Essa coisa da “honra”…

Poderá ser especificidade conotativa minha, mas ouvir falar em “honra” provoca no meu córtex cerebral a desbobinagem de um filme antigo e mau: vejo homens violentos a matarem ou “castigarem” a mulher, filhas ou irmãs “desonradas” (e/ou eventualmente os supostos rivais) para “lavarem” com sangue a “honra” da família…

Sou tresladada por via de maior incidência para a Índia, Turquia, Bangladesh ou Egipto, assisto mentalmente ao enterro de mulheres vivas ou ao seu apedrejamento pela vergonha que trouxeram à “honra” da família…

Sinto espetar-se-me na nuca a ponta aguçada da dupla moral.

“Honra”, na minha idiossincrasia, está nos antípodas de “dignidade”, que associo aos direitos humanos e ao Artigo 1 das constituições portuguesa e alemã.

Fui verificar; o dicionário diz que o significado é o mesmo; pois será, mas não sinto assim.

Aliás, “honra” também é: Virgindade ou castidade sexual, em geral nas mulheres (ex.: perder a honra)

Vem isto ao caso de um certo juiz ter declarado que vai processar quem o criticou no contexto de decisões em casos de violência doméstica por sentir ofendida a sua “honra pessoal e profissional”. Logo a “honra” sr. Juiz? ??? Isto será puro acaso??? Não estou a reconhecer aí o exacerbado ego machista a abespinhar-se?

Acalme-se, olhe que até Vital Moreira comenta que “não lembrava ao diabo a ideia de o Juiz-Desembargador Neto de Moura de acionar judicialmente, para efeitos de reparação de danos, por alegado atentado à sua honra, todos os que (políticos, comentadores e, mesmo humoristas!) comentaram com maior ou menor severidade, aliás merecida, as suas bizarras conceções acerca das mulheres quando vítimas de violência doméstica”, começa por escrever, considerando que, com esta decisão, o juiz arrisca a “tornar-se no bombo da festa de todos os humoristas deste País”.

Essa coisa da “honra” dá sempre para o torto.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Antes de criticar o juiz Neto Moura, personagem do sexo masculino, convinha recordar que uma juíza assinou o mesmo acórdão.
    Pior do que os argumentos retrógrados de Neto Moura, é a postura negligente da magistrada, Maria Luiza Arantes, do sexo feminino, que assina de cruz um acórdão, sem o ler. Já Assunção Cristas tinha feito o mesmo, em relação ao BES.
    A conclusão a que chego, mais do que o confrangedor machismo de Neto Moura, é que o país está entregue a um número razoável de incompetentes, que detém nas suas mãos “as rédeas” das nossas vidas coletivas e individuais, com importantes poderes de decisão.
    Criticar o Juiz Neto Moura é fácil, dado o acórdão por si redigido. A maioria das pessoas ficam estupefactas com aquela argumentação, muito mais do que a pena em si, por desconhecerem os meandros da Lei. Mas admitamos que a redaçåo que sustenta a decisão do coletivo de Juizes, merece repúdio, mesmo de um “corno” do século XXI. Talvez um “corno” do século passado, e não serão todos, aprecie aquela “conversa”.

    http://www.asjp.pt/2017/10/28/juiza-nao-leu-acordao-ate-ao-fim/

    • Ana Moreno says:

      Olá Rui, o post questiona essencialmente o conceito de “honra” e o seu significado sociológico. Questiona uma ordem social machista, na qual tanto mulheres como homens se posicionam de um ou outro modo. A divisória não é essa que o Rui está a colocar, basta ler aquela senhora do artigo do observador como exemplo de discurso machista.
      Aliás o post centra-se no conceito evocado pelo sr. juiz como razão para processar umas quantas pessoas e na consistência do seu encaixe nas outras manifestações do senhor que estão em causa.
      Quanto ao resto, o juiz Neto Moura está a colher frutos da sementeira que fez e está sujeito a críticas como qualquer outra pessoa, homem ou mulher, tanto mais em posição de responsabilidade e destaque.

      • Rui Naldinho says:

        Olá Ana. Sim, eu sei que o seu post questiona os conceitos de honra. No passado, distintos, entre o homem e a mulher.
        Aliás, a nossa jurisprudência está carregadinha de acórdãos, baseados implicitamente nesse pressuposto.
        “A honra da mulher é a a sua virgindade, antes de casada, depois, a fidelidade conjugal”. Todos os comportamentos “desviantes só podem merecer reprovação”.
        Por caricato que possa parecer, acórdãos sempre muito pouco contestados, apesar dos movimentos femininistas já andarem pelo mundo ocidental, vai para mais de meio século.
        É óbvio que Portugal em matéria de costumes nem sempre andou no pelotão da frente. O facto da mulher ter tido sempre um papel de dona de casa, ou doméstica, e mesmo mais tarde, com a industrialização, operária, também contribuiu muito, para este conceito do “Ser menor”, cujo único valor acrescentado reconhecido era o da maternidade.
        O juiz Neto Moura interpretou aquilo à moda do século XIX, ou para ser simpático, até meados do século XX.

        • Ana Moreno says:

          “No passado, distintos, entre o homem e a mulher.” Diria que, ainda em muitas cabeças, no presente …
          Como o Rui diz, “a nossa jurisprudência está carregadinha de acórdãos, baseados implicitamente nesse pressuposto.” É isso que este caso pontual ajuda a desvendar e combater, daí a sua relevância.


  2. partilho das ideias da Ana, o conceito de honra ainda é muito machista e está preso no passado. Se fosse baseado no cumprimento de regras éticas de comportamento alicerçadas no respeito pela dignidade dos outros, pela sua individualidade e direitos, sendo que aqui homens e mulheres têm os mesmos direitos, seria o meu conceito. Mas não vejo nada disso no caso do juiz, apenas um passado que teima em não morrer, um cheiro a mofo e a podre que tresanda e é um lastro para o desenvolvimento do país.

    • Ana Moreno says:

      Obrigada! Apesar de tudo, estou a gostar das reacções, tanta gente a posicionar-se, com indignação ou com subido humor, contra esse cheiro a mofo que refere. Quem sabe, isto permite dar um passo em frente.


  3. Isso ! o conceito de HONRA que se está perdendo baseado no carácter e formação educativa, no cumprimento de regras éticas de comportamento alicerçadas no respeito pela dignidade dos outros , sendo que aqui homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres !

    …este para mim o essencial de tanta discussão opinativa .

    E mais não digo que já me cansa : (


  4. Eu, estando de acordo com tudo o que se tem dito, especialmente RAP, quanto ao troglodismo do acórdão do juiz Neto, só estranho é que quase ninguém, excepto o leitor Rui Naldinho, dê também umas pauladas metafóricas nas duas “meritíssimas” que, sem mérito nenhum, se puseram ao lado dos homens e contra a vítima mulher, tornando-se totalmente fora de moda ( a da “igualdade de género”) e obedecendo, com muita infelicidade, à máxima – recentemente (até que enfim!!) consagrada na lei portuguesa – “a trabalho igual salário igual”.
    É que se o acórdão do juiz presidente é uma m$&?a, a sua subscrição pelas duas senhoras juízas não cheira melhor. E então que dizer daquela que subscreveu aquela porcaria sem sequer a ler. Não acham que também merecia um jogo de computador pelo RAP??

  5. Julio Rolo Santos says:

    Estamos a falar de violência doméstica em que homens e mulheres são vítimas de agressores e agressoras. Esquecer isto e passar a defender apenas um dos lados conforme lhe dá mais geito é distorcer a realidade. Punir o Juiz Neto de Moura com palavriado de caserna não convincente e não o fazer a quem o acompanhou no tão polémico acórdão é entrar pura e simplesmente na guerra dos sexos. Como vamos conseguir a igualdade de género que tantos e tantas apregoam se continua a fazer-se distinção de tarefas no seio da própria família? Bem sei que dá geito escamotear esta realidade mas que ela existe, existe. Como vamos sair disto?


  6. . ! “à propos”, e porque ainda é e será sempre carnaval ( ? ) apetece ir com boa disposição informativa sobre este tema a 1833 : )

    http://3.bp.blogspot.com/_kaBcdL1qOrQ/Smj1gCLQW3I/AAAAAAAAD3I/iJlCdTdUN08/s1600/81754422-776828.jpeg

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