A Folha Nacional e a arte de perpetuar noticias falsas

O CH recorreu a um truque clássico do populismo fake: lançou uma “notícia” na Folha Nacional, o seu órgão oficial, aplicou-lhe indevidamente o selo de qualidade da Lusa – por discutível que essa qualidade possa ser considerada – e fez passar a sua propaganda como algo de natureza puramente jornalística.

Como sempre acontece com estas coisas, o partido de Ventura foi apanhado, garantiu tratar-se de um lapso – aparentemente, um dos militantes do partido tinha ali um logo da Lusa à mão e meteu-se sem querer na publicação do partido – e corrigiu a peça, uma hora mais tarde. Com um sincero pedido de desculpa. Mesmo do fundo do coração.

Agora é deixar a internet funcionar. A versão fake Lusa da Folha Nacional vai circular infinitamente, convencendo centenas ou milhares da sua autenticidade, e, a determinado momento, o fake passa a ser verdade por exaustão digital. A extrema-direita contemporânea funciona assim. De Trump a Le Pen, de Abascal a Bolsonaro, o estratagema é comum e recorrente. E profundamente eficaz. Um dos muitos motivos para combater esta gente sem contemplações.

Fake news: do Vietnam, com amor

Antigo agente da CIA expõe modus operandi do regime americano, com exemplos práticos sobre como manipular jornalistas para plantar informação falsa, entre outras técnicas e esquemas de disseminação de fake news. Está-lhes no ADN.

Twilight zone bolsonarista I

No caption needed.

Como destruir a propaganda bolsonarista em 80 segundos

A jornalista brasileira Amanda Lima, mostra como se faz. Pega na notícia falsa, confronta-a com declarações oficiais e públicas que destroem por completo a mentira, e termina reduzindo o elemento bolsonarista a mero receptor/emissor de propaganda veiculada via WhatsApp, no questions asked. Isto sim, um conteúdo a considerar seriamente para o programa curricular de qualquer disciplina de Cidadania nas escolas. Pedagogia anti-fascista. Haja alguém que a faça.

Jair Bolsonaro, o Donald Trump da Wish

Depois da tentativa de golpe de Estado nos EUA, dirigido por Donald Trump e pela sua corte de talibans neofascistas, é Jair Bolsonaro quem agora ensaia o método Bannon, antecipando a derrota eleitoral que todas as sondagens lhe atribuem. As críticas ao mesmo sistema eleitoral que fez Bolsonaro presidente são constantes, e cada vez mais agressivas, e parecem indicar a preparação de uma jogada idêntica à de Trump, baseada na alegação de fraude eleitoral, em caso de derrota. Já vimos este filme e vamos continuar a vê-lo. Estranho seria se um fascista respeitasse a democracia.

A extrema-direita tem sido isto. Desinformação, ameaças, violência e total desrespeito pela democracia e pelas suas instituições. E nem precisamos de ir ao outro lado do Atlântico, quando no seio da UE temos Orbán a fazer discursos abertamente xenófobos e Varsóvia a preparar-se para criminalizar, com penas de prisão, quem se atreva a fazer piadas sobre a Igreja Católica. Já não há armário que segure os Putins europeus.

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Fetos abortados usados na produção de energia (e outros sinais de talibanização e demência avançada na América de Trump)

Do que vou lendo por aí, sinto que muita gente não tem noção daquilo que hoje se passa nos EUA. Que acredita que os EUA são o cosmopolitismo de NY ou a vibe hollywoodesca das grandes cidades da costa oeste.

Não é.

Os EUA são hoje uma democracia em profundo declínio, em larga medida fruto da brutal radicalização do Partido Republicano, que sempre teve os seus flirts com extremismos e extremistas.

Podia aqui escrever linhas e mais linhas sobre inúmeros temas, da multiplicação dos tiroteios, sem paralelo à escala mundial, à recente revogação de Roe vs Wade, passando pelo racismo estrutural ou pelo fundamentalismo religioso, que não distingue alguns movimentos americanos da praxis Taliban, mas vou antes pegar num dos grupos que melhor ilustra este estado de alucinação colectiva que parece marcar o início do fim da hegemonia dos EUA: os movimentos “pró-vida”.

Catherine Glenn Foster, uma activista da extrema-direita norte-americana que preside à Americans United for Life, uma dessas organizações radicais travestidas de “pró-vida”, prestou declarações no congresso norte-americano, em Maio deste ano, no âmbito do processo que terminou com a revogação de Roe vs Wade. Sob juramento, Glenn Foster garantiu que as empresas de energia de Washington DC usam fetos abortados para produzir energia:

“Bodies [are] thrown in medical waste bins, and in places like Washington DC, burned to power the lights of the cities’ homes and streets”

E acrescentou:

“Let that image sink in with you for a moment. The next time you turn on the light, think of the incinerators, think of what we’re doing to ourselves so callously and numbly.”

Este discurso absolutamente absurdo, demente e digno do mais radical dos imãs wahhabitas já não é um discurso de franja. É mainstream. É o legado de Trump. E será gravado na campa do Ocidente: aqui jaz a civilização mais avançada de sempre, que decidiu sucumbir à estupidez, à conspiração mais idiota e ao mais arcaico fundamentalismo religioso.

RIP, uncle Sam.

Nuno Melo mentiu ou é só mais um incompetente a gastar o nosso dinheiro em Bruxelas?

Das duas uma: ou Nuno Melo é um aldrabão, ou então é um incompetente que não está a fazer nada em Bruxelas, que não seja gastar o nosso dinheiro. A votação em causa é anterior à invasão e nada tem a ver com a guerra desencadeada por Putin. Estará Melo a aproveitar-se do sofrimento dos ucranianos para obter ganhas para o CDS? Se não é, parece.

A direita, em particular a liberal e a radical, onde se insere Nuno Melo, tem estado mais focada em atacar o PCP do que em discutir o que se passa na Ucrânia. Mas desengane-se quem pensa que isto tem a ver com a posição do PCP ou que vai parar por aí. A seguir, como se vê neste caso, será o BE. Seguir-se-á o Livre e, finalmente, o PS. Todos serão culpados pela invasão da Ucrânia, a guerra chegará ao fim e os financiadores da direita reunir-se-ão novamente com os oligarcas, num abraço emotivo com mãos invisíveis e bolsos cheios.

O Equilíbrio do Terror #3 – Putin, o querido líder da extrema-direita internacional

O partido do Putin, o Rússia Unida, é um partido de extrema-direita, que se rege pela mesma cartilha da extrema-direita europeia: é nacionalista, securitarista, ultraconservador, tradicionalista e apoia-se na Igreja Ortodoxa como a extrema-direita ocidental se apoia na Católica. Anti-progressista, o Rússia Unida é profundamente racista e xenófobo, intolerante em relação a minorias étnicas, absolutamente intolerante em relação à comunidade LGTB, anti-aborto, anti-eutanásia, anti-ideologia de género e usa slogans estilo “Rússia Primeiro” ou frases como “vai para a tua terra”, dirigida a pessoas de outras nacionalidades.

Rejeita, em absoluto, a luta de classes, basilar para qualquer partido comunista, e, em certa medida, transversal à generalidade das correntes de esquerda. Aliás, no seu discurso de há dois dias, quando anunciou ao mundo o reconhecimento das “repúblicas” de Lugansk e Donetsk, Putin foi muito crítico de Lenine, que seria a mesma coisa que o Papa ser muito crítico de Deus.

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Cavaco, algures entre o ódio e a mentira

Na ânsia ressentido e ressabiada de atingir o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, Cavaco Silva decidiu reescrever a história e afirmar que o governo do Syriza, “arruinou a economia do país”. Sucede que a economia grega há muito que estava arruinada, após anos de desgovernos do PASOK e do Nova Democracia, mais as épicas manobras de engenharia financeira que permitiram ao país, com a ajuda do Goldman Sachs, ludibriar as autoridades europeias para garantir a adesão da Grécia ao Euro. Foi aqui que começou a destruição da economia grega, em 2001, não em 2015, quando o Syriza chegou ao poder. O Syriza é criticável por inúmeros motivos, mas não foi esse governo que destruiu a economia grega. A economia grega estava em frangalhos há mais de 15 anos. Cavaco sabe-o, perfeitamente, mas opta pela fabricação de “factos alternativos” à la Trump. Não surpreende. Este é o mesmo Cavaco que disse ao país que podíamos confiar no BES, dias antes do estouro, e que praticamente insultou uma jornalista que o confrontou com essas palavras. A honestidade não lhe assiste. Nunca assistiu. Nem que nascesse duas vezes.

Paulo Portas mentiu

Na sua homilia de Domingo à noite, Paulo Portas mentiu. É mentira que o cordão sanitário que mantém a AfD fora do sistema político alemão se aplique também ao Die Linke. O Die Link tem coligações regionais e locais com SPD e Verdes. E foi Merkel quem vetou a tentativa de acordo que incluía o seu partido e a AfD, na Turingia, permitindo ao Die Linke governar, com o SPD e Verdes como parceiros minoritários. Não foi só a equivalência absurda entre Lula e Bolsonaro. Lula tem as suas falhas mas não é comparável a Bolsonaro e tem tanto de extremista como o Irrevogável. Porém, no caso alemão, Paulo Portas mentiu. E fê-lo deliberadamente, porque Portas pode ter muitos defeitos, mas ser ignorante não é um deles.

Nullius in verba

[Diogo Hoffbauer]

Quando o tema é a COVID, há uma pergunta inevitável. O tom e o propósito variam, mas a pergunta é fatal. Ora surge condescendente e grosseira, ora desesperada e confusa e – menos frequente – pode assumir contornos genuínos de curiosidade.

“Mas então o mundo está enganado?”

Depende do que entendes por mundo. Se te referes ao povo, à plebe, às massas, sim, a maioria estará enganada – ainda que não todos – porque longe das lentes necrófagas da comunicação social, entre censuras organizadas e ataques incessantes de milícias de idiotas úteis amedrontados, ainda há quem esteja a lutar muito para que o pesadelo não se materialize. Se por mundo entendes governos, aristocracias, corporações e elites financeiras, não estás minimamente enganado. Pelo contrário: tudo corre de acordo com o mais meticuloso dos planos. 

 Para os mais distraídos, a elite política e financeira mundial reúne-se todos os anos para discutir como é que nós, populaça, havemos de viver a nossa vida. Essas reuniões chamam-se Fóruns Davos e são organizadas pelo World Economic Forum. Essa fidalguia velhaca anunciou que tem um plano para acabar com o capitalismo como o conhecemos. Baptizaram este processo com o pomposo nome de Great Reset. O seu lema é “In 2030, you’ll own nothing. And you’ll be happy”. É verídico: eles dizem-nos que não teremos nada. O sonho molhado dos comunistas e restantes veneradores da miséria. O propósito, claro está, não é acabar com a propriedade privada. Eles, claro, continuarão a ter o que quiserem. O lema não é “We’ll own nothing”, porque eles – naturalmente – não se incluem. E orgulham-se disso. Até puseram um macho beta a sorrir para percebermos o quão felizes seremos…sem nada.

Sei o que dizem do Great Reset, e sei porque o dizem. Uma teoria da conspiração, disseminada por negacionistas de extrema-direita, que difundem desinformação por esses redes afora, e que representam a maior ameaça que as democracias ocidentais alguma vez tiveram de enfrentar. Já ouvimos esta cantilena até à extenuação. Ninguém se dá ao trabalho de definir nenhum dos conceitos utilizados nesta análise. Já nem sabem do que falam. Como o jogo de telefone estragado, as pessoas que o repetem agora nem sabem o que dizem, vomitam as palavras, desconhecem a literatura, ignoram a realidade. Quem nada percebe do assunto, assume que o especialista na televisão fala a verdade: a Internet está cheia de notícias falsas espalhadas por um lado do espectro político – e só por esse lado – um lado fascista, monstruoso, cruel, sádico, repulsivo, e se acreditares nalguma dessas histórias é porque pertences a esse lado do espectro. As pessoas comem isto; e, mesmo as que reconhecem o truque, não se aventuram, com medo de serem rotulados, e optam pelo recato. Honestamente, se mais alguém me vier pregar acerca das fake news da extrema-direita, enquanto consome acriticamente a média mainstream, nem sequer vou prestar atenção ao que me disserem. Não é por arrogância: estamos, simplesmente, a falar de alguém que, simplesmente, não sabe quando lhe estão a mentir – como tal, pouco teremos a aprender com as suas considerações epistemológicas sobre a verdade.  [Read more…]

Carta Aberta ao jornalista Pedro Tadeu (DN)

O jornalista Pedro Tadeu escreveu ontem, no DN, um artigo sobre jornalismo. Sobre o que se passa no jornalismo actualmente. Citando:

“Desde que esse meu amigo me contou o que se passou com ele, sempre que vejo uma notícia sobre a covid-19 fico desconfiado: “Será mesmo assim ou isto foi uma encomenda?” E quando constato a grande quantidade de peças que estão dentro da área de interesses destes “recrutadores de jornalistas”, quando vejo que essas peças se repetem no foco e na mensagem, exageradamente, nos últimos meses, fico espantado com a minha ingenuidade estúpida: “Como é possível eu ter achado que isto era, apenas, um exercício editorial insensato e incompetente, mas genuíno?” A seguir vem o desgosto: “Como é que a minha profissão chegou a este ponto!?”

Aqui fica a minha carta aberta ao Pedro Tadeu:

Caro jornalista Pedro Tadeu, eu tenho um amigo, não sei se o mesmo, que já nos idos de noventa me contava existirem jornalistas no activo a fazer assessoria de comunicação para privados. Esse meu amigo deparou com altos quadros, dirigentes, de canais de televisão cujas mulheres (ou irmãs ou mesmo primas, a minha memoria já não me ajuda muito) trabalhavam ou eram donas de empresas de assessoria de comunicação e ele, pasme-se, avisava que se o “pedido” viesse por essa mão amiga, a coisa teria direito a telejornal e tudo, veja bem. Isto já em pleno novo milénio e, suponho, não deve ter mudado assim tanto. E advogados comentadores nos media que, simultaneamente, tratavam dos problemas pessoais dos seus entrevistadores? E o mesmo se diga no tocante a médicos? Já ele me falava na confusão entre o que era pessoal e o que era profissional. Nisso e nos políticos que conseguiam ser, simultaneamente, informadores do jornalista A ou B e articulistas no mesmo jornal ou comentadeiras na mesma televisão. Uma festa. Ou, usando as palavras desse meu amigo (será p mesmo?), um festim.

Caro Pedro Tadeu, pelo que percebi do seu amigo e juntando com o meu, desconfio que não se fique apenas pelo Covid, ao que parece já não se pode confiar em praticamente nada do que se vê nos noticiários tal a confusão entre o que são noticias e o que são apenas encomendas. É claro que aqueles 15 milhões não ajudam nada. Isso e a propriedade actual dos meios de comunicação. De qualquer forma, obrigado pelo seu artigo e que nunca nos faltem os amigos.

Com os melhores cumprimentos.

Censura fake em Viana do Castelo (com o alto patrocínio de Nuno Melo)

NM

O grande incêndio do passado fim-de-semana, no mundo paralelo das nas redes sociais, foi o vídeo de uma escola de dança de Viana do Castelo, alusivo às festas de Nossa Senhora da Agonia, alegadamente censurado pelo Facebook, devido a denúncias de racismo.

Fui ver o vídeo, que me chegou via WhatsApp, sem ponta de racismo por onde se lhe pegasse, e, quando dei por mim, o incêndio já consumia centenas de hectares virtuais no Facebook e Twitter. Impulsionada pela extrema-direita, nas suas versões oficial, dissimulada e “still inside the closet“, a narrativa era objectiva: a extrema-esquerda antifa e anti-católica havia desferido um violento e ignóbil ataque contra as bicentenárias festas minhotas. A intolerância, o comunismo, a Venezuela e até o Estaline tinham subido à Terra para censurar as jovens bailarinas. Mais um episódio de cancel culture, marxismo cultural e mais não sei o quê. [Read more…]

André Ventura assume a sua desonestidade em directo

Se for eleito deputado vou dar o exemplo comigo próprio, mantendo a exclusividade no parlamento. Mesmo perdendo dinheiro! Sim, eu vou estar em exclusividade e vou assumir unicamente o meu lugar na Assembleia da República. Tenho de dar o exemplo. Não pode ser só falar.

O vídeo, gravado poucos dias antes de ser eleito deputado, fala por si. Cinco meses depois, André Ventura continua a ser comentador da CMTV e não existe registo que tenha abdicado da sua posição de consultor na empresa Finpartner. Os embustes de André Ventura sucedem-se, e só se deixa enganar quem quer. Porque só um palerma não percebe a fraude que a sua narrativa populista e demagógica é.

A extrema estupidificação

A

O plano da extrema-direita, assumida ou dissimulada no interior de partidos democráticos, passa, em larga medida, por aqui: infantilizar, desinformar, estupidificar e difundir uma mensagem, alegadamente anti-sistema, segundo a qual o conhecimento científico é uma afronta elitista contra o comum cidadão, que os neofascistas pretendem bruto, ignorante e em permanente estado de conflitualidade, para que possam reinar sobre a turba dividida. Combater esta mentira, na minha opinião, é uma obrigação de todos os democratas que se prezam e estimam a democracia, estejam eles à esquerda ou à direita do espectro. Pactuar com ela é validá-la e regredir.

Direita Política: a estupidificação ao serviço da extrema-direita

O Direita Política, um site de extrema-direita que se dedica à produção e divulgação de notícias falsas, questionou os seus leitores, a propósito da posição do PAN sobre o tema da eutanásia:

Que partido é este que é contra a eutanásia nos animais e a favor da eutanásia nas pessoas?

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Adivinha

Qual foi o OCS que pegou num vídeo feito para dar nas vistas à conta de um conhecido fabricante de robots e o transformou numa notícia, sem um mínimo de validação jornalística, titulada “A ‘vingança’ das máquinas está aí. Robots já atacam“?

Talvez o texto fosse também uma paródia, à semelhança do vídeo, poderíamos pensar. Indo pelo endereço encontrado no Google logo se percebe que o artigo foi apagado, pelo que se ficaria na dúvida, não se desse o caso de a Internet ainda ter memória. E de ter uma cópia.

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Não é enternecedor?

Um site, que é uma fossa de mentiras, mereceu a atenção do Observador para constatar que tinham publicado uma mentira.

Que inesperado!

Na verdade, esta pseudo-verificação de factos, funciona como publicidade ao esgoto chamado Direita Política. E, é factual, há uma maioria que prefere a mentira. Tem uma certa dose de ironia, mas vamos supor que a manobra resultou da indigência editorial do autor.

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Carla Diaz, uma actriz brasileira transformada em perfil falso de apoio ao PNR

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Inspirado, quiçá, no sucesso da saudosa Maria Luz, entretanto falecida, um activista da extrema-direita portuguesa decidiu apostar numa fórmula clássica e entrou no mundo dos perfis falsos de disseminação de propaganda política, usando como isco virtual fotografias da actriz brasileira Carla Diaz. [Read more…]

Quando a civilização recua

Santana Castilho*

  1. Nos Estados Unidos da América, dirigidos pelo homem que popularizou a expressão fake news, diz a Gallup que 18% dos cidadãos acreditam que o sol gira em torno da terra, 42% afirmam que Deus nos criou há menos de 10.000 anos e 74% dos republicanos no Senado negam a validade das mudanças climáticas, apesar das evidências científicas aceites no mundo.
    Com os olhos postos nisto e nas previsíveis campanhas de desinformação em ano de eleições, o PS propôs a discussão do assunto no plenário da Assembleia da República, defendendo um projecto de resolução que recomenda ao Governo a adopção do plano de acção contra as fake news, aprovado pela Comissão Europeia em Dezembro passado. Tratando-se de matéria em que o Governo é exímio especialista, o êxito está garantido. Dêem-lhe espaço de manobra e, agora que já temos uma agência espacial, Pedro Marques ainda anunciará que seremos os segundos a pôr o pé na Lua.
    Factos que se contradizem deixam-me perplexo. O que será falso? O desvelo com que o Governo recentemente se ocupou das mulheres, a propósito do seu dia mundial e da violência de que são alvo, ou o ódio que dispensa a duas classes profissionais maioritariamente compostas por elas (professoras e enfermeiras)?
    Não será igualmente falso um primeiro-ministro falar das vítimas de Pedrogão enquanto pica cebola para uma cataplana, porque o que procura é a popularidade que o avental da Cristina lhe confere? Não será falso o homem pensar que assim se aproxima dos cidadãos, quando o problema seria fazer algo para que os cidadãos se aproximassem dos políticos (quase 50% de abstenção)? [Read more…]

Redes

José Meireles Graça

Os senadores da opinião, com banca montada há décadas na sala-de-estar do cidadão distraído, não gostam das redes sociais.

Não foi sempre assim: Pacheco Pereira, por exemplo, alimentou durante anos o Abrupto, até 2016. E não deve ter sido apenas a decadência da blogosfera (que não medi; é uma observação impressionista) a afastá-lo, mas antes a constatação de que todo o cão e gato pode fazer, e faz, blogues.

Miguel de Sousa Tavares espumava há tempos de raiva contra o Facebook. E não é possível ler as caixas de comentários dos jornais on-line sem um sobressalto, tal o primarismo das opiniões, a violência das soluções defendidas para problemas reais ou imaginários, a ausência de gramática ou um módico de cultura geral, e o intenso ódio que se manifesta a propósito da indignação da semana.

Depois, Trump foi eleito com o subsídio do Twitter (uma rede especializada em espirros opinativos) e Bolsonaro do WhatsApp (semelhante grosso modo ao  Facebook, com grande difusão no Brasil). E estes dois, Trump e Bolsonaro, carregam o ferrete ignominioso de não serem de esquerda, nem da direita que a esquerda tolera por não ser de direita – navegamos em pleno escândalo.

(Nota: Antes destes dois já Obama tinha sido eleito com grande campanha no Facebook; a esquerda, na altura, orgulhou-se, achou muito “moderno” e “despojado” e “popular”, mas agora está com amnésia). [Read more…]

Aquele momento em que a SIC deixou de ser Notícias

Reduzida a opinião. Múpis com temas diversos versando um ponto de vista, em vez de uma notícia.

Há dias, a SIC publicou uma reportagem sobre fake news, olhando para as redes sociais e para os blogs de forma acusadora. Nunca precisaram de sair de casa, como agora novamente se constata.

imagem: jmc

Resta saber se serve…

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O Conselho Constitucional francês validou a primeira lei europeia especificamente contra a manipulação da informação on-line em período eleitoral (a aplicar nos 3 meses anteriores ao primeiro dia do mês das eleições), salientando que apenas devem poder ser eliminadas das plataformas de distribuição:

1) As informações manifestamente falsas ou enganadoras (e não as paródias, as informações parcialmente inexactas ou simplesmente exageradas);

2) relativas a factos (não abrangendo, portanto, as opiniões);

3) que possam condicionar, de forma manifesta e objectivamente demonstrável, a sinceridade da eleição; e

4) que sejam distribuídas de modo automático, massivo e deliberado.

A eliminação é requerida judicialmente através de processo sumário, devendo o juiz decidir no prazo de 48 horas.

A lei requer aos operadores de plataformas on-line cuja actividade exceda, em França, um certo número de conexões, que forneçam aos utilizadores informações leais, claras e transparentes sobre 1) a identidade das pessoas singulares ou colectivas que pagam à plataforma para a promoção de conteúdos informativos relacionados com um debate de interesse geral (isto é, com o acto eleitoral a realizar), 2) o montante de tais remunerações, se for superior a um determinado limiar fixado por decreto, e 3) o uso que é feito, como parte desta promoção, dos dados pessoais dos utilizadores. Esta informação é agregada num registo disponibilizado ao público e actualizado regularmente durante o período em questão. O incumprimento destas regras pode dar lugar a um ano de prisão e a uma multa de 75.000 euros.

A lei prevê ainda o estabelecimento, pelos operadores das plataformas on-line, de um sistema que permita aos seus utilizadores assinalar informações falsas e vincula esses operadores a aplicar medidas adicionais que podem incluir a transparência dos algoritmos ou a luta contra as contas que promovam a divulgação massiva de informações falsas.

Vista com estas reservas, parece ser uma lei equilibrada e necessária para fazer frente à intoxicação da opinião pública que a extrema-direita vem desenvolvendo de forma metódica e sistemática, na Eu ro pa, nos Estados Unidos e no resto do mundo, cavalgando sem escrúpulos o descontentamento das populações com os vícios dos sistemas políticos e a tibieza das políticas públicas.

 

 

Distracções

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Noam Chomsky considera Donald Trump uma distracção. E talvez o seja. Enquanto milhões se agarram aos televisores e ao Twitter, para visualizar ou ler a mais recente palermice ou machadada na credibilidade dos EUA, vendem-se armas a facínoras, cozinha-se a próxima crise financeira mundial e o 1% aproveita as borlas fiscais para fazer o seu capital great again, antecipando a época de saldos que chegará quando o próximo Lehman Brothers cair. [Read more…]

Fabricated news

Há mais um epíteto a juntar à definição de fake news. Já aqui tinha sido referido que boatos, assassínios de carácter e campanhas negras são sinónimos de um certo tipo de peças com presença na comunicação social. São, frequentemente, ataques ad hominem, com objectivo de desacreditar alguém, matar o mensageiro ou, simplesmente, condicionar alguma acção.

A acrescentar a esta lista, a desonestidade intelectual consiste na propositada deturpação de argumentos com o objectivo de se fazer valer um ponto de vista. Chamar-lhe fake news não seria exacto, pois em causa não está uma notícia, apesar de esta expressão já ter evoluído para adjectivar tudo o que não se aprecie no mundo jornalístico. Esta forma de manipulação consiste em ignorar outros lados do tema, descontextualizar ou fabricar dados, ou não aplicar o mesmo padrão a situações comparáveis.

Atente-se, por exemplo, no editorial de Manuel Carvalho, hoje no Público.

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Miguel Sousa Tavares, o criador de fake news

Antigamente, dizia-se boato, desinformação ou mentira, conforme o emissor ou o emissário; agora, em pleno trumpismo, parece que é fake news. Seja.

Miguel Sousa Tavares (MST), que olha para as redes sociais e para os blogues como a Inquisição olhava para os judeus, escreveu, a propósito da greve dos professores e no último Expresso, o seguinte:

(…) nenhum professor trabalha mais de 35 horas: teoricamente, têm 22 horas de horário ‘lectivo’ (mas só alguns e algumas vezes) e 13 horas ocupadas em coisas de definição ampla, como ‘reuniões’, ‘preparação de aulas’ e ‘formação’

Outra coisa que MST odeia: professores. Está no seu direito. O facto de ser cronista num semanário – segundo dizem – de referência e de ter sido jornalista deveria levá-lo a investigar e a provar aquilo que afirma. Por exemplo:

1 – como é que sabe que nenhum professor trabalha mais de 35 horas? Ou menos? Ou só 35? Como é que sabe?

2 – se alguns têm 22 horas lectivas, quantos são e porquê?

3 – os que têm 22 horas lectivas só têm essas horas “algumas vezes”? E nas outras vezes, quantas horas terão?

4 – um homem tão frontal como MST terá usado um eufemismo? A expressão “definição ampla” quererá dizer “mentira”? Os professores não passarão tempo a reunir, a preparar aulas ou a receber formação ou outras actividades de “definição ampla” como ‘corrigir testes’? MST será daqueles que faz aspas com as mãos, abrindo muito os olhos para explicar que está a ser irónico? E como provará, então, que os professores estão a mentir? [Read more…]

A que sector da sociedade portuguesa se destinam as fake news?

As fake news em Portugal vivem do Facebook e não de blogues. Estes, quando muito, servem apenas de muleta para a página do Face. E desculpem a crueza, nem podia ser de outra forma.
As páginas de fake news têm como alvo um sector específico da sociedade e que não é de distinção tradicional. As fake news não são nem para a classe baixa nem para a média (se é que esta ainda existe em Portugal) nem para a alta.
É para um vasto sector: os pouco informados. Que se encontram em todas as tradicionais classes. E, por isso mesmo, é o Facebook o seu pasto e não os blogues. Por isso, é um erro (na minha opinião) confundir as fake news com os “Corporações”.
O único ponto em comum é a manipulação.
Mas as páginas de fake news são para manipular através dos utilizadores de Facebook que, por opção (seja ela de que teor for) não estão informados e, como tal, acreditam em tudo o que lhes for apresentado da forma mais inverosímil. Pessoas que não consomem imprensa (escrita ou digital), que não gostam de política, que não gostam de pensar para além do natural da sua vida e do seu círculo. Essas pessoas são facilmente manipuláveis – basta apimentar a coisa da maneira mais….inacreditável.
Por exemplo: reparem no elevado número de pessoas que acreditam e partilham como verdadeiras peças de humor do “Imprensa Falsa” ou do “Inimigo Público” como se as mesmas fossem verdadeiras. Reparem no elevado número de pessoas que partilham como verdadeiras “notícias” sobre a morte de famosos. Antigamente, no tempo dos meus pais, compravam o “Incrível” pela diversão, pelo gozo. Se fosse hoje, compravam como se fosse o único jornal com notícias verdadeiras. Mais, as páginas de fake news, seja em Portugal, seja nos EUA, aproveitam este enorme mercado para transmitir a mensagem que pretendem e usam a plataforma que melhor se adapta em cada país. Nos EUA, é melhor o Twitter, como em Espanha. Já em Portugal, é o Facebook.
Ora, um jornalista que pretende fazer uma peça jornalística sobre o tema e escolhe como ponto de vista os blogues demonstra um total analfabetismo sobre o tema. Demonstra que ainda está no passado. Demonstra que não percebe nada do tema a investigar. [Read more…]

O Aventar não é de Esquerda

Há dois dias, saiu na SIC uma peça sobre Fake News. Não nos pronunciando sobre o conteúdo da peça, algo que apenas faz sentido em publicações individuais, dada a inexistência de uma linha editorial no blog, não podemos deixar passar em branco uma imprecisão jornalística, nomeadamente a afirmação sobre o Aventar ser “um blog de esquerda“.

O Aventar é, desde o seu início, um blog pluralista, com autores de todos os quadrantes, políticos e não só. Quem lê o Aventar com continuidade, poderá constatar que assim é. Cada autor publica sobre os temas que bem entende e quando acha oportuno. Daí poderá resultar um maior número de posts considerados “de esquerda” – tanto quanto estas categorias ainda sejam referenciais válidos. Apenas artigos assinados pelo autor Aventar constituem posições colectivas de comum acordo.

O Aventar é, há 9 anos, um espaço pluralista, de controvérsia e de saudável debate. E assim continuará a ser.

São mentiras, senhores

Sobretudo entre jornalistas, tenho reparado na argumentação defendendo que “fake news / “notícias falsas” não deveriam ser chamadas notícias porque não são notícias. E por isso, possivelmente, tenho encontrado a expressão “informações falsas” (aqui e aqui) ao se referirem ao fenómeno.

Mas também não são informações, senhores. São mentiras e boatos. Não tem de quê.

Aventar Podcast
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São mentiras, senhores







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Guerrilha informativa

Devido à dificuldade em se atacar alvos específicos, a guerrilha teve sucesso onde a guerra clássica falhou. Não existe um país que se ataque, por exemplo. Foi o que acabou por derrotar os EUA no Vietname e é desta forma de confrontação que vem o poder do terrorismo.

As redes sociais funcionam como as florestas vietnamitas da informação. Nelas se escondem aqueles que inventam mentiras em forma de notícia, sem se perceber qual é a origem do ataque. Não se consegue silenciar este ou aquele falsário sem se calar a generalidade dos restantes elementos.

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