Coimbra, maré baixa

Quando era professor na E.S. Jaime Cortesão, dizia que tinha o privilégio de trabalhar num monumento e ter o melhor pátio de recreio que podia desejar, a Baixa de Coimbra. Já nos meus tempos de estudante e durante muitos anos foi a minha “sala de estar”, como a de muitos amigos. Os cafés e esplanadas – onde todos éramos democraticamente promovidos a doutores a partir dos dezoito anos – , onde as palavras voavam livres e aprendíamos mais que nos bancos da Universidade – e, por vezes, os mestres eram os mesmos -, mesmo em frente da porta de algumas das melhores livrarias do país, os livros lidos à sombra benévola dos velhos prédios da Ferreira Borges e da Visconde da Luz – “Faltou a luz na rua Visconde da mesma”, lembram-se? -, às vezes encadernados para não despertar curiosidades duvidosas, o copo e o petisco num daqueles lugares que talvez não passasse hoje numa vistoria da ASAE, enfim, um habitat propício ao desenvolvimento mental da espécie. Tudo quanto foi importante, passou por ali: manifestações, lutas, festas, vida, enfim. Até há não muito tempo.

Baixa de Coimbra, Maio de 2018 (foto: jmc)

Dou por mim, agora, a evitar o mais que posso essas paragens. Não porque me comova a nostalgia – sou pouco dado a saudosismos – de tempos idos, mas porque me custa ver aquilo que, antes, era considerado um espaço nobre da cidade, no estado deplorável que dia a dia se agrava. Ocorre-me este desabafo porque acabei de chegar de uma ida, por obrigação, a esses lugares e, entre lojas, serviços, bancos e até caixas multibanco, tudo fechou. As livrarias e discotecas, essas, já tinham partido há muito. Tudo apresenta um ar sujo, decrépito. Restam apenas algumas lojas resistentes, taipais e papéis nas montras e janelas, multiplicam-se os comedouros e lojas de de “true portuguese souvenirs”. Alguns cafés clássicos ainda resistem, mas o largo da Portagem está transformado numa pocilga de esplanadas que, por excesso de ocupação, apresenta um ar abominável, com lixo pelo chão que a brisa que corria fazia passear pela calçada. Furgões de cargas e descarga a horas absurdas, tuc-tuc com condutores “chega p’ra lá” agravam a paisagem. Até os músicos de rua – como que fazendo corresponder a sua falta de arte ao ambiente – que me couberam hoje, eram intragáveis – ó gente, se querem tocar e cantar para os passantes convinha que acertassem alguns acordes.

Não, não vou culpar a multidão de turistas que por lá circulava, de nariz no ar, talvez interrogando-se porque raio aquela cidade lhes tinha sido tão recomendada. Não, a culpa não é de quem visita, é de quem recebe. Coimbra queria turistas. Têm-os. Mas não mexe um dedo para merecê-los. Saca deles o que pode e trata-os, e aqui é que bate o ponto, tão mal como trata os seus cidadãos. E uma cidade que não cuida da felicidade dos seus habitantes, não cuidará da dos visitantes, mesmo que pareça fazê-lo. E está destinada a perder o melhor de uns e outros. Ou, dos que ficam, restarão os que se retiram para uma espécie de “Vale de Lobos” urbano. E descobrem que, por lá, se reencontram amigos e companhia, lugares habitáveis, enfim, reinventam a cidade que amam.

Sei que há “muitos factores que explicam o que se passa” e de todas as justificações da ementa de desculpas habitual. Mas também sei que se as cidades não podem impedir o inevitável podem remediar, podem resistir. Podem, até, superar e transformar os problemas em oportunidades. Mas isso exige lideranças de outra tempera.

Assim seja – um dia.

Comments


  1. Chi, até fiquei com uma lágrima (de crocodilo…) quando li o texto, exuda saudosismo, do antigamente é que era bom, sou coitadinho não pude (ou não quis por comodismo) fazer nada para contrariar a mudança. Paciência, os tempos mudam mudam-se as vontades e o estado das coisas, cidades que eram relevantes deixam de ser, e queixamo-nos que as cidades nada fazem, quando elas são o que as pessoas querem, e quando elas nada fazem as cidades de certeza deixam de ser o que elas gostariam que fossem. E é assim, Coimbra ainda é algo por causa dos turistas e de uma universidade cada vez menos relevante e cada vez mais anquilosada e presa no passado. Viveram sempre à sombra da universidade, perderam o monopólio, deslizam lentamente mas seguramente para a insignificância, sem indústria e empregos. E não caem da cadeira porque as cidades não se sentam em cadeiras…

    • ZE LOPES says:

      Sentam, sentam! V. Exa vai ver como se vai espalhar a tripa (1)!

      (1) Do Porto! Não a de Aveiro! Oh! Oh! Vou lá eu e papo-as todas!

    • j. manuel cordeiro says:

      “exuda saudosismo, do antigamente é que era bom”

      Fala assim quem não conheceu Coimbra de há uns anos, não muitos, basta recuar até 2000, e quem a vê agora. A Baixa está morta.


      • foi como no Porto, e no Porto acabou por haver renovação, que começou antes da grande vaga do Turismo. Ter mais população e indústria à volta da cidade, não ter uma universidade tão ommipresente e com vida para além disso ajuda, agora até os melhores alunos não vão para Coimbra, vê-se isso claramente nas médias de entrada, ajuda é certo, mas sinto que as pessoas de Coimbra estão acomodadas e câmara/boys também. O que se passou com o metro da Lousã foi patético, alimentou boys na prática. A candidatura a património da Unesco foi arrastada, no Porto foi vai-se em frente e logo se vê, e deu frutos. A ideia do aeroporto pode ser boa mas sinto que existe um risco grande de se tornar como o de Beja, não servir para nada, não vi ainda estratégia, quando foi proposta a ideia na campanha eleitoral pareceu que caiu do céu, arrisca-se a ser uma ideia que serviu para enganar cornos mansos. Como diria Mark Twain, Se o mundo acabar quero estar em Coimbra visto estar sempre 20 anos atrasada, e eu quando penso em Coimbra essa expressão aparece-me muitas vezes na cabeça (a expressão original é sobre Cincinnati e se é 10 anos ou 20 anos depois ainda existe alguma discussão sobre isso, https://quoteinvestigator.com/2012/03/20/end-of-world-time-lag/ e https://eu.cincinnati.com/story/news/history/2016/02/18/adventures-huck-finn-published-today-1885/80545822/)

        • j. manuel cordeiro says:

          Exacto. Coimbra tem sido a Universidade, mas o engraçado é ver como a Câmara lida com isso, quantas vezes em dissonância. A cidade dos Lentes, que não soube encaixar o facto de terem abrido fábricas de Doutores, nem todas más, um pouco por todo o lado.

          A situação da linha da Lousã e dessa miragem do metro
          é como a descreve. Diria até mais, é pior. Há crime ali. Mais um tiro na justiça – mas estes já são tantos que as balas até já passam pelos buracos anteriormente abertos.


          • Tiveram de abrir outras fábricas de doutores para bem do país, eu às vezes dou o exemplo do monopólio universitário em Portugal como um dos factores de atraso do país, os países evoluem com o aumento do nível de formação das pessoas. monopólios são maus sempre a longo prazo, e criam depois tradições e comportamentos que são maus e inadequados. E vê-se agora, a Universidade de Coimbra sendo monopólio foi piorando porque não precisava de ser melhor e inovadora, acabou por ficar longe dos dois pólos económicos do país e perdeu grande parte da sua relevância. Eu sei que está a reagir mas vai custar a ser relevante outra vez, e certos comportamento como a endogamia reinante, que chega a ser familiar na Faculdade de Direito vai ter de acabar.

          • PT.PT says:

            “terem abrido” ???????


  2. ” Mas isso exige lideranças de outra tempera”

    Pois é, José Gabriel, Coimbra tem sido atraiçoada por várias lideranças autárquicas (PS e PSD ) ao longo dos anos, e de que maneira, e sempre de acordo com o que se tem passado politicamente e mediocremente no país.

    Para quem nasceu e viveu nesta Coimbra de outros tempos mais genuína castiça e sadia mesmo que imperfeita, a qualidade de vida dos munícipes desceu de fasquia e de benefício, até no meu caso de pagantes de IMI mais caro na designada -por critérios duvidosos – de zona histórica invadida que está por discotecas nocturnas a céu aberto ( Av Sá da Bandeira) de suposto convívio de estudantes, poluição sonora e zonas pedonais porcas e sujas e em outro aspecto convertida em hospedaria de estudantes ( com respectiva descarada e impune fuga ao fisco…) sendo as zonas residenciais mais aceitáveis as de zonas de vivendas e condomínios privados protegidos por quem pode( sr, presidente da Câmara incl. ) garantir essa qualidade .

    ….sendo eu uma resistente reivindicadora de correção deste estado de coisas junto da CMC e outras entidades, sim que tenho conseguido algum benefício….mas exíguo e temporário, que o que está a dar para a CMC é o turismo de massas e as supostas festas académicas já deploráveis e sem sentido….e as negociatas e lóbis do costume !

    …”, Coimbra ainda é algo por causa dos turistas e de uma universidade cada vez menos relevante e cada vez mais anquilosada e presa no passado…
    Viveram sempre à sombra da universidade, perderam o monopólio, deslizam lentamente mas seguramente para a insignificância, sem indústria e empregos…”

    sendo esse algo que aponta, tripeiropreocupado, uma cidade
    sem alma precisamente por isso.
    Só não fujo desta coimbrinha ( e país) pq não me é possível
    🙁

  3. Luís Lavoura says:

    Eu vou a Coimbra de vez em quando e acho que, ao contrário do que diz este post, a cidade está muito agradável, tem uns lindos relvados e jardins à beira-rio e mais uma praia fluvial que é do melhor que há no país. Na Alta há um restaurante no museu que serve em self-service comida à escolha, barato e muito conveniente para quem tem hábitos alimentares especiais (vegetariano, etc) como os meus filhos.
    Se o autor deste post não gosta da Baixa de Coimbra por lá não haver lojas castiças, então eu sugiro-lhe que deixe de se queixar e que se torne um empreendedor, crie uma loja castiça na Baixa de Coimbra porque, se houver muita gente a pensar como ele, então essa loja irá ser um grande sucesso!

    • j. manuel cordeiro says:

      O Luís Lavoura, quando vai a Coimbra, não deve sair da Rua Ferreira Borges, Quebra Costas e restante roteiro para turista ver. A propósito, a Ferreira Borges está inundada de lojas “castiças”, daquelas que vendem chapéus de cortiça e demais bugigangas que se encontram em qualquer centro “histórico”. Como é delicioso passar por Sintra, Óbidos e Coimbra e poder comprar os mesmos souvenirs. Se calhar, até se poupa a viagem e vai-se à esquina mais próxima.

      Mas passe o Luís Lavoura pela Baixa, por exemplo pela Rua da Moeda ou pela Rua Eduardo Coelho, para constatar o deserto em que aquilo se transformou. São lojas fechadas umas após as outras. Basta recuar 15 anos para ainda se lá ter encontrado o centro comercial da cidade.

      Os jardins são os mesmos de há décadas. Na verdade, desde que a cidade inventou o Queimódromo, esse conceito estapafúrdio, que nada de substancial acontece ao nível de espaços verdes.

      A cidade tem vindo a morrer em muitos aspectos e este é só mais um. Não deixa de ser factual, no entanto.

  4. ZE LOPES says:

    “crie uma loja castiça na Baixa de Coimbra porque, se houver muita gente a pensar como ele, então essa loja irá ser um grande sucesso!”.

    Oh, Lavoura! E a concorrência?

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