Os tempos e a percepção

Um dos mais dramáticos equívocos que circulam sobre alguns dos temas mais delicados que apelam, actualmente, à sensibilidade dos cidadãos, é o da convicção, que parece frequente, de “dantes é que era bom”, “noutros tempos não havia nada disto”. É, geralmente, falso e, muitas vezes, é criminosa e perversamente aproveitada essa falsidade. O problema da violência doméstica é um desses temas. Como se pode ser tão ignorante que se pense que há 20, 30, 40 anos ou mais tudo era melhor? Que raio de cegueira é esta? A quem aproveita? Na verdade, apesar da visibilidade mediática dos casos dos últimos anos, o que há de novo é a informação e, desde há pouco mais de dez anos, estatísticas razoavelmente fiáveis.

Não, a pedofilia e os abusos sexuais dos mais diversos tipos não são uma aberração do nosso tempo, como o não são a violência doméstica, a venda de crianças para adopção e muitas outras questões que o que têm de novo é uma nova consciência, informação, estatísticas, debate livre, muito mais desinibido e franco. E, sobretudo, corajoso. Conhecimento de causa e coragem, condições acção, de mudança. Todas estas ocorrências eram muito, mas muito piores, em tempos idos – há poucos anos, há algumas décadas e, brutalmente pior, na ditadura.

A percepção de que as coisas pioraram é, pois, falsa. Há progressos muito significativos, nas políticas, nas leis e – embora mais lentamente – nas mentalidades. É, pois, justo que nos indignemos quando pensamos como a situação podia estar muito melhor; pensando-a em comparação com as nossas aspirações de futuro, mas não com o que foi no passado.

E é tão mau ter uma visão deprimida e pessimista como alardear uma gritaria e uma recém-descoberta ferocidade. Ou um cepticismo no limite do cinismo.

Comments

  1. estevesayres says:

    O texto na minha opinião, merece da nossa parte, a nossa maior atenção, porque todos sabemos que antes de termos acesso a estes meios de informação nada se sabia. Mas tb sabemos que a maioria da comunicação social nada tem feito para denunciar, estas e outras situações, e quando o faz é sempre o CM. Por vezes tenho dúvidas quanto aos artigos que são escritos por este órgão. Por outro lado, os sucessivos governos e a justiça em particular nada tem feito para acabar com toda esta situação, existe uma certa canalha que deveria ser investigada e presa. E fico por aqui

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    “Antigamente é que era bom”… Não sei se é verdade ou não. NÃO SEI.

    Agora afirmar, como é afirmado, “o que há de novo é a informação e, desde há pouco mais de dez anos, estatísticas razoavelmente fiáveis”. E isso permite afirmar que dantes a situação era igual, parecida, pior ou melhor? NÃO, NÃO PERMITE.

    Há tanta razoabilidade em dizer que “dantes é que era bom” como em dizer que “Todas estas ocorrências eram muito, mas muito piores, em tempos idos – há poucos anos, há algumas décadas e, brutalmente pior, na ditadura.”. Baseia-se em quê, se não há dados?

    Um completo sofisma.

    O que se passa é que as estatísticas até nem são más (tirando este ano), e também são manipuladas (por exemplo, um caso de disputa de herança foi incluído na “violência doméstica”).

    Resumindo, o que está escrito é apenas uma “profissão de fé”. Tem tanta sustentabilidade ou razão de ser como a afirmação que ataca. Cada um escolhe no que quer acreditar.

  3. whaleproject says:

    Basdeia-se se calhar, no facto de, na rua da minha avó, ela ser a única que não saía para a rua a dizer que tinha batido numa porta. Em mais de 50 vizinnhas, a única que não apanhava era ela. Chega?

  4. JgMenos says:

    Sempre houve miséria e baixeza moral.

    Mas nunca houve tanta frustração de expectativas fantasiosas nem tanta lassidão moral.
    Acresçam-lhe as perplexidades das doutrinas de género que, negando a ciência, impõem tolerâncias e intolerâncias para os mais diversos gostos.

    • Paulo Marques says:

      É, ter emprego, 3 refeições por dia, propriedade e um mundo que não se desfaz é uma fantasia ridícula e acima das possibilidades do Homem.

    • ZE LOPES says:

      As prédicas do Apóstolo Menos lá na Igreja Universal do Reino da Coelha estão cada vez mais secantes. Não admira que os pastores e bispos andem em debandada. A maior parte dos fiéis já nem esperam pela bandeja do dízimo. Dão de frosques quando o Apóstolo se aproxima do altar.

      Parece que o problema reside no facto de menos ser Apóstolo aos domingos e astrólogo no resto dos dias. Ultimamente parece querer conciliar as duas funções mas a coisa deu em confusão.

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