Postcards from Greece #50 & #51 (Lagkadás)

It is all Greek to me

 

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é o que penso hoje, durante uma parte da manhã. Que para mim é tudo grego, literalmente, porque não percebo nada do que diz o meu segundo entrevistado. É uma sensação estranha esta, fazer perguntas numa língua e responderem-nos noutra, absolutamente diferente e incompreensível para mim. É difícil a conversa fluir, desta maneira como é evidente, mais a mais porque as respostas do entrevistado são depois traduzidas pela R, não em inglês, mas em francês. Ou seja, eu coloco as questões em inglês, a R. traduz quase todas para grego (porque ele percebe um bocadinho de inglês e algumas não é preciso traduzir) e a R. traduz as respostas depois para francês, porque apesar de entender bem o inglês não se sente tão à vontade para falar. Portanto, aqui estou em Lagkadás, uma pequena cidade a noroeste de Salónica, completamente perdida na tradução. Antes tínhamos feito outra entrevista em Salónica, em que praticamente se dispensou a tradução, porque a senhora falava inglês razoavelmente. Mas agora, agora é mesmo tudo grego para mim.

Acordei muito cedo, eram 7h40 da manhã. Estou neste momento acordada há 21 horas. Está um vendaval impressionante lá fora, um vento que parece levar tudo até o meu sono. Devia ter sono, mas já se sabe que eu, por muito que não durma na noite anterior, como foi o caso, e me levante extraordinariamente cedo para meus hábitos, não tenho sono a horas normais, digamos assim. Mas acordei muito cedo para ir fazer as duas entrevistas marcadas pela R. para esta manhã. Há que fazer sacrifícios pela ciência, pois claro, diz-me ela quando me anuncia a hora tão matinal a que virá buscar-me diante do prédio onde vivo temporariamente. A seguir à entrevista em Salónica, a uma agricultora de tabaco, cuja a aldeia fica nos arredores da cidade, partimos então para Lagkadás, uma cidade bastante pequena, como já disse, encantadora a seu modo, mas bastante maltratada, penso eu, pela crise financeira. Muitas lojas fechadas, muitos prédios decadentes. Apesar disso, há gente na rua, há movimento e o pequeno supermercado em frente da igreja, no que julgo ser o largo principal, explode em cores que vêm dos legumes e da fruta. Fazemos então a estranha entrevista, em grego, em francês e em inglês. O entrevistado parece apreciar a misturada e eu, confesso, se não fosse por me sentir perdida na tradução, se estivesse a observar aquilo de fora, haveria de achar também piada a esta algaraviada. Claro que no fim, todos nos entendemos e, basicamente, isso é o que interessa.
Aliás eu e a R. falamos em conjunto uma língua impossível, uma coisa a que eu resolvi chamar ‘frenglish’, onde misturamos (eu sobretudo) palavras de francês e de inglês na mesma frase. Também devemos ter piada para quem nos ouve comunicar naquela estranha linguagem. A verdade é que falamos muito e, uma vez mais, que nos entendemos. Almoçámos, sem parar de falar ‘frenglish’, num restaurante ‘populaire’ do ‘market’. Slouvaki e salsichas grelhadas, com batatas fritas e uma salada. A comida era boa, simples e honesta. A seguir regressámos a Salónica, sempre em animada conversa, sobre política principalmente e sobre a crise, que é do que falámos, sem nos perdermos na tradução, mais frequentemente as duas. Em ‘frenglish’, evidentemente. Cheguei a casa por volta das 3 e meia da tarde. Andei toda a tarde, confesso, a preguiçar um bocado. Fiz coisas em casa, incluindo a temível tarefa de passar a ferro, até serem horas da próxima entrevista, por skype, dado que a entrevistada vive em Larissa, que não é assim tão perto de Salónica. Desta vez a conversa flui, sem tradução, nem ‘frenglish’. Falamos as duas em inglês e tudo corre bem.
Tenho a certeza que agora, quando me for deitar, vou sonhar em ‘frenglish’ com algumas palavras em grego, provavelmente as dez que conheço, à mistura. Espero que o vento me deixe dormir. Lá fora, na varanda, anda um corropio de coisas, que tenho de ir verificar. Não sei como se diz vento em grego. Verifico rapidamente no Google: άνεμος (ánemos). ‘De quelque façon, whatever it is called, there is beaucoup de wind cette evening’.
Bonne nuit
Kalynichta
Good nigth

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