça da Revolução, que tem inscrita na pedra ‘proletários de todo o mundo, uni-vos’. Não sei o que pensaria Marx se em vez de retratado bondoso, de pedra, a contemplar para sempre o teatro Bolshoi, pudesse ver o que se passa hoje, na terra que ensaiou os seus pensamentos. Palpita-me que se surpreendesse, como eu me surpreendi com o abraço da senhora. Fui rever a estátua de Marx hoje de tarde, depois de ter visitado de manhã uma das ‘sete irmãs’, a mais distante do centro de Moscovo – exatamente 5 quilómetros – que alberga uma parte da Universidade Estatal de Moscovo. A ‘irmã’ mais distante é, como as outras gigantesca e imponente. Tem uma estrela de 10 toneladas no topo e dá para uma praça aberta, ladeada de árvores, cheia de sombras e frescura. Apreciei a sombra e, quando o autocarro turístico me deixou no miradouro de Vorobiovy Gory, aproveitei-a, depois de espreitar a moderna Moscovo, tão megalómana como a que Estaline preconizou, mas sem estrelas de 10 toneladas, nem foices e martelos, nem figuras pesadas de bronze.
Moscovo é uma cidade gigantesca, de grandes avenidas largas, de maciços e nem sempre bonitos edifícios herdados da época comunista. Quando o autocarro passa novamente pela Catedral de Cristo Salvador, uma voz em inglês explica-me que Estaline mandou demolir a original para ali construir o Palácio dos Sovietes, um projecto (claro) megalómano, à escala da URSS. Seria o edifício mais alto do mundo e no topo teria a cabeça de Lenine, onde se poderiam fazer conferências e congressos. O projeto foi abandonado e nos terrenos da catedral destruída, em 1958, Khrushchov mandou construir a maior (obviamente) piscina a céu aberto do mundo naquele local e chamou-lhe ‘Moscovo’. A gigantesca piscina manteve-se em funcionamento até 1994. Nos anos 90, a decisão de reconstruir a Catedral de Cristo Salvador foi (re)tomada. A inauguração desta imponente igraja onde cabem 10 000 pessoas, aconteceu em 2000. Não conheço o projeto do Palácio dos Sovietes enfeitado com a cabeça de Lenine, nem vi fotografias da piscina Moscovo, mas alegro-me pelas cúpulas douradas da catedral. A ‘religião’ será o ‘ópio do povo’, mas entre grandes edifícios, muitas vezes de gosto discutível, muitas vezes grotescas traduções da megalomania, e as cúpulas absolutamente douradas da Catedral de Cristo Salvador – mesmo que deus nunca me acompanhe – prefiro claramente as últimas.
Voltando ao passeio de hoje, aparte ter visto mais ou menos o que ontem vi, nas viagens de autocarro, fui então visitar a bondosa estátua de Marx. Andei de volta dela um bom bocado, mas tive fome. Almocei no centro comercial RIAD, cheio de lojas caras e ar condicionado e voltei à viagem. O autocarro turístico do City Sightseeing tem duas linhas: a vermelha, que percorre o centro e a verde que vai muito para além dele. Fiz ambas hoje, tal como tinha feito ontem. Lembrei-me, quase no fim, de que deveria ver a Praça Vermelha à noite e, como ainda era cedo, decidi descer no Arbat. Assim fiz, percorri a animadíssima rua Arbat, cheia de lojas de souvenirs, pintores e músicos de rua, cafés e restaurantes. A rua Arbat fervilha neste fim de tarde e eu sento-me um bocado num banco a fumar e a olhar para aquilo.
A rua é grande, apesar de não muito larga. Começa na Arbatskaya e vai até à Praça Smolenskaya. Aqui o pitoresco desparece e dá lugar ao frenético e ruidoso movimento constante de Moscovo. Vou depois pelo Novinsky boulevard até à Nova Avenida Arbat, onde apanho o M2 para o Manege de Moscovo, ali à beira da Praça Vermelha, onde fica o Four Seasons Hotel, ex hotel Moscovo, também ele cheio de imponência, apesar da fealdade. Um rapaz explicou-me o sistema de transportes rodoviários em Moscovo e pareceu-me uma boa alternativa ao Metro e às suas escadas rolantes impressionantemente rápidas que me fazem temer pela vida. Talvez deus me acompanhe, afinal, uma vez que lhes sobrevivi.
Depois da moeda atirada, do abraço, das cúpulas da Catedral de São Basílio e da estrela da torre do relógio a brilhar vermelha contra a escuridão, atravessei a ponte, cheia de gente e, provavelmente, de deuses de companhia, a admirar-me com a beleza de tudo. A única coisa que sempre me acompanha.

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