Anáfora para governantes e “opinólogos” políticos

[Santana Castilho*]

Num final caótico de ano escolar, é necessário impedir que a informação falsa seja mais rápida que a verdadeira e a política seja confinada ao quarto escuro da manipulação. Daí a anáfora que se segue, particularmente dedicada a António Costa, Alexandra Leitão, João Costa, Lobo Xavier, José Miguel Júdice, Fernando Medina, Pedro Silva Pereira, Pedro Marques Lopes e Miguel Sousa Tavares.

  • Não é verdade que a contagem de todo o tempo de serviço prestado pelos professores signifique um encargo de 600 milhões de euros. O número que António Costa referiu no Parlamento (e virou mantra nos jornais e televisões) foi colhido da leitura apressada (ou maliciosa) do Programa de Estabilidade 2018-2022. Acontece que tal número diz respeito ao descongelamento de todos os trabalhadores públicos, que não só dos professores. Desagregando estes, estaremos a falar de 380 milhões. Significativamente, o Ministério das Finanças já começou a corrigir as suas contas: os custos de 2018 já passaram de 90,2 para … 37 milhões.

  • Não é verdade que alguma vez os professores tenham exigido pagamento de retroactivos. A contagem de todo o tempo de serviço prestado só é reclamada para efeitos futuros, sendo que os docentes propõem que o respectivo impacto seja acomodado de 2019 a 2023.

  • Não é verdade, como afirmou António Costa, que o compromisso do Governo seja apenas descongelar as carreiras e que em nenhuma carreira tenha havido recuperação do tempo do congelamento. Citando Churchill, quando António Costa fala dos professores, o que diz parece “uma adivinha, embrulhada num mistério, dentro de um enigma”.

  • Não é verdade que Alexandra Leitão tenha falado de factos no artigo que escreveu no Público. Ela falou de fictos. A memória de passarinho da secretária de Estado fê-la esquecer que no texto do compromisso consta “o tempo” e não apenas “tempo” a recuperar. Letrada que é, só em deriva ficcional pode reconhecer que o compromisso assume a “especificidade da carreira docente” para, do mesmo passo, se enlear numa espúria tentativa de a anular como carreira especial (à semelhança dos militares, polícias, magistrados, médicos e enfermeiros), indexando-a à carreira geral da função pública. Mas, mais grave que isto é esta doutora em leis ignorar os dois factos que importam: discutir a semântica do compromisso tornou-se irrelevante quando a Lei do Orçamento de 2018 (artigo 19º) estabeleceu que “o” tempo a recuperar não é matéria a negociar, mas tão-só o prazo e o modo de o fazer, em função das disponibilidades orçamentais; o esbulho que Passos iniciou e Costa quer eternizar, só passou no Tribunal Constitucional sob condição de ser transitório, que não permanente.

  • Não é verdade que a infeliz nota informativa da DGEstE tenha pretendido apenas esclarecer normativos em vigor (declarações de João Costa). Fora ele carpinteiro de toscos e não secretário de Estado, e eu aceitaria que desconhecesse o que reza a portaria nº 243/2012 e o despacho normativo n.º 1-F/2016. Assim, tratou-se antes de um expediente vil (como tal participado à Procuradoria-Geral da República) para impedir uma greve legítima.

  • Não é verdade que os docentes progridem na carreira de modo automático. Para progredirem, os professores têm de: obter classificação mínima de “bom” na avaliação de desempenho; frequentar com aproveitamento formação contínua certificada; submeter-se a avaliação externa (aulas assistidas); conseguir passar pela porta estreita das vagas limitadíssimas definidas pelo Governo, para o acesso ao 5º e 7º escalões.

  • Não é verdade que os professores portugueses são os mais bem pagos da OCDE. Convém recordar que os seus salários líquidos variam entre um mínimo de 1.025,43€ e um máximo de 2.207,47€. Convém recordar que entre estes dois valores medeiam uns teóricos 34 anos de carreira (reais 48), o que explica que, actualmente, não exista um único professor a receber o salário correspondente ao último escalão. Convém recordar que milhares de professores estão há mais de uma década no primeiro escalão e a maior parte deles jamais chegará aos superiores.

  • Não é verdade que Portugal tem ministro da Educação. Portugal tem um factotum de Centeno, uma espécie de Lola do Simplex, que vai à bola a Moscovo quando a Educação arde em Lisboa.

*Professor do ensino superior

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    “Num final caótico de ano escolar, é necessário impedir que a informação falsa seja mais rápida que a verdadeira e a política seja confinada ao quarto escuro da manipulação.”

    Ãh? Como diz que disse?… Ãh?…

    Só retenho, eu e a população no geral – com excepção, óbvia dos professores: “Num final caótico de ano escolar”.
    Contudo, tenho visto, tal como agora, os professores a tentarem vender a sua versão e ninguém a comprá-la.

    O que significa que os vossos esforços, face às medidas no passado recente, de austeridade, que atingiram todos, e que apenas os funcionários públicos e os professores querem recuperar o perdido, é uma atitude tão mal-vista pela população que, quanto mais mexerem no assunto, mais mal ele cheira e a população se vai afastar – criticando – a vossa posição sobre o tema.

    Obviamente que a greve, e o que se passou em torno da mesma, só veio confirmar tudo isto.

    • Paulo Marques says:

      Como, “apenas”? Os trabalhadores do privado não tiveram aumentos, a começar pelo salário mínimo?
      Os trabalhadores do público também… a saírem, inclusive para fora.

    • António Fernando Nabais says:

      “eu e a população em geral” – o Bento vai tomar um café e fica feita uma sondagem. Espectacular!

      • Rui Naldinho says:

        O Bento Caeiro às vezes parece-me o Perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, um tal Cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI.
        Tem uma fé inabalável nas suas convicções, mesmo que, não tenha plena certeza da existência dos factos. É tudo uma questão de Fé, e não de realidade.
        Deixemo-lo na paz dos anjos!

        • Bento Caeiro says:

          Pois, também há, entre outros, o Bando Stor do Politicamente Correcto:
          O Marques – à velha moda e manha estalinista – desvia o pico ao prego para confundir, porque não percebe ou faz que não percebe e então quando se fala em recuperação – obviamente do que foi retirado a todos – amanda com os aumentos do ordenado mínimo, como se isso fosse a mesma coisa que os funcionários públicos e os professores querem.
          O Stor Nabais sabendo, mais que à evidência, como as reivindicações dos professores são mal-vistas e impopulares, vem para a aqui com a mesma lenga-lenga.
          Quanto ao Naldinho, saiba que as minhas convicções são isso mesmo convicções e assentam em factos, ou quererá dizer que as acções levadas a cabo pelos professores – de pura extorsão, a que querem submeter o Estado, o contribuinte – são aceites pela população com agrado e aplauso? Nesse caso, só posso dizer que serão surdos e cegos.
          Calhando, deviam era terem ido para magistrados, porque com essas qualidades – com palas, surdos e cegos – prestariam um bom serviço à justiça que temos.

          • Paulo Marques says:

            “e assentam em factos”

            E onde estão esses factos? Onde está uma comparação de ordenados entre público e privado? Onde está o estudo de quadros técnicos que fugiram do estado? Eu conheço vários “preguiçosos” da EMEF que estão a ganhar como merecem, e noutras áreas também não faltam.
            Extorsão só conheço esta.

            http://ec.europa.eu/eurostat/en/web/products-press-releases/-/3-31052018-AP

          • António Fernando Nabais says:

            É-me indiferente que as reivindicações dos professores sejam malvistas, menino Bentinho. De qualquer modo acho graça aos meninos que sabem tanta coisa que não podem demonstrar e que gostam de falar do que não sabem. O Bentinho é o Miguel Sousa Tavares das caixas de comentários.

  2. João says:

    Venha a nós o vosso gito, assim nas escolas como nos liceus

  3. Luís Lavoura says:

    Acontece que tal número diz respeito ao descongelamento de todos os trabalhadores públicos, que não só dos professores.

    OK, mas, como é que você consegue descongelar os professores e evitar fazê-lo aos restantes trabalhadores públicos também? Com que argumentos aceita descongelar uns mas não os outros? Não pode!!! Se se descongela os professores é-se também obrigado a descongelar os restantes trabalhadores públicos.


  4. …..ufa !!! outra vez os professores ???????? !!

    : D !!!

    • António Fernando Nabais says:

      Pois é, é tudo muito maçador. É isso e ler e pensar. Ufa!

  5. Professora muito zangada says:

    Pois é, espera-se que a classe profissional que forma os futuros cidadãos, que os ensina a pensar e a serem críticos e interventivos, seja ela própria acrítica e passivazinha, que não lute pelo que considera justo, enfim, que não chateie.
    Vivemos tempos perigosos numa sociedade doente…

    • Bento Caeiro says:

      “…que forma os futuros cidadãos, que os ensina a pensar e a serem críticos e interventivos…”

      Ãh!

      ehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehee, e paro porque já me dói a barriga de tanto rir.

      Presunção e água, é aquilo que a gente já sabe.
      Quando nem o básico conseguem fazer, que é transmitir algum conhecimento, criando um ambiente de disciplina.

      • Paulo Marques says:

        Então transmite quem? Os seguranças e a polícia que batem nos imigrantes? Os empresários que dependem de salários cada vez mais baixos para tentar competir?
        Já sei, os portugueses são tão excepcionais que destruíram a iliteracia em pouco tempo só com força de vontade. Ou isso ou o PISA foi subornado.

        Diga lá os factos, que é para a gente perceber.


  6. Reformado desde Fevereiro 2012
    Diário da República, 2.ª série — N.º 5 — 6 de janeiro de 2012
    MANUEL HENRIQUE SANTANA CASTILHO
    PROFESSOR COORDENADOR INSTITUTO POLITÉCNICO SANTARÉM
    € 3 841,80
    Queixa-se de quê?

    • António Fernando Nabais says:

      Pelo que li, não se queixa de nada. E poderia escrever sobre Educação e sobre professores mesmo que fosse milionário.

    • Paulo Marques says:

      Da falta de um estado de direito com respeito pelos seus cidadãos e por si próprio.