Uma preguiça transcendental

Convocaram-me para ir convencer o Professor Castelo a cumprir o plano. Como habitualmente, a sua posição era irredutível. Tentei explicar-lhes que nunca tinha existido uma verdadeira amizade entre nós, apenas um fascínio juvenil da minha parte, que ele retribuiu com uma cortesia excessiva e não isenta de vaidade. E muitos anos haviam passado sem que voltássemos a ver-nos. Responderam-me que isso pouco importava porque já não restava ninguém que lhe fosse mais próximo.

Resignei-me, então, a voltar ao casarão fracamente iluminado e mal aquecido, onde numerosas vezes tropeçara em pilhas de livros e onde sucessivos gatos, que nunca cheguei a distinguir uns dos outros, bufavam à minha passagem como se chamassem “invasora!”. Mas não encontrei nada disso. A casa estava vazia, à excepção de meia dúzia de móveis essenciais, e de uns quantos caixotes que estavam a ser levados para um camião parado à porta.

É o vigésimo quinto camião que enchemos – esclareceu-me o jovem que me recebeu, de rosto meio escondido atrás de um dossier de capa negra, e que se apresentou como “o inventariador”. – Está praticamente tudo. Só falta o homem. Ou melhor, o cérebro.

Indicou-me com o olhar que o dono da casa estava no andar de cima. Subi as escadas com passos pesados, antevendo um diálogo que seria penoso. Que poderia eu dizer a este homem –  que já nem deveria recordar-se de mim – que pudesse convencê-lo?

Fui encontrá-lo de pé, à janela. Voltou-se quando me ouviu entrar.

Ah, já calculava. Lamento que a tenham importunado.

Professor, é um prazer voltar a vê-lo – comecei, não sem sentir-me hipócrita.

Retribuo as suas palavras. Mas quanto àquilo que provavelmente vai pedir-me, digo-lhe já que a resposta é não. Já lhes cedi o meu arquivo, a minha biblioteca. Não terão o meu corpo. Sobretudo, não terão o meu cérebro!

Mas, Professor, como sabe, eles apenas pretendem fazer uma cópia de segurança. Após esse procedimento, que não deverá demorar mais de três ou quatro semanas, poderá retomar a sua vida com toda a normalidade… – repeti a cartilha que todos conhecíamos e pela primeira vez pensei que não fazia ideia se assim era, de facto.

Nunca. – Respondeu-me tranquilamente.

Respirei fundo. Aproximei-me dele.

Que teme, Professor? Receia que algo possa correr mal?

Olhou para mim como se não tivesse entendido a pergunta. Via-lhe agora de perto os olhos de ancião, aquosos, com uma névoa branca já bem desenhada sobre as íris, mas vivos, perscrutadores.

Minha cara, conquistei o direito a não ter medo de nada. Eles oferecem-me excelentes condições, é certo. Depois daquilo a que chamam “a cópia”, enviar-me-iam para uma dessas residências luxuosas onde passaria os dias entre a piscina geriátrica e a cama de massagens. E poderia aceder à minha biblioteca sempre que quisesse, dizem eles. E quando esta velha carcaça já não aguentar mais, haveria “a cópia”, com toda a informação – é assim que chamam a tudo: “informação” – salvaguardada nas fortalezas deles.

E isso não lhe agrada, Professor?

Oh, sim, não nego que há nisso um certo afago à minha vaidade… Mas não fazê-lo, não aceitar nada do que me propõem, resistir… isso agrada-me muitíssimo mais.

Sorrimos. Dei-lhe o braço, descemos com todo o vagar. Transmiti ao inventariador a ordem do Professor Castelo de que todo o processo fosse revertido. Os vinte e cinco camiões teriam de regressar ao ponto de partida para devolver a carga. O Professor não sairia da sua casa. A cópia não seria feita. O inventariador balbuciou protestos incompreensíveis a que não prestámos grande importância. Empurrei-o gentilmente para fora de casa. Quando fechei a porta, estava ele ainda parado frente à casa, atónito, agarrado ao dossier negro como a um escudo contra o primitivismo das criaturas que tinha pela frente.

O Professor Castelo foi sentar-se no único cadeirão que restava. A casa estava um tanto inóspita, mas em breve retomaria o caos que reconfortaria o seu dono. Quando os camiões começassem a descarregar haveríamos de ter um trabalho danado, lá isso era verdade. Mas tampouco havia pressa.


Foto: C. Romualdo – «Dona Gertrudes», Porto, 2017.

Comments

  1. Nascimento says:

    Bendita postada, porra!

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