Pior do que o cego…

Estamos, diariamente, a assistir à destruição de qualquer resquício de ética republicana que pudesse ainda existir. E, pior, as perspectivas de tal ser travado estão completamente fora de hipótese, a avaliar pela postura dos partidos com representação parlamentar que, em teoria, poderiam fazer algum tipo de diferença.

Desde logo, temos um Presidente da República (doravante PR, pois não merece mais do que uma sigla), que está transformado num autêntico porta-voz propagandista do Governo e da sua agenda. E que todos os dias nos aparece na televisão a vender a política do governo, seja de fato e gravata, seja de calção de banho.

Da mesma forma que cria, conjuntamente com o Governo, um conveniente princípio de não recondução nos cargos, com que justifica a não recondução da incómoda Procurador Geral da República, Joana Marques Vidal e, recentemente, do também incómodo Presidente do Tribunal de Contas, Vítor Caldeira.

Houvesse um mínimo de coerência, e o PR, para dar o exemplo da regra por si defendida, não se recandidatava.

Mas, há mais.

Hoje, no arranque no novo modelo de debate parlamentar, Rui Rio indagou o Primeiro Ministro (doravante PM pelas mesmas razões atrás ditas), sobre o exponencial aumento da mortalidade em Portugal, muito além das vítimas mortais do Covid-19.

Em resposta, o PM retirou da sua cartola mágica, um dito estudo preliminar que associa o aumento da mortalidade… ao calor!

Semelhante resposta, com acrescido cinismo que poderia disponibilizar tal estudo se Rui Rio assim quisesse, é bem demonstrativo da falta de vergonha que nenhuma máscara pode disfarçar.

É absolutamente execrável, querer fazer passar a mensagem que o aumento da mortalidade em Portugal – com todo o drama que tal comporta -, nada tem a ver com o estado do SNS.

Que o adiamento de tantos milhares de consultas, cirurgias, tratamentos, rastreios, exames, etc., nada tem a ver com tantos milhares de mortes a mais que o país teve.

A culpa, foi do calor!

Mas, o mais grave foi o facto de nenhum líder partidário, a começar pelo próprio Rui Rio, ter sido capaz de dar um murro na mesa e manifestar indignação perante semelhante falta de respeito pelas vítimas mortais da falência do SNS.

Um exemplo grotesco daquilo em que se transformou a política na nossa República.

É esta a República que temos: vazia, amoral, intriguista, teatral e, acima de tudo, negociável.

Só não vê quem não quer.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Deixa-te disso, o contabilista está contente por equilibrar as contas do SNS e da SS ao mesmo tempo, que, afinal, é para isso que apoliticamente existe governo.

    • Albino manuel says:

      oh paulinha, a coisa não está tão mal assim. O SNS e a Ss ainda têm massa para que te possam fazer e à Pois a transição completa . Clic clic e fica um buraco. E tudo à conta do contribuinte.

  2. Manuel Pacheco says:

    Deixem-se de ser parciais. Tenham em atenção às normas criadas. E essa norma data de 1997. Não criem confusões em quem está confuso.

  3. azeitona says:

    A vaga de calor na Europa em 2003

    “ França
    Estima-se que 14 802 pessoas, a maioria idosos, morreram na França por causa do calor, segundo o maior serviço funerário do país.[1] Os verões franceses não são usualmente muito quentes, principalmente ao norte. Como consequência, a maioria das pessoas não sabe como se proteger – por exemplo, contra a desidratação –, e a maioria dos lares e casas de repouso não são equipados com ar-condicionado, embora haja sistemas de emergência contra vários tipos de catástrofe.

    A onda ocorreu em agosto, um mês em que muitas pessoas, inclusive membros do governo, estavam em férias ou recesso.

    Muitos corpos ficaram meses sem ser identificados, porque parentes estavam viajando. Um galpão refrigerado na periferia de Paris foi usado por empresas funerárias, porque suas instalações não comportavam o número de cadáveres. Em 3 de setembro, 57 corpos foram enterrados como indigentes em Paris, porque não havia quem os reconhecesse.

    Itália
    Cerca de 20 mil morreram na Itália[2] quando a temperatura oscilou, em muitas cidades, entre 38 °C e 40 °C durante semanas, segundo o eurosurveillance.org[carece de fontes]. Outras fontes divulgaram números menores, não só para a Itália. Para a revista New Scientist, houve 4.200 mortes na Itália e na Espanha devido à onda de calor.[3] O britânico The Guardian chegou ao número de 1.000 mortes na Itália e 4.000 na Espanha.[4]

    Reino Unido
    No Reino Unido foi registrada a máxima recorde de 38,1 °C (100,6 °F) em Gravesend, Kent, em 10 de agosto. A temperatura mais alta até então foi de 37,1 °C (98,8 °F), em Cheltenham. Análises posteriores revelaram temperaturas altas freqüentes em Brogdale Orchards, uma milha ao sul de Faversham, atingindo 38,5 °C (101,4 °F) em 10 de agosto.[5]

    Uma análise retrospectiva, publicada em 2005, informou que 2 139 pessoas morreram por causa da onda de calor, no período de 4 a 13 de agosto.[6]

    Etc etc

  4. Raul Ferreira says:

    Porque será que os J. Mários Teixeira gostam tanto dos Vitor´s Caldeira, que até deverá ser uma pessoa séria?
    Se são investidos por um determinado periodo de tempo porque teriam de ser reinvestidos?
    Ontem ouvi o Economista-Chefe (sem precisar de ter passado por nenhuma Faculdade de Economia).
    Não o via tão exacerbado deste que, nas vésperas da resolução do BES, dizia isto:

    https://videos.sapo.pt/U3qgKmZBw6i2GGIGrqGh

    E, em vez de ter já fugido para longe de um canal de televisão, não se envergonha e lá continua.
    A SIC devia ser obrigada a, como prometeu, divulgar a lista dos jornalistas avençados do BES.

  5. Raul Ferreira says:

    Perceber-se-à depois, mas o Economista_Chefe referido é o da SIC.


  6. Neste país de tretas, tolerâncias e compadrios, os treteiros em mais altos cargos são claros:
    É preciso desbundar os dinheiros da UE de qualquer maneira, e não se pode contar com um sector privado descapitalizado, massacrado de impostos, regras e regrinhas, taxas e taxinhas, sempre com a canzoada esquerdalha a ladrar-lhe às canelas.

    Vai daí, há que dar roda livre ao puteiro público, aproveitando o seu enorme talento para derreter dinheiro e financiar partidos.

    • Paulo Marques says:

      Certo, todo descapitalizado e sem lucros, o Panamá enche-se sozinho e afinal o Núncio não apagou nada.
      Mas, enfim, falando das PMEs que o Menos finge que se preocupa, quer que tenham capital para fazer o quê?

      • Filipe Bastos says:

        …falando das PMEs quer que tenham capital para fazer o quê?

        Para pagar salários, mais 34.75% TSU, mais a retenção IRS – conhece algum candidato ou funcionário que não fale apenas em salário líquido? – mais subsídios, mais o IVA antecipado, mais os pagamentos por conta e especiais por conta, mais os seguros e taxas obrigatórias, mais…

        Só para isso já não era mau.

        Esquerda e direita são iguais numa coisa: só lhes interessa o que é grande. 98% ou mais do país são PME, mas para eles valem zero. Não rendem tachos nem mama…

        No caso dos comunas é também ideológico: na sua mente está sempre a imagem lírica dos milhares de trabalhadores a caminho da fábrica, como nos bons tempos da URSS. Que saudades…

        • Paulo Marques says:

          Pronto, resolveu as contas durante 2 ou 3 meses. E depois?
          Eu não disse que não são relevantes; são essenciais, até porque são o que há depois do empreendedorismo dos últimos 30 anos. Digo que atirar dinheiro, como sempre escolhendo vencedores, não resolve nada. E, não, atirar dinheiro aos trabalhadores não seria diferente, não que alguma vez isso fosse acontecer.

  7. Tal & Qual says:

    Estou a lembrar dos dinheiros no tempo da Cavacaria…
    A canzoada direitrolha não se amanhou com nada, não senhor!
    Deves estar vestido com a roupinha da Mocidade Portuguesa.
    Verde e amarelo caqui e bracinho estendido com a palminha da mão virada para baixo… vai excretar !!


  8. O professor Martelo virou Caçador de velhos e velhas Martelo em Março de 2020…

    Votem no Caçador, especialmente os velhos e velhas, e assim já sabem que têm garantida uma divertida morte num qualquer lar, ou zona de caça especial equivalente, durante o próximo reinado presidencial.

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