Um inferno português…

A ideia que Holanda e Irlanda são paraísos fiscais, deixa implícita a existência, por simples oposição ao conceito de paraíso, que existirão infernos fiscais. Nada impede os que acusam tais países de concorrência desleal, de passarem a defender que os seus próprios países concorram com os demais. As empresas não são corpos estranhos, seguem a lógica das pessoas, porque até ver, por muito que recorram à robótica ou inteligência artificial, ainda são dirigidas por pessoas. Se um cidadão não encontra condições para se desenvolver numa localidade, desloca-se, de cidade, região, por vezes até de país, emigra. As empresas é igual. Cabe aos governos atraírem investimento, inteligência e capitais, para isso precisam ser concorrenciais. Agilizar processos e baixar impostos. Não acusem empresários de mudarem a sede das empresas, acusem o governo de não ter uma política fiscal que as mantivesse em Portugal.

Após uma errática gestão inicial da crise epidémica, Donald Trump, bem aconselhado, resolveu apoiar directamente as famílias americanas afectadas, endossando um cheque a cada família, de forma simplificada, sem grande burocracia nem intermediários, entenda-se, imposição de crédito e recurso à banca. Justin Trudeau segue pelo mesmo caminho. Por cá, temos o aproveitamento da crise epidémica para debitar ideologia a metro, com os políticos do costume debitando chavões para gáudio da turba que os suporta. Mesmo que no fim, espremido o que afirmaram, não saia nada. Já estamos habituados. A resposta portuguesa é endividem-se empresas, os senhorios, recorram à banca que uma vez mais será intermediária, cobrando está bom de ver as comissões, spreads e taxas de juro, mesmo que nos façam o “favor” de ganharem um pouco menos do que seria habitual, a troco de risco zero, uma vez que o Estado garante eventuais imparidades futuras. Tudo isto sem dispensar a habitual burocracia. Veja-se o lay-off simplificado, faria se não o fosse, já vamos na quarta ou quinta versão e nada garante que fique por aqui. É mais fácil aprender latim que interpretar um decreto governamental.
Para os socialistas está sempre implícita a ideia que não sabemos decidir, precisamos burocratas que pensem o que é melhor para as nossas vidas. E complicam, porque se tivessem apoiado directamente as famílias, não seria preciso pagar custos de intermediação, as pessoas honrariam os seus compromissos, ao mesmo tempo que as empresas suspenderiam os encargos, aliviando a tesouraria, que seriam retomados quando a situação regressasse à normalidade. Mas isso não serviria o bloco central de interesses, a banca e grandes empresas rentistas do regime, empregadoras da classe política e tralha partidária. É aí, que reside boa parte do nosso atraso estrutural em relação aos países mais desenvolvidos da U.E., agravando-se ano após ano a situação, caminhando a passos largos para a cauda da Europa, já não deve faltar muito para alcançarmos o indesejável estatuto de país menos desenvolvido da U.E.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Pois, o Pingo Doce não tem condições para se desenvolver em Portugal, por isso é que se desenvolveu em Portugal. Mas tem razão, o problema não é da Holanda por baixar impostos, é de quem acha que se pode ter uma zona económica em que cada um puxa para o seu lado, um grupo de países que, deixe ver, é liderado pela Holanda.
    À custa dos seus cidadãos, coisa que ainda ninguém disse, que a estagnação da zona euro há de ter alguma coisa a ver com isso.
    Quando à solução do governo, mais uma vez, são as regra do euro, aquela coisa que gosta muito. Parabéns, é mais socialista que Bruxelas.

    • António de Almeida says:

      Como bem sabe, defendi que Bancos pudessem falir. Não aceito tratamento diferente para empresas. O “Zé dos caracóis” é tão importante quanto qualquer “too big to fail”.
      E detesto burocracia. Gosto de regras claras, simples. O PS já nos vendeu o Simplex, mas não passava de chavão. PS e PSD não passam de mestres da ilusão…
      Façam o governo de salvação nacional, Rui Rio está mortinho por discutir jobs com António Costa. Marcelo aproveitará o momento para mais algumas selfies…

      • Albino manuel says:

        É liberal? Muito conta – ou muito pouco. Dizer que é liberal é como dizer que gosta de mulheres. Gosta de novas ou de maduras? De louras ou de morenas? De magras ou gordas?

        Há a malta do Insurgente que quer de volta o liberalismo clássico, por outras palavras, a oligarquia da burguesia, que tão bons resultados teve no século XIX..

        Há a chamada malta liberal-conservadora que gosta de liberdade na economia e trela nos costumes. Os da opus dei andam por aqui.

        Há os liberais de esquerda que querem sobretudo os costumes à solta.

        Santo Hayek era, dizem, liberal, como liberal era Dahrendorf. No entanto duvido que se entendessem. Ah, gosta de Popper. Há quem goste de poppers.

        Afinal qual é o seu chapéu?

      • Paulo Marques says:

        Eu não disse que discordava. Aliás, acho um desperdício não se manter quer o lado da procura quer o lado da oferta preparados para o regresso à normalidade quando, sendo por “pouco” tempo, é uma questão de simplesmente depositar nas contas pelo banco central responsável – com algumas excepções a ponderar, a maioria do comércio aconteceria na mesma mais tarde (roupa, TVs, telemóveis,…)
        Mas já criar crédito especial viola os acórdãos internacionais, embora com esperanças e confirmações de que esse mínimo não levanta problemas institucionais, imaginemos o que era financiar empresas nacionais completamente à margem do mercado único. Era o caos, ainda os eleitores começavam a perguntar para que é que este serve, e isso não pode ser.

        A banca já é um pouco diferente deixar cair, pelo papel na economia. A fazer-se, de preferência não como foi mandado pela UE, igualmente.

  2. Paulo Gonçalves says:

    Bébé chorão lamenta o inferno perdido. (deve existir, implícito no paraíso perdido)

  3. Luís Lavoura says:

    Donald Trump, bem aconselhado, resolveu apoiar directamente as famílias americanas afectadas, endossando um cheque a cada família

    Não sabia que ele tivesse feito tal coisa mas, se o fez, acho muito bem. Isso é o “helicopter money” de Milton Friedman, ou então, é o rendimento universal garantido. É muito melhor criar dinheiro dessa forma, isto é, dando-o diretamente às pessoas, do que criá-lo dando-o aos bancos, como se faz usualmente.

    A resposta portuguesa é endividem-se

    Há imensas diferenças entre Portugal e os EUA. Os EUA (e, já agora, o Canadá também, embora bastante menos) emitem a moeda em que se endividam, que é como quem diz, no fim do dia podem sempre criar moeda nova para pagar as suas dívidas. Portugal não usufrui desse privilégio exorbitante. A República Portuguesa não pode criar dinheiro e, se quiser dispensar dinheiro por entre os seus cidadãos, como Trump faz, tem que o pedir emprestado, e pagar juros por ele, e sem saber se o irá poder pagar de volta.

    Felicito Trump por fazer o que fez (se é que o fez, acredito neste post), mas não tenho quaisquer ilusões de que Portugal possa fazer o mesmo.

    • António de Almeida says:

      Sabemos que Donald Trump é um cata-vento e muda rapidamente de ideias. Mas ao que parece agarrou nesta proposta e irá efectuar pagamentos semanais. Entretanto e ao que julgo, também terá um pacote de estímulos à economia, não aplicáveis às suas empresas. Boris Johnson deverá preparar algo do género, Justin Trudeau já o terá anunciado. Não creio que Bolsonaro vá a jogo com o helicopter money.

      • Paulo Marques says:

        There is no alternative. Disfarçado ou não, como a UE fará porque será obrigada, com os custos inerentes do atabalhoamento habitual.
        Mas quanto ao EUA, nem chega, nem está imune a ser aplicado nas propriedades do presidente – tanto que os pedidos já estão em marcha.

    • Paulo Marques says:

      Não percebo os downvotes, é realidade económica pura e dura, e nem sequer das franjas. Com uma excepção, UBI temporário não é UBI, e ainda bem. Mas isso é outra conversa.

  4. Albino Manuel says:

    Filosofias do Porto e arredores. Água e sabão é que nem pensar.

    • Dragartomaspouco says:

      Não deve ser por acaso que nessa zona há o maior numero de casos de infectados

  5. Carlos Almeida says:

    Sr Antonio Almeida

    O sr escreve um post em que glorifica a ideologia liberal,
    Mas escreve
    “Por cá, temos o aproveitamento da crise epidémica para debitar ideologia a metro, com os políticos do costume debitando chavões para gáudio da turba que os suporta.”

    Tal como para Salazar, para os liberoides quem não concorda com eles é que debita ideologia. Eles não
    Um bocado de honestidade intelectual só lhe ficava bem

    • António de Almeida says:

      Sou liberal, algo que Donald Trump não é. E concederá que poucos tenham sido tão atacados nos últimos dias como os liberais. Sem que tenham governado. Se ao menos tivessem…

      • Carlos Almeida says:

        Governaram há 200 anos sim. É na minha opinião uma ideologia velha e relha.
        Se o dono do Pingo Doce montasse a empresa na Holanda e ganhasse o dinheiro com os holandeses, eu achava bem que pagasse os impostos na Holanda e não em Portugal, mas é exactamente ao contrario, os liberais sabem disso e acham bem.
        Assim como acham bem que a Apple pague apenas 2% de impostos na Irlanda.
        Resumindo os liberais, acham bem que a maioria ande a sustentar uma minoria de elites, mas tentam esconder isso com frases como as do seu post que só servem para enganar algum distraído, porque quem pense com a própria cabeça, sabe bem que os donos disto tudo nunca deram nada a ninguém. Não querem é que se saiba .

        Os liberoides e toda a direita têm que arranjar uns escribas que tentem “vender” aos “trouxas” maioritários, os ideais que defendem os interesses das elites minoritárias.
        Era para isso que servia antigamente os 3F: fado, fatima e futebol, mas agora têm outros meios.

        • António de Almeida says:

          A maioria sustentar uma minoria de elites.
          -BPN, BPP, Banif, BES, muito brevemente teremos a TAP…
          Fui contra, serei contra.
          Quanto ao Pingo Doce e Apple, faz parte da concorrência fiscal. Pudessem os cidadãos fazer o mesmo…

          • Carlos Almeida says:

            “Quanto ao Pingo Doce e Apple, faz parte da concorrência fiscal. Pudessem os cidadãos fazer o mesmo…”

            Demagogia liberoide.
            São como os padres, nunca tomam partido sobre assuntos incómodos, só treta genérica, que dá para tudo

          • Paulo Marques says:

            Se toda a gente pagasse impostos onde quer ninguém os pagava porques estes tendiam para zero. Não tendo obrigações em moedas do estado, também estas deixavam de ter valor e voltávamos a andar com papel emitido por uma data de empresas sem saber o que valiam amanhã.

        • António de Almeida says:

          Não fujo a tomar partido. Importe para Portugal a política económica e fiscal da Holanda e Irlanda. Talvez essas empresas (na verdade holding, porque a Jerónimo Martins continua sediada em Portugal), regressem e quiçá, virão outras…

          • Carlos Almeida says:

            Sr Antonio

            Os Países são diferentes.
            Prova-o o facto de na Suecia não ter havido contenção social e os numeros da contaminação não terem subido como se esperava. Mas conhecendo a Suecia como eu conheço, porque vivi la 4 anos, percebo perfeitamente.
            O distanciamento social é geral: não há apertos de mão e muito menos beijinhos como no Sul da Europa ou mesmo em França. Quando 2 amigos/conhecidos se encontram, a saudação (verbal) é apenas um “Hej”, hello em inglês ou olá em português e é tudo. Não há qualquer contacto físico social.
            Para alem de um civismo fora de serie que nunca encontrei em parte nenhuma e pelo menos 10% disso precisava-mos nós em Portugal

            Mas relativamente à Holanda: se toda a Europa fizesse de paraíso fiscal como a Holanda, lá se ia a vantagem.

            Relativamente ao J Martins, do seu comentário concluo que o dinheiro que eu e toda a gente dá a ganhar no Pingo Doce, acha muito bem que em vez de investir em Portugal vá pagar taxas aos Holandeses.
            Sendo assim, não me admira nada que concorde com o ministro das Finanças Holandes

        • António de Almeida says:

          Começo pelo fim, a minha concordância com o ministro holandês, prefiro dizer com o governo holandês, é parcial. Refiro-me aos eurobonds. E fundamento, Portugal anda há 35 anos a receber fundos e não sai da cauda da Europa. E sabemos muito bem o que aconteceu ao dinheiro que entrou no país desde 1985. Eu se fosse holandês, não quereria ouvir falar em eurobonds.
          Apesar disso, existe um outro plano, resposta a catástrofes. Situações de emergência excepcionais, requerem uma resposta excepcional. Não sei se a melhor solução serão os “coronabonds” (nome infeliz, mas utilizado para referir que serão excepcionais, como resposta à pandemia que atravessamos). Mas se forem, nada contra. Importa é que a resposta seja musculada e eficaz. Contudo há que diagnosticar a situação, ainda é cedo, porque não conhecemos a extensão dos danos. Mas a U.E. precisa responder à calamidade, porque o é.
          Quanto à diferença entre os povos, direi que para o rally da Finlândia, há quem faça fila para adquirir bilhete para um troço que se consegue aceder com facilidade. E também sabemos, que em Portugal, no autódromo do Estoril havia quem saltasse a rede para não pagar.
          Conheço mal os nórdicos, conheço muito bem os africanos. Não quer dizer que esteja disposto a pagar por eles. Ou por quem quer que seja…

          • Fascista eu ? says:

            Sempre me cheirou a retornado.

            O meu nariz não engana

          • António de Almeida says:

            Aconselho-o a usar spray nasal.

          • Paulo Marques says:

            Os fundos europeus não pagam a desvalorização interna para ser competitivo na mesma moeda. Nem podia ser de outra maneira, não há teoria que o sustente sem transferências financeiras.

      • Democrata_Cristão says:

        “E concederá que poucos tenham sido tão atacados nos últimos dias como os liberais.”

        Não concordo. Os liberais é que sabendo que o tempo não está de feição, agravado ainda com as medidas “antiliberais” que são necessárias tomar, têm tentado fazer prova de vida, mas vai ser um tempo difícil para os liberais.
        Mas a “banha da cobra”, vão ter que continuar a tentar vender

  6. Paulek says:

    O problema de lançar dinheiro de helicópteros é que, ao passo que António Costa, se a UE deixasse, talvez pudesse fazê-lo, os EUA já o fazem há tanto tempo que se chatearem muito a China, esta pode muito bem bater aqueles dólares que foi entesourando ao longo do tempo e comprar aquela merda toda, Trump incluído.

    • Paulo Marques says:

      Para comprarem, tem que estar à venda, e os EUA não são Portugal. Para estourarem a cotação, admitindo que é possível e que os exemplos de como o derrotar não existem, teriam que encontrar comprador ao mesmo preço que não se apercebesse ou deitavam as reservas fora.
      Não é assim que funciona.

  7. António de Almeida says:

    Não creio que a China busque guerra. E tem problemas económicos para resolver, na melhor das hipóteses o crescimento este ano, se o tiverem, será residual. Ok, estão melhores que o resto mundo, emergirão com mais força. Temo que no final, a U.E. saia enfraquecida. A Rússia não sei, não consigo perceber o que estará a suceder por lá.

  8. JgMenos says:

    O socialismo português não é socialista é parasitário do capitalismo.

    E se o capital sacode a carraça, ficam lamentosos e dizem que não é justo, que lhes tiram a mama, que são tadinhos e infelizes sem mama farta…

    • abaixoapadralhada says:

      La vem o Sa Lazarento lamentar-se .
      Doe-te os dentes
      Está-se a tratar de coisas sérias. Volta para 1969

    • Paulo Marques says:

      Já percebi, são maus porque preferes parasitar tu.

  9. Paulek says:

    Parasitas do povo, diria mesmo, monsieur Dupont. E direi mesmo mais: parasitas do povo.