Habemus GroKo

(Foto: Michael Kappeler/dpa)

Depois de mais de cinco meses sem governo – durante os quais se assistiu ao fracasso das negociações para uma coligação Jamaica (CDU/CSU, FDP e VERDES) e às angustiadas negociações para um acordo de coligação entre os sociais-democratas do SPD e os conservadores do CDU/CSU, que incluíram a queda aparatosa de Martin Schulz, o ex-líder do SPD – foi hoje dada luz verde por dois terços da base do partido social-democrata alemão para a formação do terceiro governo da grande coligação (GroKo). No próximo dia 14 de Março, SPD e CDU/CSU vão eleger Angela Merkel, que assumirá assim o seu quarto mandato como chanceler.

Estão pois escancaradas as portas para dar continuidade à política do apocalipse, a saber:

  • Agravamento da clivagem social interna: num dos países mais ricos do mundo, há cada vez mais pessoas a viver na pobreza, com empregos precários e reformas que não chegam para a sobrevivência. A recente controvérsia sobre a decisão de uma associação que distribui alimentos não aceitar mais estrangeiros nas suas listas é óptima para engendrar polémicas xenofóbicas, mas o que realmente e acima de tudo evidencia é o escândalo de, num país tão rico, ser necessário que os pobres concorram por migalhas. São 934 os bancos alimentares existentes em todo o país e atendem regularmente 1,5 milhões de pessoas. Enquanto isso, os lucros das grandes empresas e o “crescimento” sobem vigorosamente – em 2017, a maior economia europeia cresceu ca. de 2,4%. No próprio dia em que o Telejornal (Tagesschau) transmitiu a notícia anterior, anunciou também que devido à favorável conjuntura e elevada taxa de emprego e das receitas fiscais daí resultantes, a Alemanha obteve em 2017 um excedente orçamental recorde de 36,6 mil milhões de euros.
  • Política danosa para o clima: Seja ao nível da amizade para com a indústria automobilística, a agro-indústria ou as centrais a carvão, as políticas que secundarizam o ambiente e o clima vão continuar. É já previsível que a Alemanha não conseguirá cumprir a meta que definiu para a redução das suas emissões de CO2: em vez de 40% serão, nas hipóteses mais optimistas, 32% até 2020. Da poluição do ar e dos solos – em muitas regiões da Alemanha acima dos valores legais definidos pela UE – decorrem danos para a saúde humana e o ambiente. A recente decisão do tribunal administrativo alemão de permitir que cidades, comunidades ou estados proibam em certas áreas a entrada de veículos a diesel apenas demonstra a incomportável situação produzida pelas políticas que têm sido seguidas.
  • Aposta cega na exportação e numa globalização do mais forte: A Alemanha é o 3° maior exportador do mundo e, em 2017, voltou a ser campeã mundial quanto ao excedente comercial. Produtos gerados por mão-de-obra precária e métodos agrícolas destruidores do meio ambiente inundam os mercados e estimulam uma concorrência desleal com países menos poderosos, esmagando a produção local e os meios de sobrevivência noutros países. Ocultando e ignorando as externalidades desse transporte insano de produtos em redor do mundo, aceleram a destruição do planeta, numa desvairada atracção pelo abismo.
  • Entrega da soberania dos países às mãos das multinacionais: a fabricação de um novelo cada vez mais cerrado de acordos comerciais e de investimento é objectivo expresso desta maioria governamental que continua no poder. Com uma dolorosa falta de visão, continua a espetar as esporas – acompanhada pelos outros países membros da UE – para acelerar a destruição da democracia e da soberania dos povos, ao mesmo tempo que promove o individualismo que se revê por completo num consumismo cada vez mais irracional.

Habemus GroKo, mais do mesmo, avante para continuarmos a dar cabo disto tudo.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Já não sei se é suicídio se é instinto de sobrevivência.
    Senão vejamos:
    A Senhora Merkel vai no seu quarto mandato, dos quais 3 deles com apoio de SPD. Acho que não estou equivocado.
    O Partido do Senhor Martin Schulz sabe de antemão que a cada nova coligação feita com a CDU/CSU, o retorno será o definhamento das bases onde assentou a social democracia alemã, com o eleitorado em desespero de causa a agarrar-se aos populismo.
    Então qual a razão desta coligação?
    Savar os empregos das elites do SPD, que ainda restam? Num país como a Alemanha, fico com dúvidas, mas já não digo nada.
    Este SPD esta cada vez menos claro e credível. Não tardará a passar à condição de moribundo, não tarda nada.

    • Ana Moreno says:

      É verdade que o SPD está numa crise grave e os solavancos por que acabou de passar (o pior dos quais um Martin Schulz a excluir, a seguir às eleições, toda e qualquer possibilidade de uma nova GroKo e a ter que engolir essas palavras inteirinhas depois do fracasso da Jamaica), são disso expressão. A falta de aplauso quando ontem foram dados a conhecer os resultados na Willy-Brandt-Haus é bem sintomática das divergências internas. A pressão em favor do argumento “acima das razões partidárias, pela estabilidade do país” teve grande eficácia junto dos militantes do partido e do seu voto – o que, convenhamos, não é de todo descabido. Ainda não foi desta que as forças que querem voltar a assumir os valores sociais e progressistas do SPD foram maioritárias. E pelo andar da carruagem e apesar de todas as promessas de renovação do partido nos próximos tempos, concordo com o Rui, que se vai tornando “cada vez menos claro e credível. Não tardará a passar à condição de moribundo, não tarda nada.”
      Muito indica que sim.

      • Rui Naldinho says:

        O SPD sempre foi para mim o baluarte da Social Democracia na Europa. Muito mais do que o PSF ou mesmo o Labour.
        Mais à esquerda com Willy Brandt, ou mais à direita com Helmut Schmidt, o SPD sempre foi o fiel da balança. Degenerou, infelizmente.
        Eu parece-me que os Sociais Democratas em geral, e os Alemães em particular, não resistiram ao fenómeno da Globalização, com todas as vicissitudes, tanto ao nível dos mercados financeiros como ao processo de desindustrializacao da própria Europa, onde a Alemanha acaba por ser de certa forma um oásis no deserto que se avizinha.
        Por outro lado a reunificação Alemã não pendeu para o lado do SPD contrariamente àquilo que seria de esperar.
        Posso estar equivocado, mas é a minha percepção.

        • Ana Moreno says:

          Partilho a sua visão sobre o SPD, Rui.
          Quanto à reunificação, deu para o torto, a esse respeito; aquele sistema não promovia de modo nenhum o esprírito crítico e, no fundo, progressista. Isso, e a falta de perspectiva que existe em muitas regiões da antiga RDA, explica o assustador apoio à AfD que por lá existe…

          • Rui Naldinho says:

            “…Isso, e a falta de perspectiva que existe em muitas regiões da antiga RDA, explica o assustador apoio à AfD que por lá existe.”

            Precisamente, a parte que me atemoriza.

  2. Paulo Marques says:

    “the widest gaps between the proportion of unemployed and employed persons being at risk of monetary poverty were recorded in Germany (70.8% for unemployed persons vs. 9.5% for employed persons, or a 61.3 percentage point gap) ”

    Siga a social democracia para a cova.

  3. Luís Lavoura says:

    A recente decisão do tribunal administrativo alemão de permitir que cidades, comunidades ou estados proibam em certas áreas a entrada de veículos a diesel apenas demonstra a incomportável situação produzida pelas políticas que têm sido seguidas.

    Eu acho que a Ana Moreno está nesta frase a ver completamente mal as coisas.

    A Ana Moreno deveria estar a louvar esta decisão do tribunal alemão e das cidades alemãs, e a questionar porque é que nas cidades portuguesas, em particular em Lisboa que tem índices de poluição vergonhosos, não se tomam decisões similares.

    A Ana Moreno deveria estar a questionar porque é que, sendo os carros a gasóleo substancialmente mais poluidores do que os a gasolina, em Portugal cerca de 2/3 dos carros comprados são a gaśoleo e Portugal continua a ter um gasóleo 25 cêntimos mais barato do que a gasolina . exclusivamente devido a uma política fiscal que favorece os carros mais poluidores.

    A Ana Moreno em vez de olhar para a Alemanha deveria olhar para Portugal (e quiçá deveria olhar para si própria e para os seus familiares e amigos). Não deveria atirar pedras quando tem telhados de vidro.

  4. Ana Moreno says:

    “Eu acho que a Ana Moreno está nesta frase a ver completamente mal as coisas.”
    De modo nenhum Luís Lavoura, poderá é ter-me entendido mal, ou eu não ter explicado suficientemente: Louvo e MUITO a decisão do Tribunal; só é lamentável que tenha que ter sido uma decisão jurídica, produto da letargia e benevolência do governo para com a industria automobilística, a qual deveria ter sido obrigada a reequipar os veículos em causa com o devido hardware, já que andou a enganar os clientes quanto ao grau de poluição dos automóveis que adquiriam. Clientes que agora são penalizados com a perda radical de valor dos mesmos. A decisão do tribunal comprova que o governo e o Bundestag têm de tomar medidas a sério e não continuar a assobiar para o lado para não chocarem contra os amigos da dita indústria.

    “A Ana Moreno em vez de olhar para a Alemanha deveria olhar para Portugal”, se me permite, olho para o país que melhor conheço, onde acompanho a informação diária e onde voto. Sobre Portugal, só posso escrever esporadicamente sobre temas muito específicos ou fazendo observações sobre experiências durante as férias. Os meus colegas do Aventar estão bem mais capacitados do que eu para escreverem sobre os telhados de vidro a que o Luís Lavoura se refere.
    Finalmente lhe asseguro que tanto sei identificar os pontos críticos e criticáveis desta política que começou com a Agenda 2010 do social-democrata Gerhard Schröder, como sei muito bem quais são os pontos fortes e bons das instituições e de alguns valores alemães.
    Ao contrário de muito do que se lê em Portugal, os alemães não são nem papões, nem heróis; têm um pouco de uma coisa e um pouco da outra. Tal como os portugueses.

    • Luís Lavoura says:

      OK, estamos esclarecidos.
      Já agora, é claro que eu não sabia que a Ana Moreno residisse na Alemanha, muito menos que até lá votasse.

      • Ana Moreno says:

        Formalmente, nem portuguesa sou… 🙂

        Já agora, o gasóleo aqui também é mais barato do que a gasolina – mais uma vez, os lóbis são mais fortes.
        Como também o são no caso do transporte de mercadorias; em vez de ser promovido sobre carris, estes têm sido neglegenciados há décadas e estão em estado miserável, enquanto as auto-estradas pululam de camiões. Belos defensores do clima…
        No que concordo totalmente consigo, é que devemos olhar para nós próprios e para o que nos rodeia, quando criticamos os outros. Imensamente desejável! Até porque nenhum de nós está isento – faz-se sempre um equilíbrio na corda bamba, mas pelo menos, que façamos escolhas conscientes…


  5. Ana Moreno, bem haja por permitir-nos este analisar uma vez mais uma situação que bem conhece e que tb nos atinge, afinal, pq inseridos e de que maneira nesta Europa/Alemanha.

    Saúdo igualmente Rui Naldinho a argumentar com a Ana, porque aprendo convosco.

    E saúdo sempre o Aventar que nos abre esta oportunidade de informação e opiniões diversas que são mais valia para quem deseje estar atento….ainda que infelizmente ficarmos seriamente preocupados, o que nos incentiva á vontade de participação cívica da cidadania em intervenção possível cada vez mais necessária em toda esta séria realidade nos vários quadrantes em que vivemos, tendo em vista também o legado de tudo isto que ficará para os vindouros .

    Força, companheiros, que dentro da minha limitada circunstância de actuação real, no mínimo passar palavra e “avisar a malta” vai acontecendo .

  6. Antonio Medeiros says:

    Ana, gostei demais do artigo. `e necessário publicar este assunto tão importante para toda a sociedade,mesmo fora da Europa,porque os reflexos aqui serão sentidos.Congratulações!

    • Ana Moreno says:

      Muito grata, António Medeiros! Tem razão, os reflexos deste modelo absurdo, nesta época globalizada, fazem-se sentir em todo o lado.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.