Manicura São Bento, arranjamos unhas no Parlamento

Já acompanhei alunos em visitas à Assembleia da República. De uma maneira geral, ficam espantados com o comportamento de alguns deputados que, enquanto alguém está a discursar, passeiam pelas bancadas, lêem o jornal ou conversam em pequenos grupos de costas para o púlpito. Numa dessas ocasiões, um aluno chegou a dizer-me: “Se nós fizéssemos o mesmo, o professor marcava-nos falta disciplinar.”

Na sala de aula, já, por várias vezes, fui obrigado a censurar comportamentos, o que faz parte do ofício, como é evidente. Entre outros, dei por mim espantado com uma aluna a pôr creme nas mãos de uma colega, acto que foi interrompido prontamente, ainda que com algum espanto por parte das minhas vítimas.

Isabel Moreira foi fotografada a pintar as unhas durante o debate do Orçamento. Não me parece pior do que estar a conversar enquanto outra pessoa fala. Parece-me igualmente mau. Entretanto, alguém defendeu a deputada, afirmando que há deputados que lêem o jornal no Parlamento. O problema está, evidentemente, em ter defendido o comportamento da deputada.

É demasiado fácil dizer mal dos deputados e desprezar a importância do seu trabalho – o que os torna estranhamente próximos dos professores -, mas a verdade é que estamos a falar de pessoas que foram eleitas pelo povo e que devem encarar a sua presença no Parlamento tendo em conta que são observados e que, portanto, servem de exemplo. Se um dia alguém estiver a pintar as unhas numa aula, serei obrigado a dizer qualquer coisa como “Mas já chegámos ao Parlamento?!”

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Thumbs Up!

  2. Paulo Marques says:

    O jornal sempre é menos mau, sempre se estão a actualizar sobre o seu trabalho. O verniz rouba menos atenção, mas é um bocadinho falta de respeito por não ter nada a ver com a função.


  3. Se no parlamento se trabalhasse não havia tempo para pintar as unhas ou estar no Facebook. E o problema é esse, no parlamento não se trabalha, não se ensina nem se aprende. E se fosse uma empresa que tivesse que ser produtiva despedia-se metade daquela gente toda porque efetivamente não fazem a puta dum corno.

  4. Rui Naldinho says:

    No parlamento faz-se tudo aquilo que se faz nos outros lados. Seja no público, seja no privado.
    Até coçar o escroto, em dia de muita transpiração na zona das virilhas. Ainda há dias vi umas imagens de um parlamentar português em Estrasburgo, numa sessão do PE, a tirar catotas do nariz. Desconheço se aquilo não será mais umas das montagens cinematográficas das nossa Redes Sociais. Mas que ele não se livra do odioso, lá isso não.
    A mediatização dos parlamentos, torna os deputados e funcionários mais expostos ao radar social, logo mais vulneráveis aos olhares recriminatórios de quem os vê, numa espécie de reality show.
    Não estou a desculpá-los. Parece-me incorreto. Só que isso para mim pesa muito menos do que aqueles cozinhados que eles lá parem, para nos fornicar a todos. Isso sim, deixa-me completamente “Quilhado”!


  5. A Isabel Moreira tinha obrigação de saber que uma coisa desta num partido da “geringonça” jamais passaria incólume. Pensará ela que teria a mesma benevolência de que beneficiam outras bancadas? Sobretudo aproximando-se eleições, era bom que esta malta tivesse juízo e fosse extra-cuidadosa quanto a este tipos de coisas.

    • Rui Naldinho says:

      Ora aqui está um comentário lúcido.
      “E logo a Isabel Moreira que é toda fracturante”.
      Juizinho, precisa-se…

  6. Torquato says:

    Pessoas que passam as 8 horas de trabalho sem fazer nada no Twitter ou no Facebook, que é como quem diz nas “redes sociais”, alguns, muitos, avençados em organismos públicos e câmaras municipais;

    pessoas que passam as 8 horas de trabalho sem fazer nada no Twitter ou no Facebook, que é como quem diz nas “redes sociais”, alguns, muitos, funcionários públicos porque sim e pelo mestrado do cartão do partido, a fazerem cada três o trabalho que podia ser feito por um no privado que tanto elogiam, com horário de entrada ás 9, chegada ás 9 e meia e pausa de 20 minutos ás 10 para o cafezinho e um cigarro sentados de esplanada, a criticarem uma deputada por pintar as unhas na hora de trabalho.

    Não ter a puta da vergonha na cara é isto.

  7. Luís Lavoura says:

    Discordo do António.
    Pôr creme nas mãos ou pintar as unhas em nada perturba os outros. Falar sim, é muito grave, pois perturba.
    São comportamentos perfeitamente admissíveis quer numa sala de aula, quer no Parlamento, quer num teatro ou sala de concertos, etc.
    Fazer barulho é que não!
    Ademais, o facto de estar a pôr creme nas mãos ou a pintar as unhas não impede que esteja com atenção àquilo que o professor, ou outra pessoa, está a dizer.

    • Carlos Almeida says:

      Completamente de acordo Sr Lavoura
      Eu acrescentaria a “Fazer barulho é que não!”, com ter os telemóveis ligados e a tocar e pior atender os mesmos.
      Mas o pior é “não estar com atenção a quem fala”, seja la quem for, seja um professor, parlamentar ou padre na Igreja, mesmo que não se concorde minimamente com o que diz, o que me acontece frequentemente nos funerais de familiares ou amigos.
      A isso tudo chama-se civismo e não chega dizer que somos um Pais Europeu, quando não há civismo no dia a dia das pessoas
      .

    • António Fernando Nabais says:

      Luís Lavoura, a vida em sociedade é feita de muitas convenções escritas ou por escrever. É certo que gestos não implicam necessariamente ruído, mas as convenções estipulam que são mais íntimos ou menos íntimos, que devem ser resguardados ou públicos. Pergunto-lhe se acharia bem que alguém se maquilhasse durante uma aula ou que coçasse as partes baixas diante de várias pessoas, mesmo com a mão por cima da roupa. Desde que não faça barulho e garanta que está a ouvir, um aluno até pode ler um jornal durante a aula.

  8. António de Almeida says:

    Isabel Moreira deu mais uma modesta contribuição para a credibilidade da classe política. Nada de novo, desde o sec XIX que sabemos quem são. Apenas um reparo, por ser quem é, fosse outra deputada mais à direita, provavelmente a personagem, acompanhada por uma certa cronista, não ficariam caladas. Olha para o que digo, não para o que faço…
    De resto o assunto nem merece grande importância, ainda que tenha mais relevância que a protagonista, que para mim não tem nenhuma.

  9. Manuel Matos says:

    “(….) Entretanto, alguém defendeu a deputada, afirmando que há deputados que lêem o jornal no Parlamento”

    Esqueceram-se, os filho da puta (desenvergonhados do caralho, com/sem unhas), que é diferente ler um jornal e pintar as unhatas da bicha.

    Puta que pariu a bicha e as unhatas da dita puta.

    Bem hajam,

  10. Ana Moreno says:

    O Parlamento é um circo, um rosário de frases demagógicas para fazer efeito. Quando muito, trabalha-se em comissões. As instituições democráticas precisam de uma remodelação de raiz, mas estes tempos são ocos quanto a ideias corajosas e os interesses perpetuam o acomodamento.
    Mas já que assim é, ao menos um mínimo de decência na prática destes rituais arcaicos. Estou contigo, Nabais.

  11. Paulo Marques says:

    Também temos um presidente que gosta de fazer metade das intervenções em tronco nu, mas ao menos consegue comer bolo-rei.

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