Sobre a disjunção entre o título e o corpo de um texto do Observador


Façamos um exercício de adivinhação sobre a mensagem deste artigo da autoria de Edgar Caetano, começando pelo título.

“Os anos da troika. Portugal foi o único país a sair da crise com menos desigualdade”

“Os anos da troika” define o horizonte temporal como sendo o período em que a troika esteve em Portugal, ou seja, de 2011 a 2013, ou eventualmente até 2015, dada a associação popular entre o governo de Passos Coelho e a troika. O resto do título contraria a tese generalizada sobre o impacto negativo da troika. Afinal, a troika trouxe aspectos positivos, assim se depreende.

Continuemos pelo lead. Um estudo académico critica a política da austeridade, mas “destaca Portugal” por ser o único onde esta causou “menos desigualdade”. Há, portanto, um reforço da tese do título e acrescenta-se credibilidade (estudo académico), ao mesmo tempo que se enquadra a vox populi quanto à percepção dos efeitos da austeridade, naturalmente desprovida da sapiência de um paper académico.

Andámos, portanto, errados. Ou será que é melhor ler o artigo?

Sabendo-se que o Facebook é a “fonte” de notícias para muitos portugueses e que boa parte destes não vai além do título do artigo, a respectiva escolha devia ser criteriosa. No entanto, vemos que a notícia se refere aos anos de 2007 a 2014, logo não se limitando aos “anos da troika”, tal como se facilmente constata nos dois gráficos incluídos no corpo do texto.

Coeficiente de Gini. Fonte: Eurostat/Perez, Matsaganis, via Observador

 

Indicador de desigualdade de Rendimento S80/S20. Fonte: Eurostat/Perez, Matsaganis, via Observador

Esta é a primeira manipulação presente no texto de Edgar Caetano, que traz à peça um estudo referente ao período 2007 a 2014, mas dando a entender que se refere apenas a 3 anos.

A segunda manipulação está em não referir nem no título nem na lead que a desigualdade citada no título do artigo desceu fortemente antes de 2011, o que é bem visível em ambos os gráficos do artigo. Pelo contrário, graças ao enquadramento temporal “Anos da troika”, a conclusão é bem diversa da realidade.

E, por fim, a terceira manobra que o artigo faz é relegar para segundo plano que a desigualdade até aumentou no período dos “anos da troika”, segundo o critério S80/S20, demonstrado no segundo gráfico do artigo, e que, neste contexto, Portugal nem sequer foi “o único país a sair da crise com menos desigualdade”.

Lendo o post na totalidade, vemos que este é um misto de contradições, com considerandos relegados para o fim do texto a questionarem a tese inicial.

O que pensar do autor do artigo? Que não sabe analisar e processar os dados à sua disposição, apesar dos seus “10 anos” em que se tornou “jornalista ligado à Economia e, em especial, aos Mercados Financeiros.”? (*) A alternativa é que sabe o que é que está a fazer, cabendo-lhe explicar porque o faz.

O texto em causa é este: observador.pt/especiais/os-anos-da-troika-portugal-foi-o-unico-pais-a-sair-da-crise-com-menos-desigualdade

* Citação: observador.pt/perfil/edgarcaetano

Comments

  1. É apenas mais um boçal portador de canudo! Ou se preferirem, mais um jornalista de vão-de-escada!

  2. Duarte Dias Lima Loureiro says:

    mas chegou para o almeidinha fazer aqui um post todo molhadinho…

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Felizmente há redactores,não jornalistas, que estão atentos aos ataques dos amantes da filosofia de Goebbels onde a mentira repetida muitas vezes acaba por se transformar em verdade.
    Cada vez nos afastamos mais do poder do terceiro Estado.
    Hoje o poder é o da Imprensa, o quinto Estado que põe e tira governos, ressuscita mortos, faz chover mesmo quando não há nuvens e transforma a desigualdade em igualdade.
    E fico baralhado, porque é que com animais como o Edgar Cardoso se continua a manter a máxima de George Orwell? …
    Mas sinto-me obrigado a descansar o articulista, caro J. Manuel Cordeiro.
    O Sr. Cardoso sabe muito bem analisar e processar os dados, mas manifestamente gosta mais de manipulá-los. É claramente, pelos factos apresentados, um prestidigitador bem à dimensão de um Cavaco, Sócrates ou Passos Coelho. Esta gentalha veio toda ao mesmo tempo chafurdar na gamela e o que custa, é que têm muitos seguidores. Mas ainda assim, continuam a fazer do embuste a sua forma de vida.
    É uma escolha.
    Só pergunto porque é que estes “iluminados” jornalistas, tão estudiosos e amantes das folhas Excell, não recuam um pouco mais no tempo dedicando-se a fazer “papers” de análise aos motivos pelos quais a Troika cá entrou.
    Mas eu sei porquê. É que isso vai tocar nas SUAS “vacas sagradas”, Mário Soares, Durão Barroso, Cavaco Silva e Sócrates e em toda a rede de malfeitorias e malfeitores que eles protegeram – e alguns ainda protegem, correndo o risco de abalar a rede da irresponsabilidade e impunidade de que eles dependem para viver e que nos vem governando há muitos anos..

  4. A isto chama-se Austerida Expansionista aplicada à análise dos números, para quê olhar para a imagem toda quando olhar para a parte que nos interessa é que é relevamente. O azar é que os números, esses objectos matemáticos completamente objectivos e éticos não mintam, que falta de chá e sentido patriótico.

  5. E assim se constroem as falácias lógicas.

  6. anti pafioso. says:

    A direitalha fascizante continua a sua senda de aproximação ao pote . Podem esperar sentados que os tolos já não querem papas nem bolos .

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