Distracções

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Noam Chomsky considera Donald Trump uma distracção. E talvez o seja. Enquanto milhões se agarram aos televisores e ao Twitter, para visualizar ou ler a mais recente palermice ou machadada na credibilidade dos EUA, vendem-se armas a facínoras, cozinha-se a próxima crise financeira mundial e o 1% aproveita as borlas fiscais para fazer o seu capital great again, antecipando a época de saldos que chegará quando o próximo Lehman Brothers cair.

O novo fascismo gosta disto porque longe vão os tempos da ditadura convencional. Os tempos são outros e são de redes sociais. O universo das fake news não escolhe ideologias, é certo, mas algumas ideologias têm mais dinheiro do que outras, e quem tem mais dinheiro constrói redes mais eficientes. Sociais, mas sobretudo políticas. Trumps e Bolsonaros, aparentemente implacáveis, mas que não ousam confrontar os donos disto tudo, são o novo circo. E enquanto não houver falta de pão, a coisa anda mais ou menos controlada.

As ligações entre certos meios de comunicação, sejam eles convencionais ou fachadas de projectos dissimulados, e alguns sectores e personagens da vida política portuguesa, algumas delas sem existência pública relevante, mas extraordinariamente influentes no digital, são por demais óbvias para quem conhece o esgoto. Aqui e ali, o jornalismo de investigação começa a dar o ar da sua graça, e essas ligações tornam-se evidentes. Resta saber quando e como se desmoronará o castelo de cartas. Ou se sobrevive, apesar das evidências, através do milagre da multiplicação das partilhas.

Numa das muitas distracções que nos proporcionou nos últimos dias, Donald Trump, que substituiu o pequeno Jeff Sessions por um critico feroz à investigação sobre interferência russa nas eleições americanas de 2016, lançou a teoria da conspiração: os eleitores democratas votam, regressam aos seus carros, mudam de roupa e votam outra vez. Reparem que este insulto ao sistema eleitoral americano não só não afecta os eleitores republicanos, como é aparentemente mais credível do que as inúmeras evidencias que deixam a nu as ligações entre a máquina eleitoral de Donald Trump e o Kremlin do todo-poderoso Putin, que assistiu, de sorriso nos lábios, à autoflagelação em Helsínquia. Outra boa distracção.

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