Imigrante ilegal, negro, islâmico e herói nacional

Mamadou Gassama é um dos milhares de imigrantes que, todos os dias, arrisca a vida para escapar de um qualquer inferno na Terra, a bordo de uma embarcação frágil e sobrelotada. No caso de Mamadou, foi o Mali, um dos países mais pobres do planeta, apesar de dono da terceira maior reserva africana de ouro.

O Mali é um estado secular, de maioria muçulmana. Ainda assim, existem algumas zonas no norte do país onde a sharia se substitui à lei, o que equivale a dizer que um conjunto de fanáticos interpreta o Corão como lhe apetece e aplica amputações, apedrejamentos até à morte e outras formas de tortura e extermínio. Não sei se Mamadou vivia no norte do país, mas eu nem no sul queria estar, com malucos daqueles à solta. Fugia dali, como o maliano fez. 

Mamadou Gassama chegou à Europa, ilegal. E vocês sabem como nós, europeus, temos tratado quem cá tem chegado nessas condições. Mas Mamadou lá conseguiu chegar a França, onde a sua cor, proveniência e a religião predominante no seu país (mesmo que não a pratique), mais do que nunca, são motivo de alarme. O alarme do populismo, o alarme da ignorância, o alarme do preconceito ou o alarme de medo fabricado por outros fundamentalismos. Mamadou é, para muitos franceses, um alvo a abater. Um preto, um fundamentalista islâmico, um gatuno. O gajo que veio roubar o emprego aos franceses. O gajo que veio roubar os franceses, na rua, por esticão ou assalto à mão armada. O tipo de gajo que arranja uma semiautomática e transforma a redacção de um jornal francês numa escola americana em dia de tiroteio juvenil. Na França civilizada, democrática, na França da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. A Le Pen bem os avisou.

Mas o nosso Mamadou, o emigrante ilegal, negro, muçulmano e proveniente de um daqueles países que o notável Donald Trump carinhosamente apelidou de “shithole countries”, fez algo formidável. Duplamente formidável, se considerarmos a forma como detonou o discurso sectário e racista que vai ganhando terreno em França. O que, ainda assim, não tem comparação com a decisão, também ela radical, ainda que de um radicalismo diferente, de escalar, em poucos segundos, os cinco andares de um prédio em Paris, para salvar uma criança que estava pendurada numa varanda, e que muito provavelmente acabaria desfeita no chão. Um homem olhado com desconfiança por muitos, por simples preconceito ou discriminação, que arriscou a vida por uma criança caucasiana, o que para alguns radicais da sua terra equivale a ser pecadora, infiel e merecedora da pena capital.

Considerando as centenas de milhares de imigrantes ilegais que todos os anos entram em França, Mamadou Gassama será um raro exemplo de um herói nacional, merecedor de figurar na capa de todos os jornais em França, e não só. Como raros são aqueles que decidem armar-se até aos dentes, para levar a cabo uma carnificina numa qualquer praça parisiense. Sim, foram 14 atentados, só desde 2015, entre eles o massacre do Bataclan. Mas é bom recordar que falamos de algumas centenas de milhares de imigrantes ilegais, que entraram no país na última década, muitos deles provenientes de antigas colónias francesas, como é o caso do Mali. A larga maioria destas pessoas, independentemente da sua cor, religião ou etnia, fugiu para França em busca de uma oportunidade para trabalhar, constituir família, viver em paz, ter acesso a bens de primeira necessidade e ser feliz. Mas persegue-os – e acaba por contribuir para a radicalização de uns quantos – o estigma da xenofobia. A ideologia simplista e fundamentalista da extrema-direita que mete tudo no mesmo saco. A agenda política de dividir para reinar. A hostilidade da putativa supremacia racial. Alguns deles dizem-se homens de Deus, que foi precisamente quem Mamadou acusou de o ter ajudado a salvar aquela criança. Só que o Deus dele é diferente, apesar de, alegadamente, também ter boas ideias.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “É africano, negro, muçulmano e salvou 15 judeus de um ataque de um radical islamita, em Paris. Lassana Bathily é o símbolo da tolerância entre povos e religiões que emerge dos dias de terror vividos em Paris, esta semana”

    A França está cheia de gente como Mamadou e Lassana. A maioria deles vêem cheios de esperança e “boa fé”, na ânsia de encontrar na Europa a “salvação”, talvez não tanto da alma, mas da miséria e escravidão.
    Por cá já há uns Mamadou’s e uns Lassana’s da terceira geração, nascidos em França, criados nos bairros marginais para onde ninguém quer ir, em especial os imigrantes que se conseguiram “encaixar”, na sociedade francesa.
    O terrorismo tem causas diversas e remotas. Mas tem acima de tudo uma causa próxima. A rejeição. Um “animal” rejeitado ou acossado é sempre um potencial agressor, quanto mais não seja por instinto de sobrevivência. A seguir vem o ódio. O resto está à vista de todos.


  2. A parte de um pais mais pobre do planeta mas com a terceira maior reserva de ouro fez-me lembrar o Portugal da grande noite, em qum mandava tinha esse fetiche de juntar ouro, mesmo sendo o país pobre parecia que era rico

  3. José Almeida says:

    Gassama esqueceu-se que era emigrante ilegal e não conseguiu controlar o seu instinto. Talvez esse mesmo instinto que o fez fugir do Mali. Ele quando viu a criança só pensou em a salvar da mesma forma que fugiu do Mali….. sem olhar para traz, sem medo, a sua morte era menos importante que o seu objectivo. A este acto heróico devemos juntar os milhões de votos que vai tirar à extrema direita populista. Será bandeira para Macron, mas isso é um mal menor.
    Gassama fez mais pelo Mali que algum dia as reservas de ouro farão. Os heróis não se fazem, nascem.
    Desejo-te uma longa vida MAMADU GASSAMA


    • Junto-me a si, José Almeida, na forma simples, sucinta e incisiva no essencial que colocou nas suas palavras.
      Comovida felicito-o, assim como a João Mendes por este excelente post e tb ao Rui Naldinho pelo seu comentário.

      ….assim o mundo fica um pouco melhor.

  4. Antonio Medeiros says:

    É impressionante que um país tenha grandes reservas de ouro ou outras riquezas e o povo passe tantas necessidades vivendo ao lado destas riquezas ,que são exploradas pelos países “desenvolvidos” e tornam o povo uns famintos e miseráveis. Há pouco,foi publicada cá no Brasil uma notícia em que o Sr. Holande fez um acordo que permitia a França a se intrometer em três países africanos, provavelmente este é um deles, para “libertar o povo” da ameaça de extremistas.Não houvesse ouro lá e outros minérios valiosos que o povo seria entregue às suas dificuldades.Supremo descaramento!

    • Paulo Marques says:

      É olhar para Timor: faz tudo como o Banco Mundial e o FMI dizem e arriscam-se a estar na mesma quanto o petróleo acabar.

  5. Bento Caeiro says:

    Se há coisa que sempre me aborreceu foi a frase “Isso não é lá muito cristão” – também sei que haverá, certamente, a frase “Isso não é lá muito muçulmano” e outras do mesmo teor, conforme a teologia ou ideologia.
    Por duas razões:
    – primeira, lembramos-nos certamente do que foi o cristianismo e o mal que fez às suas populações e a outras que não eram tidas como cristãs; o mesmo acontece – como muito bem sabemos – com o islamismo;
    – a outra razão, se é verdade que uma religião pode influenciar e determinar o comportamento de uma pessoa, o certo é que a pessoa de bem não é determinada pela religião que professa.
    Concluindo, existe gente de bem e de mal em todas as religiões. Mas, também, não nos iludamos, uma boa ou má acção, hoje, não implica necessariamente a mesma atitude futura. Até porque, como se sabe, as prisões estão cheias de gente boa, que praticou, em dado momento, uma má acção; mas que, também, já havia praticado boas acções.

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