O roubo de um comboio de Lisboa


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José de Lisboa

Estamos a ser roubados.
Com intensidade e duração variáveis, o património ferroviário português tem sofrido nas últimas décadas muitos atentados, saques e roubos, uns velados e outros mesmo na luz do dia, como é o caso que quero denunciar.

Está a poucas horas ou dias de desaparecer, sob a forma de sucata de luxo, a primeira automotora elétrica de corrente monofásica 25 kV em Portugal e no mundo inteiro, conhecida como “Unidade Tripla Eléctrica” número 2001, ou seja, UTE 2001.

Este comboio eléctrico construído em 1956 na saudosa Sorefame (Amadora, Portugal) prestou grandes serviços à população da Grande Lisboa durante 50 anos. Faz parte das nossas vida, faz parte das nossas memórias e faz também parte de Lisboa, do Cacém, de Vila Franca de Xira, de Sacavém, da Damaia, de Sintra, de Algueirão, de Mem Martins. Faz parte das memórias de Campolide, do viaduto da avenida da República, de Marvila e de Braço de Prata.
Este comboio pertence ao Museu Nacional Ferroviário desde 10 de Maio de 2010, conforme o documento em anexo, e tem estado, desde há anos, longe da vista, no Entroncamento, numa zona erma e propícia ao vandalismo (linhas da Fernave). Nunca ninguém explicou o porquê de ter sido deslocado para aquele sitio, uma pergunta que tarda em ser respondida.

Desde que a UTE foi levada para a atual localização, em 2007 ou 2008, foi pedido que o Museu Nacional Ferroviário resolvesse esta situação mas infelizmente o interesse tem sido nulo. Porquê?

Recentemente tornou-se público que o MNF decidiu trocar a UTE 2001 pela UTE 2086 tendo feito tal coisa no maior secretismo possível, o que se compreende apenas à luz da “cultura” ferroviária dos doutores do MNF.

Segundo foi noticiado, o parecer foi solicitado pela CP em Dezembro de 2015, do qual se pode ler o seguinte enxerto: “Essa peça está completamente destroçada. Aquilo está completamente desfeito. Na opinião dos técnicos, devidamente fundamentada, essa unidade já não reúne o mínimo de condições para ser incorporada na coleção do museu” justificou hoje à agência Lusa o presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário (FMNF), Jaime Ramos, acrescentando que o parecer técnico foi solicitado pela CP – Comboios de Portugal, em dezembro de 2015″.

O MNF argumenta a pseudo troca pela UTE 2086 porque diz que a UTE 2001 está “completamente destroçada”, “completamente desfeito”. Mentira.

Como é possível o Conselho Técnico Científico do MNF não ver interesse museológico na primeiro comboio suburbano de corrente 25 kV do mundo e, ainda por cima, fabricado em Portugal? Porquê esta troca pela UTE 2086?
É preciso relembrar o real estado da UTE 2001 com algumas fotos?

Talvez seja bom que começar a pensar seriamente que tipo de museu ferroviário queremos em Portugal, se é que queremos algum.

Comments

  1. JgMenos says:

    Quantos ignorantes estão envolvidos no processo de decisão?

  2. Paulo says:

    Que Nojo !!! Tenho vergonha de ser Português !

  3. Paulo says:

    Porque razão todo o material circulante de construção em Inox, fica sempre obsoleto e irrecuperável, quando deveria ser exactamente o contrário ?????????

  4. orlando costa says:

    Tudo isto, porque outros valores ($$$$$$$$$$$$) mais altos se ‘alevantam’.

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