From Russia, with love #10 (Saint-Petersburg)


… a battle field that only needs a name*

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Encontrei Anselm Kiefer hoje no Hermitage, no Palácio de Inverno e foi um encontro inesperado, já que não havia lido nada sobre as exposições. Mal subi as escadas de Jordan, cheias de dourados a reluzir e de pessoas, fui ter à sala 197 e dou com a exposição de Kiefer ‘For Velimir Khlebnikov’. Fiquei tão contente que me pus quase a dançar no meio das salas, 3, cheias de quadros enormes, lindos. De quadros em que apetece mergulhar, como sempre digo. Kiefer criou estes 30 quadros em homenagem ao poeta futurista Khlebnikov. Não costumo colocar fotografias de quadros nos postais ou onde quer que seja. Os quadros são para serem vistos ao vivo e não assim, mas hoje abro uma exceção. Afinal, este encontro inesperado merece ser registado.

Acordei outra vez tarde, já não importa. Vivo quase sempre no fuso horário de Nova Iorque e se a realidade não é condizente, paciência. Estou velha demais para contrariar a biologia. Bebi um café e comi um bolo e pus-me a caminho (um curto caminho) da Praça dos Palácios. Ía finalmente, fui finalmente, visitar o Hermitage. O Hermitage é um dos maiores museus do mundo e expõe obras de arte (pintura, escultura, louças, mobiliário, etc etc) de todos os períodos. Talvez vos pareça estranho, mas hesitei bastante em visitar o Hermitage, especialmente os Palácios (de Inverno, de Pedro I). Sabia que gostaria de visitar o General Staff Building onde há uma impressionante coleção de Picasso e Matisse. Mas os palácios do Hermitage, não tinha a certeza. Passo a explicar: imaginei multidões à entrada e multidões no interior; depois não sou especialmente apreciadora (crucifiquem-me) de pintura e escultura anterior, digamos, à segunda metade do século XIX; depois também não sou igualmente apreciadora de palácios e de dourados e de lustres e de tapeçarias e mobiliário do tempo dos Czares. Pelo que, como disse, estava hesitante em visitar o Hermitage.
Mas vir a São Petersburgo, eventualmente pela única vez na vida, e não visitar o Hermitage seria como ‘ir a Roma e não ver o Papa’, embora eu tenha estado já algumas vezes em Roma, uma vez no Vaticano até, e nunca vi Papa nenhum, nem me fez falta. Mas voltemos ao Hermitage. Quando entrei pelo arco do ‘General Staff’, pela rua Morskaia, a Praça dos Palácios estava agitada. Os carros e tanques da II Guerra Mundial lá continuavam, mais os cravos vermelhos, e uma multidão de gente. Um grupo de senhoras cantava bonitas canções russas e algumas pessoas dançavam. Tudo vestido a rigor. Fiquei a ouvir as senhoras cantarem e a ver os dançarinos e depois entrei pelo grande portão do Palácio de Inverno do Hermitage. Esperava filas infinitas, mas não. Comprei o bilhete numa das máquinas e passei à frente da única fila, não muito grande, que havia no pátio.
Quando entrei o caso, o sossego e a ausência de filas, mudou de figura. Multidões estavam já dentro do Hermitage. As belíssimas escadarias Jordan, cheias de dourados e colunas azul noite, estavam cheias de gente. Foi então, quando subi ao segundo andar, que vi as salas com os 30 quadros de Kiefer em homenagem ao poeta futurista. Reconciliei-me, claro, por um bocado pelo menos, com a aparência de feira do Palácio de Inverno. Andei por dentro de cada um dos 30 quadros devagarinho. Estava muito pouca gente naquelas salas e isso sossegou-me também.
Quando saí da exposição de Kiefer a multidão bateu-me em cheio nos sentidos. Deixei-me arrastar entre mobiliário de época, pratos partidos, pessoas retratadas com golas brancas muito engomadas, quase como se flutuasse, embora me doessem já bastante os pés. Apreciei os tectos de algumas salas, fiquei embaacada com a Catedral da Imagem do Salvador (‘not made by hands’), ou a grande igreja do Palácio de Inverno e com o Relógio-Pavão que tinha o mundo inteiro – achava eu – à sua volta. Depois encaminhei-me para onde toda a gente vai.
Quero dizer para as salas onde está Rembrandt, Caravaggio e Da Vinci. Em volta de cada quadro, mas especiamente de Madona Litta, obra atribuída a Leonardo da Vinci, as pessoas parecem moscas. Afinal, é aqui que está o mundo inteiro! A entrada nestas salas faz-se com enorme dificuldade e o ar é irrespirável. E cheira demasiado a transpiração. As pessoas acotovelam-se. Pisam-se. Fico atarantada com tanta agitação e resolvo que já chega. Já vi umas dezenas largas de salas e não estou para sofrer mais. Ando quilómetros para encontrar a saída. Bebo um café e como uma sanduíche no café, quase perto da porta e ala dali para fora.
O jardim, ou pátio, é um óasis, comparado com o que acabei de vivenciar. Já tinha visto o mesmo no Louvre, há quase 3 décadas, com centenas de japoneses rodeando o pequeníssimo quadro da Mona Lisa ou Gioconda. Uma batalha. Um campo de batalha. A que, honestamente, não sei que nome hei-de dar. Mas eu não fui decididamente feita para isto.
Sento-me na beira de um passeio, perto do jardim central onde corre água. O ruído líquido reconforta-me e a nicotina também. Depois regresso ao bulício da Praça dos Palácios e deixo-me estar um bocadinho ao sol antes de entrar no General Staff Building. O Hermitage na mesma, mas outro Hermitage. Passa uma noiva com o seu noivo no meio da praça. Ensaiam em conjunto passos de dança para a fotografia. Entre no General Staff Building e gosto logo dele, do seu despojamento deslumbrante, das enormes escadas e portas da entrada, da inesperada ausência de pessoas, apesar da enorme coleção de Picasso e Matisse, que contém, como já disse, de uma bela exposição sobre o impressionismo e Pós-Impressionismo e de outra sobre a ilustração de livros por grandes pintores. E quase ninguém anda pelas muitas salas do General Staff Building! Uma maravilha, penso eu, depois do stress do Hermitage.
Antes de entrar nas exposições vejo pela primeira vez nesta viagem o Camarada Trotsky. Ergo-lhe o punho. À Revolução Permanente! Estava num placard que contava (penso eu, dado que estava em russo) os primeiros dias da revolução de outubro. Ando pelo museu umas 3 horas. Ao todo, passei seis horas dentro de museus. Estou cansada. Doem-me muito os pés. Saio e sento-me num banco da rua Morskaia a ver a azáfama dos turistas e a batalha dos locais, a vender coisas. Retratos, caricaturas, fotografias com animais de peluche diversos e há até pombas brancas.
Estou cansada. Ando fora de casa há 18 dias. Todos os guerreiros, mesmos os turistas, mesmo , ou sobretudo, aqueles com más pernas, precisam de descanso. Ainda bem que as férias não acabam quando regressar. Assim, antes de outras batalhas, descansarei.
* frase retirada do texto da exposição de Kiefer ‘For Velimir Khlebnikov’.

Comments

  1. Sandrina says:

    Se tivesses vivido na URSS como meus avos e meus pais não diras viva a revolução, cuspiria sim aos pés desse simbolo. E não penses que esse era dos bonzinhos só porque foi assasinado pela revolução, pois isso apenas foi luta pelo poder, a idealogia era a mesmo para pior.
    Na URSS já viu que não podia passear pelas cidades ? já pensou que no tempo da revolução precisava de “ passaporte” para viajar de cidade á cidade ?
    Você ama tanto a revolução porque se coloca na posição de aristocracia dos detentores do poder (do partido). Se colaca-se no lugar de cidadão não amaria a revolução, porque não teria mais Liberdade.
    Você só podia viajar no tempo da revolução se fosse membro da “aristocracia” do partido.

    Sandrina Kozlov

  2. Antonio Rodrigues says:

    Essa Sandrina pensa que a Rússia é a revolução, mas não é. A Rússia é um país com mil anos de história e cultura, onde aconteceram coisas muito boas e muito más, como de resto qualquer país europeu. Já viu que a França produziu a maior revolução na sociedade europeia com crimes e atrocidades mas que o balanço dessa revolução mudou para sempre a estrutura económica e social da Europa. A sra, Sandrina Kozlov sabia da existência da revolução francesa e de outras, ou é tão cega que não sabe. Alguém bem formado esclareça esta senhora, por favor!!!

    • Sandrina says:

      O resultado da revolução francesa , como a russa foi a instaurasao de um Ditadura.
      com o revolução francesa começou o declinio da frança que era o pais mais rico e desenvolvido da epoca e continua a descer até hoje. As mudanças rumo a democracia e liberdade tinham já sido iniciadas 100 anos antes na Inglaterra com a revolusao gloriosa e , 13 anos antes com a revolusao americana. na revolusao gloriosa e na revolução americana o poder foi democratizado , mas na revolusao francesa, russa e mais tarde na chinesa o poder foi concentrado em Ditadores.
      era isso que queria que alguém bem formado me explicasse ?

      Sandrina

      • Isso dito assim parece que a revolução gloriosa foi assim uma coisa pacifica, meio hippie, e que o rei Carlos I deixou que o democratico Cromwell lhe cortasse a cabeça apenas por uma questão de protocolo.
        A guerra de independencia americana chama-se assim porque o benevolente imperio britanico achou por bem dar uma certa autoestima aos americanos
        Já todas as outras revoluções de que fala são más porque derrubaram democracias instituidas.

        • Sandrina says:

          ainda bem que aqui aqui estamos de acordo. Relembro também que a benevolencia inglesa se fez notar mais uma vez na independensia de india

          • Não estamos de acordo, estava apenas a ser sarcástico.
            E o império britanico nunca foi benevolente com quem se opunha a ele.

          • Sandrina says:

            tan benevolente que até os praticantes do pacifismo os venceram.
            Se Gandi tinha feito frente a alguém com Lenin ou Estaline teria logo imediato sido morto.

        • Sandrina says:

          se para ti a rev. gloriosa não foi pacifica , então não sei como classificas a rev. russa e francesa…

          Sandrina Koslov

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