Os supostos valores e os verdadeiros interesses: O acordo UE-Mercosul

Chovem picaretas oriundas de múltiplas direcções contra o absurdo acordo de livre comércio UE-Mercosul ((Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), que foi já assinado em 28 de Junho de 2019, mas que, para entrar em vigor, depende da ratificação de todos os países envolvidos.

Um dos posicionamentos mais actuais contra o acordo provém de 22 cientistas de diversas instituições europeias e americanas que apresentaram um estudo demonstrando que o acordo é incompatível com as diretrizes ambientais da União Europeia (UE), nomeadamente com o Acordo Verde Europeu:

Segundo os pesquisadores, os problemas centrais são que o acordo (…) não prevê sanções em caso de descumprimento de metas ambientais, não exige transparência, não traz mecanismos de rastreabilidade dos produtos e não é inclusivo – ou seja, ouviu apenas os participantes da cadeia produtiva exportadora, mas não os povos que serão diretamente impactados por ela.”

“O plano europeu objetiva preservar a biodiversidade, o meio ambiente, ser socialmente justo e inclusivo. Assim, as cadeias produtivas de alimento que abastecem a Europa precisam atender a esses critérios”. “Mas o acordo comercial pretende aumentar importações [por parte da Europa] de commodities que trazem riscos de desmatamento e de violações de direitos humanos, sem observar esses critérios de sustentabilidade, como participação [dos povos locais], consulta e inclusividade, transparência, rastreabilidade.”

Na sexta-feira passada foi a vez da comissão francesa para a avaliação do acordo UE-Mercosul, criada por Emmanuel Macron, divulgar o seu relatório. E diz: o acordo é uma “oportunidade perdida” em questões ambientais e sanitárias que irá acelerar a desflorestação nos países do Mercosul, enquanto que não inclui “quaisquer medidas eficazes para a implementação dos compromissos climáticos”.

São tantas e tão diversificadas as frentes que denunciam este anacrónico acordo – tanto do lado de cá, como do outro lado do Atlântico -, que pode ser que seja desta que o resultado venha a ser propício aos povos e ao Planeta e não ao agronegócio e à indústria química e automobilística. Macron e até Merkel já declararam que tal como está não passará e a Áustria e o Luxemburgo também acenderam o sinal vermelho. Mas nada disto é de fiar, mais jeitinho menos jeitinho.

A ver, a ver, se a fossanguice gananciosa do negócio e o seu lobby vão fazer a comissão tirar da cartola o truque da “separação” da parte comercial do acordo (retirando-a do acordo geral de cooperação mais amplo) para que possa ser ratificado por maioria qualificada no Conselho e sem passagem pelos parlamentos nacionais ou/e aquele inútil “instrumento interpretativo” que sacaram para  o CETA. Tanto quanto se tem manifestado, o governo português, com especial ênfase durante a próxima presidência, tudo fará para que este acordo avance – com ou sem as chamas no Amazonas a agilizarem as alterações climáticas, com ou sem extermínio dos povos indígenas.

Comments

  1. JgMenos says:

    Quando eu ouvir os ecologistas do 1º mundo protestarem contra o aumento de salários e pela subida do nível de vida pelo aumento do consumo, vou interessar-me pela sua indignação pela não aplicação de restrições ecológicas a países dos mundos inferiores.

    • POIS! says:

      Pois tá claro!

      Parece que lá em casa de JgMenos o cú e as calças são uma e a mesma coisa. É por isso que, lamentavelmente, o castanho ensombra o real fundo das Menos costas de forma persistente.

    • POIS! says:

      Pois, mas de qualquer modo…

      É uma boa e ealborradíssima desculpa para continuar a ser alarve a todo o gás da tripa forra. Força Menos! Mas verfique, por favor, se por debaixo está a sanita. É conveniente e a mulher a dias já anda farta. Tenha cuidado!

  2. Jose Oliveira says:

    Atão podes esperar sentado, porque está provado, quem espera nunca alcança…..


  3. A cambada só pensa em comer tudo, e dizem aos pobrezinhos que olhem a paisagem!
    Que românticos!

    • POIS! says:

      Pois é verdade!

      E enquanto contemplam a paisagem, vem à mente dos pobrezinhos uma vetusta canção:

      “No céu cinzento sob o astro mudo
      Batendo as mamas pela noite calada
      Vêm os Menos com pés de veludo
      Mamar o caldo fresco da cambada

      Eles mamam tudo, eles mamam tudo
      Eles mamam tudo e não deixam nada
      Eles mamam tudo, eles mamam tudo
      Eles mamam tudo e não deixam nada”

      Que romântico, senhores!


    • O excelente artigo de Ana Moreno sobre o acordo Mercosul-UE leva-me a sublinhar dois aspectos. O 1º é que o acordo já está em vigor, mesmo antes de os parlamentos o ratificarem. Se algum recusar, depois logo se vê. Ainda agora, Malta recusou ratificar o CETA, mas há clausulas que permanecem activas por muitos anos, mesmo após o chumbo.
      O 2º ponto é que estes e outros acordos integram-se na política da UE, pois o que é preciso é promover o comércio a todo o custo. Que se lixem os cidadãos, as comunidades, o ambiente, a saúde pública, os serviços públicos e tudo o mais. É fundamental aplicar o lema das grandes corporações: tudo para nós e nada para os outros!!!!!!!!!!!

    • Paulo Marques says:

      Não me diga que faltam ricos e adoradores para comer durante muitos anos…


  4. Vai-se a ver e cambada quer altos salários, não para consumo que gera este horroroso comércio, mas para se dedicarem a obras de benemerência internacionalista.

    • POIS! says:

      Pois claro!

      Há até aquela canção que os tristes benemerados entoam, em tom de lamento:

      “São os Menos do universo todo
      Mamões à força treteiros à coca
      Enchem os bandulhos bebem vinho verde
      Dançam a tanga lá n’A Badalhoca

      Eles mamam tudo, eles mamam tudo
      Eles mamam tudo e não deixam nada
      Eles mamam tudo, eles mamam tudo
      Eles mamam tudo e não deixam nada”

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