Os “burgueses do teletrabalho” e outras oligarquias

Há tempos, quando a Mercadona abriu a sua loja na minha cidade, escrevi no Facebook que não me via ser cliente do supermercado espanhol, por ter o mesmo que os outros, que são portugueses, e por praticar mais ou menos os mesmos preços. Pouco tempo depois, ironia das ironias, tornei-me cliente da Mercadona, que ocupou o lugar outrora ocupado pelo Continente. E a que se deveu esta minha mudança de comportamento? A vários factores: o primeiro foi ter descoberto que a Mercadona tem políticas laborais que, no sector, se distinguem claramente dos restantes, nomeadamente na forma como tratam e recompensam os seus trabalhadores. A isto acresce que, em bom rigor, comprar à Mercadona ou comprar ao Continente, ou a outro supermercado qualquer de nacionalidade portuguesa, com sede na Holanda, vai dar ao mesmo. Para além de que a Mercadona, usando código de barras espanhol, compra grande parte dos seus produtos a produtores portugueses, numa proporção que não estará muito distante da concorrência. On top of that, é ao lado da minha casa, ao passo que os restantes supermercados está quase todos concentrados do outro lado da cidade. E isto, numa primeira fase, chegou-me.

Posteriormente, um novo factor veio juntar-se aos restantes. Se precisar de ajuda, para encontrar um produto na Mercadona, não tenho que andar de um lado para o outro à procura de um funcionário para pedir ajuda. Há, pelo menos cá na Trofa, funcionários em praticamente todos os corredores. E isso não acontece nem no Continente, nem no Pingo Doce. E eu ainda sou do tempo em que essa era a regra. Hoje, neste tempo em que o sector está dominado por estes dois gigantes, com sorte encontramos um funcionário a fazer reposição, que, em princípio, irá chamar um colega, porque a área dele não é aquela e ele não consegue ajudar.

Não que isto me faça grande diferença, até porque o grosso das compras cá de casa foi transferido para o Mercado da Trofa e para o Pomar Coutinho, que é mesmo aqui ao lado e que tem quase tudo o que precisamos. Mercadonas, Continentes e Pingos Doces servem apenas para ir buscar aquela meia dúzia de produtos de que os espaços mais pequenos não dispõem. E faço questão de defender e incentivar, sempre que tenho essa oportunidade, a que todos os que me rodeiam recorram aos pequenos comerciantes. Por inúmeros motivos sobre os quais já aqui escrevi, pelo que não me alongarei. Até porque dei esta volta toda para ir ao tema que me traz aqui, que é a entrevista dada pela professora Susana Peralta, académica que muito respeito, mas que se saiu com uma proposta com a qual não poderia estar em maior desacordo: taxar os “burgueses do teletrabalho” para ajudar a pagar a crise.

Confesso que não sei bem em que país vive a professora Peralta, mas seria útil que se inteirasse do seguinte: parte significativa desses “burgueses do teletrabalho” são trabalhadores jovens, com salários de 700 ou 800 euros brutos, que estão em casa a tentar teletrabalhar com um ou mais filhos a exigir atenção e cuidados. Mas Susana Peralta acha que esta “burguesia” não foi tão afectada como aqueles que perderam o emprego ou viram os seus negócios encerrados à força, pelo que devem pagar uma parte da factura.

Já eu tenho uma ideia diferente, que, honra lhe seja feita, dificilmente colherá grande apoio para os lados da Nova School of Business and Economics, onde lecciona a professora Peralta. A minha ideia passaria por, ao invés de taxar a “burguesia do teletrabalho”, taxar a “oligarquia da grande distribuição”. A tal que fez desaparecer os trabalhadores dos corredores, que nos obriga a andar à procura do Wally ou a incomodar o trabalhador que está ocupado com a reposição, transformado em pau para toda a obra. Se a ideia é ter soluções-limite para uma situação-limite, que pague quem pode e não os desgraçados que estão em casa a gastar a sua luz e a sua internet para trabalhar, com as crianças a gritar pela casa fora, ou com vários filhos sintonizados na telescola.

E quem diz a grande distribuição diz as operadoras móveis, os serviços de entretenimento digital, como a Netflix, a Amazon ou o Facebook, e todos aqueles que, fruto da situação que vivemos, viram aumentar substancialmente os seus lucros, como a indústria farmacêutica. Não faltam opções. O que não pode ser opção é obrigar os remediados a remediar os desesperados, sem que aqueles que realmente ganharam com a pandemia sejam sequer beliscados. Fica a sugestão não-académica deste teletrabalhador burguês.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Quanto ao Mercadona, de acordo: se compra a portugueses, se emprega tantos ou mais portugueses que os outros, se no resto é parecido, até melhor ou mais conveniente, seria hipócrita dizer que não ia ao Mercadona. Eu também ia.

    Em Lisboa o Corte Inglés, embora careiro, é também superior ao Continente e afins. Claro que são todos mamões.

    Quanto à Peralta também de acordo, com uma ressalva: para variar, e ao contrário do habitual nestes ‘especialistas’ – lembro por ex. o falecido António Borges que queria a malta a ganhar menos, menos ele, claro – ela incluiu-se no lote a taxar.

    O pecado da Peralta é o de quase todos os economistas, sobretudo os que como ela têm bons tachos: o capitalismo e o status quo são sagrados; tudo deve ser sacrificado no seu altar. Taxar mamões? Limitar a riqueza? Nunca na vida.

    E cursos como o da Católica/Nova, ou os do INSEAD do falecido Borges, cá estão para garantir que as novas gerações afinam pelo mesmo diapasão. Ninguém pode questionar o mantra.

    Mas repito, ela inclui-se no lote a taxar. Menos mal. Resta saber de quanta mama abdicaria a senhora professora.

    • POIS! says:

      ois pois!

      Afinal, para V. Exa. há profissões que são “merdadetouro” (deixemo-nos de americanices), mas entre elas não estarão duas que exerce quotidianamente: a de “Extintor de Empregos Merdadetouro”, é claro, e a de “Elencador de Mamões”.

      Fruto da denodada investigação de V. Exa. a lista de mamões cresce que é uma coisa parva. Só ontem, entraram diretamente os consultores de comunicação, os economistas (“quase todos”) e os professores universitários (pelo menos, haverá outros). Já lá estavam antes os maestros, os humoristas e os escultores de monumentos (que só servem para turistas).

      O fim de semana ainda não acabou, pelo que se aguardam desenvolvimentos. A partir de amanhã volta-se ao trabalho. Com um bocado de sorte, talvez haja umas encomendazitas de chulecomamões merdadetouro para compor o orçamento.

    • Filipe Bastos says:

      Pois confunde aí alguns conceitos, POIS. Eu ajudo.

      Bullshit jobs são grande parte dos empregos de hoje, incluindo o meu. Vamo-nos entretendo uns aos outros, contribuímos para o sagrado PIB, mas o valor real disto é nulo: só tem valor nesta bullshit society que inventámos.

      Quanto a qualificativos, temos chulos e temos mamões.

      Chulos, que podem ir de chulecos a chulões, vivem de tachos, subsídios e sinecuras, pouco ou nada produzem de válido, ou são desproporcionalmente remunerados pelo que fazem.

      Exemplos: toda a classe pulhítica; líderes sindicais; juízes; ‘gestores’ e ‘consultores’ em geral; muitos pseudo-artistas.

      Mamões são os top dogs (ou fat cats) da chulice; são os reis da mama. Estão noutra escala: grandes empresas ou indíviduos obscenamente remunerados pelo que fazem.

      Exemplos: Amazon, Google, EDP, Galp, o Mamão Mexia, o Mamão Salgado, o bronco mamão Ronaldo.

      • POIS! says:

        Pois estou a compreender. Ou melhor, a começar, que a coisa é mais para Bastos & Bastinhos iniciados na “Bastonaria Regular” e na “Carbastonária”.

        Ainda bem que respondeu porque reparei que não falei sobre a proposta do imposto Peralta (como sabe os impostos em Portugal têm nomes, apelidos e tudo).

        Ora, pensei bem e reparei que, para V. Exa. o imposto serve sobretudo para castigar os chulecos e mamões repimpados nos tachos. De resto, só servirá para engordar o Estado que é governado por mamões que vão gastar o dinheiro de forma a beneficiar chulinhos, chulecos, mamões, reis da mama, mamões de chulecos e chulecos de mamões, entre os quais avultam os professores de Economia que só servem para treinar a malta jovem na arte da mama, para que venham a afinar pelo diapasão do lávaimama a 440 Hertz.

        Qual a solução? Bem, criar umas categorias de cidadãos que, de forma simples, seriam chamados a pagar o Esforço de Guerra ao Bicho. Para começar, e atendendo a que se trata de um Bicho, proponho todos os que tenham apelidos começados por B.

        Estou certo do seu apoio! Olhe que eu não posso fugir! Um BOT não escapa!

        A ideia é estúpida? Ora essa! Olhe que já tenho apoios significativos.

        O impresário Pinto Talsemão diz que é justo. O Durão Jarroso, por exemplo, também está plenamente de acordo ( Jarroso? Não me diga que os gajos da Goldmen Saques…).

        Se não chegar, a Berkel, o Bacron e mesmo o Butte vão ser chamados à coleta.

    • LUIS COELHO says:

      Não conheço a prof paralta, já estou reformado (faço parte da PESTE GRISALHA) como fomos apelidados por um fdp da A.R., mas a conversa e intensão dessa mulher, só me provoca uma resposta:- VÁ Á MERDA prof.!

  2. Paulo Marques says:

    Nem ela sabe ao que se referia, no dia seguinte corrigia no Twitter para rendimentos de capitais e investimentos, coisas que qualquer trabalhador tem. O como ficou na gaveta, porque quem menos precisa pode deixá-los parados à espera do fim das taxinhas, retirando ainda mais dinheiro à economia.
    Espertices.