Vida animal

Os documentários sobre a vida dos animais sempre me pareceram abomináveis. Seja qual for a espécie retratada, os guiões tendem a ser iguais. Começam por apelar à nossa benevolência: aqui vemos uma jovem gazela, terna, vulnerável, feliz, a dar os seus desajeitados primeiros passos, a bebericar água no lago, a aprender os rudimentos da vida na luminosa savana. Corre, brinca graciosamente com as outras gazelas, fixa por vezes a câmara como se soubesse que a observamos e quisesse piscar-nos o olho. Atingido o ponto em que a nossa simpatia pela gazela não pode ser maior, o tom monótono do locutor altera-se:

“Mas, na savana, há sempre perigos à espreita! Ali perto, uma experiente leoa espreguiça-se e prepara-se para caçar.”

Agitamo-nos na cadeira, mas ainda agarrados à crença, bem nutrida pelos filmes de Hollywood, de que o argumentista não se atreverá a tocar a nossa gazela, a heroína da história. De nada nos serve. Em choque, vemos a perseguição, o abocanhamento, o estertor final da gazelinha. Chorosos, ressentidos, ouvimos o remate moralizador como quem recebe a chapada final: “É esta a lei da selva”. Como existe, entre muitos adultos, o estranho hábito de recomendar estes documentários às crianças, porque entendem que tudo o que é “natural” é sadio, esta é uma lição que aprendemos cedo. O objecto da nossa simpatia é estraçalhado à nossa frente e convertido num naco de carne. É assim a vida.

Conquistada a simpatia do espectador pela presa, introduz-se na história o predador. É o caminho mais curto para explicar aos ingénuos “lá em casa” que, na vida, triunfam os mais fortes. Poderá haver uma gazela à qual toque ser perseguida por uma leoa velha e coxa, ou que receba uma ajuda imprevista sob a forma de um raio que racha ao meio a árvore que se abate sobre o predador, enfim, um golpe de sorte que adia a sua captura, mas não põe em causa a ordem das coisas.

Odiei fervorosamente estes documentários em criança, já se percebe. E até desenvolvi um certo preconceito contra os seus entusiastas. Hoje, percebo que têm algo de litúrgico. O fatalismo da lei da selva tem um efeito tranquilizador. Dali pode saltar-se directamente para o “Wall Street”, e não lhe ver diferença alguma. Há quem nasça para gazela, há quem nasça para leoa. É assim a vida.

Um dia destes, talvez até se comece a fazer documentários sobre seres humanos que sigam o mesmo guião:

“Este é o Tó Zé. Tem uma namorada nova e um emprego estável. Tem amigos e goza de boa saúde. Tó Zé sente-se feliz e optimista. Aí vai ele, pela manhã, a caminho de uma reunião de trabalho, enquanto olha despreocupadamente para o seu smartphone. Mas, na cidade, há sempre perigos à espreita. Ali perto, um autocarro sofre uma avaria nos travões…”.

O remate, está-se mesmo a ver, só poderá ser: “É assim a vida.”

Comments

  1. Ana A. says:

    Muito bom!
    Partilho esse sentimento!

  2. JgMenos says:

    Pensar que alguns milhões de anos atrás um seu antepassado resolveu passar de fraco a forte e transmitiu essa motivação às gerações seguintes, talvez o anime a seguir essa missão.

    Mas suspeito que sempre esperará que alguém o faça por si.

    • ZE LOPES says:

      Onde é que V. Exa. foi buscar tão intrigante teoria, imbuída, atrevo-me a referir, de um certo pessimismo pré-histórico? Foi em alguma pintura rupestre que encontrou lá na caverna?

      Ou descobriu alguém de família na foto? Refiro-me ao que está por detrás do animal, obviamente!

  3. ZE LOPES says:

    Já agora: para quando um documentário sobre a extraordinária saga de JgMenos e a sua inacreditável sobrevivência numa selva infestada de esquerdalhos? É urgente passar às gerações seguintes esta extraordinária lição de vida! Do que é que estão à espera ó gente da RTP? Para que serve a taxa do audiovisual esmifrada aos contribuintes?

  4. Tito Adriano says:

    Só me ocorre isto, oh Carla Romualdo: eh, eh, eh!
    Embora ao contrário de si goste – bastante – desse tipo de comentários. E fico sempre á espera de ver a dita gazelita esfrangalhada na boca do leão. É que, quando um tipo vê esse género de comentários deve vê-los na pele do predador e não da presa. Pelo menos é assim que faço.
    Já quanto à vida real, muita vítima dos azares que lhe caiem em cima é-o porque vota nos que lhe lixam a vida. Também não tenho pena dessas presas, so to say.
    Cordialidade!
    Titus Adrianus
    PS: conheço um Romualdo, engº e professor, brilhante, a viver no Porto (sua cidade de origem, embora tenha estado em tempos pelos States. É familiar dele?)

    • Ana A. says:

      “É que, quando um tipo vê esse género de comentários deve vê-los na pele do predador e não da presa. Pelo menos é assim que faço.”

      Ditado popular: “Um dia é da caça outro do caçador!”

      Existem seres humanos, que em termos de evolução, ainda se encontram no patamar Cro-Magnon…

  5. Anonimus says:

    Gosto de ver documentários sobre animais, sempre gostei.
    Se calhar porque humanizei os bichinhos, não vejo o bambi como o bom da fita e o leão como o vilão.
    Mas isso sou eu que tenho um cão, e o trato como animal de estimação e não membro da família.
    E que acho que o javali anda bem à solta no monte, mas não fica nada mal no prato.


  6. é como na praxe em Coimbra, Idiotas, grunhos, e os piores alunos tem oportunidade de mandar e se comportarem como piscopatas na praxe, filme já conhecido de uma tradição abjecta


    • 5 * !!!!!

    • ZE LOPES says:

      E no Porto, não há praxe? Pior, há praxe e Pinto da Costa! É a chamada Praxe Permanente!


      • É fortemente desaconselhada dentro da universidade, há Faculdades em que é mesmo vista como uma coisas de grunhos e idiotas presos no passado (Faculdade de Arquitectura e Faculdade de Belas Artes), e houve faculdades que, pelo facto de o conselho de veteranos ter limitado o acesso às celebrações da queima das fitas se desligaram das comemorações (Faculdade de Engenharia há uns anos atrás). E há actividades de integração dos alunos fora das praxe… Eu pessoalmente se vejo um pinguim apetece-me cuspir em cima dele, e há cada vez mais como eu. A abolição está a ficar cada vez mais próxima, a garraiada já acabou, é preciso seguir em frente e acabar com estas tradições de antanho que promovem os incompetentes e os psicoptas. E em relação ao Pinto da Costa, a inveja pelos resultados do trabalho alcançado, sobretudo europeus, fez nascer toupeiras, vamos ver até que ponto este é um mais um caso em que a cobardia, coisa tão portuguesa, como por exemplo acontece com o doutor professor de Direito Ricardo Costa, esconder-se atrás de um e-mail para fazer o que fazia, deve ser a praxe.

        • Anonimus says:

          Desaconselhar fortemente é um bom eufemismo para “façam o que quiserem, mas tentem não dar muito nas vistas”.

          Confundir praxe com pinguins é mesmo de grunho que, de praxe, conhece o que lê no CM.

          Salvem os pinguins, ou, dêem-lhes asilo em Vigo, no mínimo.

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