Com que então, não se paga para estar no Facebook?

Vénus de Willendorf (c) Matthias Kabel

Há muito espaço para crítica por parte de quem não concorde com uns tansos armados em vitorianos que não gostam de mamas feitas de pedra com 30 mil anos

No programa Governo Sombra desta semana, João Miguel Tavares insurgia-se a certa altura por causa dos que reclamam contra o Facebook. Por exemplo, há quem critique a censura que o Facebook pratica quanto à nudez, tal como aconteceu recentemente com o bloqueio da foto de uma estátua de pedra feita há cerca de 30 mil anos. Dizia o ilustre painelista que quem não está bem, que se mude, até porque não se paga nada para estar no Facebook. Se bem que houve algum desacordo quanto à tese liberal da livre escolha individual, já sobre a ausência de pagamento para uso da rede social, a posição foi de unanimidade.

Começando pela última parte, o sr. João Miguel e demais colegas parecem ignorar que, genericamente, a moeda é só uma das possíveis formas de pagamento. Sem ser necessário ilustrar a tese com o brejeiro pagar com o corpo, facilmente se percebe que um pagamento pode ser feito em géneros, que é o que acontece, por exemplo, quando alguém recebe um bónus de desempenho pago em acções da empresa onde se trabalhe. No caso do Facebook e demais modelos de negócio “sem pagamento”, a verdade que se está a pagar o serviço com algo bastante precioso e que as pessoas estão a vender ao desbarato: os seus dados pessoais, as suas preferências em termos de produtos e os seus hábitos de navegação online. Não é por acaso que Facebook e Google juntas arrecadam um quinto mercado publicitário global, correspondendo a uns módicos 106.3 mil milhões de dólares. E isto acontece porquê? Porque estas empresas são excelentes a posicionar os anúncios junto do público alvo. E como é que o conseguem fazer? Porque os seus utilizadores dão-se a conhecer sem barreiras. Parecem uma porta escancarada à espera de quem queira entrar para levar o dinheiro escondido debaixo do colchão.

Portanto, sr. Tavares, esqueça lá essa ideiazinha de não se pagar para se usar o Facebook. Quanto à outra tese de quem não estiver bem que se mude, as coisas também vão um pouco além deste raciocínio simplório, especialmente quando uma organização atinge um patamar de poder capaz de influenciar o decurso dos acontecimentos de um país. Podemos imaginar um mundo onde as empresas podem fazer o que bem entenderem e onde cada um está por sua conta e risco. Mas, a seguir, devemos perguntar-nos se queremos viver nesse mundo. Há uma conduta social alicerçada em valores que se aplicam a todos os elementos dessa sociedade, empresas incluídas. Por isso, tenham lá paciência, mas há muito espaço para crítica por parte de quem não concorde com uns tansos armados em censores vitorianos só porque não gostam de mamas feitas de pedra com 30 mil anos

Comments


  1. Então não é tão “fixe” ter alguém que me apresente produtos, que me podem interessar, sem eu ter que andar a fazer imeeeensas buscas para lá chegar?!
    A menos que eu seja uma compradora compulsiva! Mas isso trata-se.

  2. ZE LOPES says:

    Ó José Cordeiro o Sr. não está a ver bem a questão. O João Miguel Tavares é um encartado liberal, mas não só: é um liberal muito esperto. Por isso não paga para estar no Facebook, nem em géneros.

    Pelo contrário: é o Facebook que paga para estar no João Miguel Tavares.

  3. Ana Moreno says:

    Boa Jorge! A superficialidade ignorante com que para aí se comenta dói mesmo.

  4. Fernando says:

    Os liberais julgam-se muito inteligentes mas a realidade prova constantemente a sua estupidez e falta de exigência.

    Se o Estado andasse a colectar a informação como o Facebook ou a Google fazem imaginem qual seria a reacção de tipos como João Miguel Tavares.

    No mundo de fantasia do João Miguel Tavares só existe burocracia, incompetência e abusos no Estado, mais valeria deixar tudo aos privados, o que poderia correr mal…

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