Oito apartamentos e um sótão (3)

Segundo direito

A meio de uma linha de programação, na secretária enorme, com três ecrãs também enormes, ao fim de uma noite ininterrupta de trabalho, José recebeu uma notificação com palavras fora de uso: quarentena, confinamento. A palavra a que estava mais habituado era ‘vírus’. Segundo as notícias, as pessoas deveriam evitar ao máximo sair de casa, o que, no seu caso, era uma segunda natureza. Quando, mais tarde, soube que, durante um fim-de-semana, não seria permitido viajar para fora do concelho, lembrou-se de que já não saía do concelho há mais de um ano. Levantou-se, tão perplexo quanto possível, e foi espreitar a varanda, para perceber que já não se recordava da última vez que lá tinha estado.

Teletrabalho era só trabalho, contratos assinados digitalmente, tarefas com prazo de entrega, muito raramente um telefonema. As refeições e as compras eram, há muito tempo, embrulhos e sacos entregues em casa, papéis e plásticos que se acumulavam na cozinha e no quarto, até ao dia em que decidia, quase sem razão, sair para despejar tudo no lixo, contrariado por não haver um serviço que tratasse desse assunto.

Sair de casa era um risco, porque podia cruzar-se com um vizinho e responder a um cumprimento. Tinha-se quase desabituado de cumprimentar pessoas: os seus conhecidos eram nomes na caixa de e-mail ou nicks nos jogos online. Quando descobrira que a sua vida encaixava no estereótipo do informático, sentiu-se ainda mais tranquilo.

Uma vez, tinha experimentado contratar uma empregada de limpeza através de uma empresa. Foram as piores duas horas da sua vida, em muitos anos de mutismo e de sossego, com a mulher a cantarolar pela casa fados de esposa traída e abandonada, num tom estranhamente alegre e cheio de vibratos. Como se isso não bastasse, apesar de instruída pela empresa, não conseguiu resistir a fazer comentários que eram perguntas:

– Falta aqui uma mão feminina. Ou então é uma mão de mulher, mas pouco feminina, que, isto agora, há mulheres que não querem saber da casa. Não acredito que, de vez em quando, não tenha aqui alguma companhia, que os homens não sabem estar sozinhos.

Confirmou que não sabia – e que não queria saber – estar acompanhado. Mais valia só do que acompanhado. A mãe chegara a perguntar-lhe se se sentia feliz. Respondeu-lhe que sim, porque sabia que era isso que ela precisava de ouvir. De qualquer modo, não era propriamente mentira, porque se sentia bem. Quem se sente bem não precisa de ser feliz.

Leu algumas notícias, desconfiou de que ninguém sabia muito bem como lidar verdadeiramente com o vírus. Encomendou um conjunto de máscaras, mandou vir um hambúrguer e recomeçou a trabalhar. Deu por si a sorrir, ciente de que era, naquele momento, um cidadão cumpridor.

Comments

  1. João Paz says:

    Excelente fotografia!
    Não só pelo que mostra mas também pelo que subentende.
    Obrigado!

  2. Filipe Bastos says:

    Retrato certeiro, mais uma vez o Nabais em grande.

    Alterava “uma linha de programação” – costuma dizer-se uma linha de código; e “informático” – ou programador, ou web developer, software developer, etc. Informático soa a Windows 95.


  3. Muito bom!

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